ViMoCast 42: O Custo Psíquico de Cuidar com Dr. Henrique Ribeiro

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Introdução: A Interseção Entre Psiquiatria e Cuidados Paliativos

Neste episódio, recebemos o Dr. Henrique Ribeiro, médico psiquiatra, psicoterapeuta e paliativista com atuação no Instituto de Psiquiatria e no Núcleo Técnico Científico de Cuidados Paliativos do Hospital das Clínicas da USP, além de colaborador no Hospital Sírio-Libanês. A conversa explora a profunda e necessária interface entre a psiquiatria e os cuidados paliativos, desafiando a visão reducionista da medicina e propondo uma reflexão sobre a finitude, a alma e o cuidado como essência da existência humana.

Henrique compartilha sua jornada pessoal e profissional, desde o interesse inicial por engenharia aeronáutica e cirurgia de transplantes, até sua especialização em psiquiatria e, posteriormente, em cuidados paliativos. Essa trajetória foi marcada por experiências transformadoras na fronteira entre a vida e a morte, como o momento em que, durante uma captação de órgãos, segurou um coração que parou de bater em suas mãos, levando-o a questionar os limites objetivos da morte.

A Jornada de um Psiquiatra Paliativista: Da Engenharia à Alma

Henrique relata que sua vocação inicial era engenharia aeronáutica, mas que a influência familiar (pai psiquiatra e mãe psicóloga) e um interesse crescente pela biologia o direcionaram para a medicina. Inicialmente, ele seguiu para a cirurgia, especificamente para a equipe de transplante de órgãos, onde teve seu primeiro contato intenso com a finitude.

Foi durante um procedimento de captação de órgãos que ele viveu um marco decisivo: ao aspirar o sangue do paciente para a perfusão da solução de preservação, o coração parou em sua mão. A enfermeira, por engano, registrou a "hora do óbito" no local da hora do clamp, gerando uma discussão bioética no centro cirúrgico sobre o que define a morte. Essa experiência, somada a outras vivências com famílias de doadores e receptores, despertou nele a necessidade de compreender a dimensão psicológica e existencial do sofrimento, levando-o à psiquiatria e, posteriormente, aos cuidados paliativos.

Durante a residência em psiquiatria, ao testemunhar uma tentativa de suicídio em um plantão, Henrique percebeu que a abordagem paliativa poderia oferecer ferramentas essenciais para lidar com casos graves. Ele então criou um projeto piloto de cetamina para tratamento antidepressivo ultra-rápido em pacientes em fim de vida (2013-2014), uma novidade para a época no Brasil, o que abriu as portas para seu estágio em cuidados paliativos. Hoje, ele é preceptor e recebe residentes de psiquiatria e de cuidados paliativos, consolidando uma via de mão dupla.

Transformação Pessoal e Profissional

Henrique enfatiza que trabalhar na fronteira da vida e da morte não é apenas um desafio técnico, mas uma jornada de transformação pessoal. Ele afirma que, se o profissional não estiver aberto a essa transformação, pode adoecer. “Se não acontecesse, eu adoeceria”, diz. Para ele, a blindagem emocional se torna obsoleta, pois o profissional é forçado a encarar sua própria finitude.

Ele cita um artigo de um psiquiatra canadense que antecedeu a definição da OMS sobre cuidados paliativos, discutindo o sofrimento da equipe diante de casos graves. Esse sofrimento, quando testemunhado, implica que o profissional olhe para seu próprio processo de finitude. Por isso, Henrique pergunta aos residentes se estão com a terapia em dia, pois ele mesmo saía chorando do ICESP em seu R3, vivenciando experiências afetivas intensas.

Essa transformação é comparada à metanoia (conceito pré-hipocrático de cura como transformação pelo sentimento). Henrique menciona a frase inscrita em um monastério na Macedônia: “E se você morrer antes de morrer, então quando morrer não vai morrer”. Morrer simbolicamente, elaborar o luto e a finitude é um processo inevitável; brigar contra isso leva ao adoecimento.

Psiquiatria Paliativa: Cuidando do Sofrimento Existencial

Henrique provoca os psiquiatras ao afirmar que a psiquiatria é, por natureza, paliativa. Ele argumenta que todos os pacientes psiquiátricos lidam com o sofrimento crônico e com a finitude, e que o psiquiatra deveria incorporar os princípios dos cuidados paliativos em sua prática. “Esquizofrenia não é todo mundo que vai ter, transtorno bipolar não é todo mundo que vai ter, insuficiência cardíaca não é todo mundo que vai ter. Morrer, todo mundo vai.”

O conceito de bumerangue é introduzido: a negação da morte é universal (como discutido por Ernest Becker em "A Negação da Morte" e por Freud), mas quando o profissional ou o paciente encara a morte como possibilidade inequívoca, ele não pode mais fugir. A experiência volta, como um bumerangue, e exige elaboração. A metáfora da arrebentação do mar ilustra a travessia turbulenta necessária para alcançar um estado de maior aceitação.

Um exemplo clínico é dado: um paciente com doença grave, lúcido, que chorava ao pensar na reação da mãe e da esposa à sua partida. Enquanto a esposa negava (“Você não vai morrer”), ele dizia ao médico: “Tenho certeza da minha ressurreição, mas não tenho certeza que não vou morrer”. A forma como ele lidava com sua finitude era completamente diferente de pacientes que insistem na negação.

A Teoria do Terror e o Movimento Pendular

Henrique referencia a teoria do gerenciamento do terror, que descreve a angústia não como medo, mas como terror diante da morte. Ele cita Irvin Yalom, que compara olhar para a morte a olhar para o sol: não se pode fitá-lo diretamente o tempo todo sob risco de cegar; é preciso um movimento pendular, olhando na penumbra e retornando para a vida.

Ele compartilha uma experiência pessoal: após uma reunião familiar intensa sobre finitude com a esposa, ambos choraram. No dia seguinte, ao levar a filha de 8 anos para o acampamento, ele comentou: “Já vou me experimentando nesse luto”. A esposa pediu que ele parasse, demonstrando como mesmo tendo consciência, as pessoas se protegem para continuar vivendo. Essa tensão entre o saber e o viver é constante.

O Tempo do Eterno vs. Tempo Cronológico

Uma das discussões centrais é a diferença entre o tempo cronológico (chronos) do mundo ordinário – cheio de compromissos, checklists, produtividade – e o tempo do eterno (kairos), que emerge quando se está diante da morte. Esse tempo é subjetivo, qualitativo e transformador. Os pacientes em fim de vida, assim como os profissionais paliativistas, vivenciam o kairos, onde o valor do tempo se altera radicalmente.

Henrique descreve a dificuldade de sustentar essa tensão: ao sair do leito de um paciente que está morrendo, o médico precisa voltar a negociar com gestores, atender à demanda de consultas, pagar contas e cuidar da família. O desafio é integrar essas duas dimensões sem perder a autenticidade. Ele sugere que essas experiências criam “furos na malha espaço-tempo”, momentos em que a realidade materialista se rompe, permitindo contato com algo maior.

Exemplos desse tempo diferente incluem: a paciente que pergunta “Você vai estar comigo na minha hora?” e ele responde com honestidade: “Se eu estiver vivo, sim”. A risada compartilhada diante da incerteza revela a fragilidade da onipotência. Outra metáfora é a do “não olhe para cima”, filme de Leonardo DiCaprio, que mostra como a sociedade nega uma ameaça existencial universal, até que ela se torna inevitável.

Pandemia, Catástrofes e o Bumerangue Coletivo

Henrique compara a experiência da pandemia de COVID-19 e das enchentes no Rio Grande do Sul (onde atuou com a Força Nacional do SUS) com o bumerangue coletivo. Por um breve período, a sociedade inteira foi forçada a encarar a morte de perto, o que gerou solidariedade e reflexão. No entanto, passada a crise, muitos voltaram à negação e ao ritmo frenético anterior. Ele lamenta que essas experiências não sejam suficientes para uma transformação duradoura, e que os profissionais de saúde que atuam na linha de frente da morte (cirurgiões, paliativistas, intensivistas) têm a oportunidade, mas também o risco, de sustentar essa consciência de forma contínua.

Quando tudo dá errado, o que sobra é o cuidado e as relações de amor. Essa é a urgência civilizacional: mudar um modelo baseado no materialismo, na onipotência do ego e na destruição da natureza, para um modelo centrado no cuidado, na finitude e na espiritualidade.

Experiências de Fim de Vida: Para Além do Materialismo

Henrique relata sua participação em uma revisão sistemática sobre experiências de fim de vida, ao lado do professor Alexander e da professora Thaís. Inicialmente cético, com um viés materialista (atribuindo tais experiências a delirium, disfunção metabólica ou desconectividade cerebral), ele foi aos poucos se abrindo à medida que os dados e as vivências clínicas se acumulavam.

Ele menciona fenômenos documentados como a mudança de comportamento animal (o caso do gato Oscar, publicado no New England Journal of Medicine, que se aproximava do quarto de pacientes que iriam morrer). Paralelamente, ele testemunhou sua própria cadela latindo freneticamente de madrugada, despertando toda a casa, dias antes da morte de um paciente. Outro exemplo: sonhos e visões de leito de morte, que ele passou a acolher com mais abertura, percebendo que pacientes e familiares muitas vezes evitam relatar por medo de julgamento.

Henrique defende que o estudo dessas experiências – incluindo as de quase-morte, sincronicidades e estados meditativos profundos – aponta para uma teoria do filtro cerebral: o cérebro não produziria a consciência, mas a filtraria. Quando há desconexão (por morte, delirium, meditação ou psicodélicos), seria possível acessar uma realidade mais ampla. “Quanto mais estudo, menos sei”, admite.

A Urgência Civilizacional da Espiritualidade

Para Henrique, a espiritualidade e o debate sobre a finitude não são temas marginais, mas urgências civilizacionais. Ele aponta que a negação da morte leva a guerras, destruição ecológica, consumismo desenfreado e adoecimento mental. A pandemia e as catástrofes naturais são lembretes, mas não sustentam a transformação. É preciso um trabalho contínuo, dentro da prática clínica e da vida pessoal, para integrar o tempo do eterno ao cotidiano.

Ele sugere que os profissionais de saúde, especialmente psiquiatras e paliativistas, estão em posição privilegiada para liderar essa mudança, acolhendo as perguntas existenciais dos pacientes sem reducionismo. “A gente já é maluco, então a gente fica à vontade”, brinca, referindo-se à licença poética do psiquiatra para falar de alma e transcendência.

Recomendações de Filmes, Livros e Arte para Acessar o Inefável

Henrique ressalta que a arte, a poesia e a música são essenciais para lidar com o inefável – aquilo que escapa às palavras e à razão. Ele recomenda as seguintes obras para quem deseja se aprofundar nessa temática:

  • "A Negação da Morte" (Ernest Becker): livro vencedor do Prêmio Pulitzer, denso, que analisa a relação defensiva da humanidade com a morte e suas consequências.
  • "Ciência da Vida Após a Morte" (Alexander, Mariana, Bert Schuber): livro curto, escrito por três brasileiros, que explora evidências científicas sobre experiências de quase-morte e a continuidade da consciência.
  • "Não Olhe para Cima" (filme, dirigido por Adam McKay): uma tragicomédia sobre a negação de um meteoro que destruirá a Terra, mostrando diferentes níveis de negação e a histeria coletiva.
  • "Interestelar" (filme, dirigido por Christopher Nolan): aborda a distorção do tempo, a insignificância humana diante do cosmos, e as relações de amor que transcendem dimensões.
  • "Matrix" (filme, dirigido pelas irmãs Wachowski): questiona a natureza da realidade, da consciência e dos limites da percepção humana.
  • "Animatrix" (animação expandindo o universo de Matrix): também traz reflexões sobre realidade, controle e transcendência.

Henrique incentiva os profissionais e o público em geral a usarem a arte como ferramenta de exploração existencial, complementar à clínica e à ciência.

Conclusão: O Chamado para o Cuidado Autêntico

O episódio termina com um chamado à autenticidade: não se trata de negar o mundo ordinário (compromissos, trabalho, contas), mas de sustentar a tensão entre esse mundo e a consciência da finitude. O segredo não é fugir da morte, mas viver cada escolha com plena consciência de que o tempo é limitado. Aprendemos com os pacientes que estão morrendo: eles nos ensinam que viver é urgente, que não há tempo a perder com o que não tem sentido.

Henrique Ribeiro nos deixa uma provocação final: que possamos nos encontrar em algum plano dessa malha espaço-tempo, e que o cuidado e o amor sejam o que restarão quando tudo o mais ruir. Ele convida os interessados a conhecê-lo na página da Clínica Henrique Ribeiro e na Henrique Ribeiro Academy, onde oferece cursos online sobre cuidados paliativos e psiquiatria, mantendo viva a discussão sobre saúde mental, sofrimento psíquico e doença grave.