Introdução: A Conexão Entre Arte, Cultura e a EJA no Projeto Alfaeja Brasil
O podcast Alfaeja Transforma Brasil, parte do projeto Alfaeja Brasil, uma parceria entre o Instituto Paulo Freire e a Petrobras, reúne especialistas para discutir um tema de vital importância: a valorização da cultura e da arte popular no currículo da EJA. O episódio é mediado pelo professor Paulo Roberto Padilha e conta com a presença da professora Luía Cristóvão, do Instituto de Artes da Unesp; do poeta, jornalista e educador André Gravatá; e do arte-educador e professor Leandro Liva, também da Unesp. A conversa gira em torno da necessidade de reconhecer a cultura como um elemento central e não acessório no processo de educação de jovens e adultos.
Por que a Cultura e a Arte são Fundamentais para a EJA?
A professora Luía Cristóvão inicia a reflexão afirmando que a EJA é um momento de formação, conhecimento e, sobretudo, um grande encontro. É uma oportunidade para elaborar sentidos sobre a existência, os territórios e o país. Para ela, cultura é palavra plural, representando os diversos modos de vida. A arte, por sua vez, é uma linguagem criada por nós, seres de linguagem. A importância de inserir a cultura e a arte no currículo da EJA reside na própria natureza humana de criar modos de viver, conviver e marcar presença no mundo. Nesse sentido, a EJA deve ampliar a experiência de linguagem e a condição de leitura do mundo, conceito fundamental em Paulo Freire.
Relatos de Experiência: A Arte que Reconhece e Dá Voz
O poeta André Gravatá compartilha uma memória marcante de uma experiência no CIEJA Cloves Caetano, no bairro de Parque Bristol. Durante uma atividade de poesia, um aluno fez a poderosa afirmação: "No poema tem mais que o poema". Esta fala ecoou como um princípio: na música, no desenho e na cultura, sempre há mais do que aparenta. Para André, o verdadeiro chamado de uma educação que faz sentido é aquele em que o aluno se sente à vontade para ser quem é, quem pode ser e quem quer ser. Ele aprendeu imensamente com a fala daquele senhor, reconhecendo que, na fala do outro, há muito mais do que apenas palavras.
Leandro Liva complementa, destacando um pilar central que une os convidados: a valorização da identidade do sujeito. Resgatar o saber da experiência feito, tão caro a Paulo Freire, é o ponto de partida. Para ele, o grande desafio é integrar os saberes vividos com os novos conhecimentos de forma natural, colocando a pessoa e sua história em primeiro lugar. A arte é essencial nesse processo, pois atua como um elemento integrador dos diferentes componentes curriculares, potencializando o sujeito a ser cada vez mais ele mesmo.
O Desafio da Formação de Professores e a Invenção nos Territórios Ásperos
Respondendo à pergunta sobre como traduzir essa valorização na prática, Luía afirma que os primeiros agentes desse processo são os próprios professores, que são agentes e seres de cultura. Um bom processo de formação deve começar com a escuta do universo cultural do professor. Um segundo movimento importante é conhecer o que já está proclamado nas diretrizes curriculares (como as da cidade de São Paulo), que indicam a consideração da cultura local. Por fim, ela destaca a importância de colecionar e divulgar experiências inventadas nos territórios mais adversos, tanto em condições materiais quanto em relações de poder. Mostrar que, mesmo no território áspero, o professor pode inventar, ouvindo seus estudantes e a si próprio, é um ato de resistência e criação.
O Conceito de "Intimizar": Criando Laços com o Território e com o Outro
André Gravatá resgata uma fala de Paulo Freire ao retornar do exílio, quando afirmou precisar "se intimar de novo com o Brasil". Para o poeta, esta palavra é bem-vinda ao discutir território e educação. Criar intimidade com o território é um processo sem fim, que envolve se surpreender com suas tragédias e se encantar com o que não se conhecia. Ele exemplifica com a experiência no projeto Conexão Felipe Camarão, no Rio Grande do Norte, onde a cultura local (Boi de Reis, rabecas) é o motor da comunidade. As sessões de cinema com a EJA, exibindo filmes do cineasta local Carito Cavalcante, são um exemplo prático de como criar essa intimidade. Trata-se de ir além do pedagógico, assumindo um projeto político que combate a desvalorização cotidiana das manifestações culturais populares, que precisam ser justificadas o tempo todo diante do conteúdo científico hegemônico.
E Se a Pessoa Não Quiser Ser Alfabetizada? Direito, Escolha e as Múltiplas Linguagens
O mediador, Paulo Roberto Padilha, lança uma provocação desafiadora: e se uma senhora quilombola de 90 anos não quiser ser alfabetizada, mesmo com toda a valorização cultural? Luía responde que todos os corpos são seres de afirmação de sua existência. Se essa pessoa não quer aprender aquela língua, ela tem outra. O direito a ser garantido é o de ela poder trazer a sua própria língua, seu modo de dizer o mundo. A arte entra aqui como direito à ampliação da condição de dizer. Através da arte, pode-se desenhar, bordar, dançar, fotografar, enfim, manifestar a existência por múltiplos recursos. A arte não é um luxo, mas um direito que deve estar em todos os níveis, pois garante a expressão para além da palavra escrita.
Andrá Gravatá complementa com a emocionante história de sua avó, dona Maria, uma mulher analfabeta que viveu no sertão da Bahia. Questionado por jovens sobre como ela poderia ser uma referência poética para ele, uma aluna respondeu: "Ela fala poesia, o jeito dela falar deve ser poesia". Esta fala encontra eco no provérbio africano citado por Amadou Hampâté Bâ: "Tudo fala, tudo é palavra, tudo procura nos comunicar um conhecimento". Ao encontrar sua avó de 97 anos em pé ao lado do varal, com um tecido ao vento, e ouvir dela "me diz o que tá escrito aqui, porque não sei, mas é muito bonito", André nos lembra que, sem romantizar as violências, há uma beleza inegável. Esta cena, diz ele, lhe ensina mais sobre poesia do que muitos livros, representando uma outra possibilidade de ler o mundo e as formas.
A Resistência da Arte-Educação: O Caso de Dona Raimunda e a Descoberta do Saber
Leandro Liva traz um exemplo prático e desafiador ocorrido em uma aula de arte com a dona Raimunda, de 82 anos. Em uma atividade de produção de um porta-joias com caixinhas de fósforo, onde os alunos representariam elementos importantes de suas vidas, dona Raimunda resistiu, afirmando: "Professor, eu não venho para a escola para fazer isso, porque isso não é conhecimento". Ela argumentava que ir à escola era para aprender e não para falar de si mesma. Diante do impasse, Leandro a convidou a ensinar algo que ela soubesse. Ela então ensinou todo o processo de plantar arroz. Ao reconhecer aquele ato como um saber valioso e que ela acabara de ensiná-lo, dona Raimunda compreendeu a importância de seu próprio conhecimento. Esta experiência ilustra a necessidade de lutar por processos de ensino e aprendizagem de arte com legitimidade e seriedade, superando a visão da arte como mero passatempo. Leandro conclui que, se a pessoa não quer aprender algo, o caminho não é impor, mas escutar o porquê, superando a mentalidade colonialista e colocando-se no lugar do outro.
Possíveis Caminhos e o Futuro da Arte na EJA: Transfluência e Ação Pelas Frestas
Ao final, os convidados sugerem caminhos para educadores e gestores. Luía propõe que os professores, primeiramente, investiguem o que a arte faz com eles mesmos, reconhecendo a arte que habita seus próprios corpos e histórias. A partir desse reconhecimento, estarão mais aptos a trazer essas referências e garantir o direito do estudante de escolher sua melhor forma de expressão, aquela que "melhor solta a sua palavra".
Leandro Liva, inspirado pela ideia das "frestas" (conceito central de sua tese de doutorado), afirma que, mesmo diante de sistemas totalitários e muros intransponíveis, existem rachaduras. A tarefa do educador é debruçar-se criticamente sobre sua realidade para encontrar a fresta por onde é possível brotar e ter vida. É cada sujeito que torna viável um lugar de criação e transformação.
André Gravatá encerra com uma poderosa mensagem, citando Audre Lorde: "A poesia não é um luxo". Do mesmo modo, a arte também não é um luxo reservado para "almas elevadas", como uma diretora de escola uma vez lhe disse. André rebate com humor e sabedoria: poesia não é para almas elevadas, é para almas levadas. Ele resgata uma fala de Nego Bispo, que diante de situações sem solução, "manda uma poesia". A arte, portanto, é uma ferramenta viva, que acorda o corpo, acorda as palavras e nos permite sonhar. O encontro se conclui com a ideia de transfluência: a conversa flui entre todos, e o que foi dito agora transbordará para outras vivências, reforçando o compromisso do projeto Alfaeja Brasil com uma educação que é, antes de tudo, um ato de cultura, de humanidade e de dignidade.