O Peso do Crachá: Quando a Identidade Profissional Define Quem Somos
Valesca Chagas, convidada do podcast, compartilha sua experiência de 22 anos no mundo corporativo, onde era conhecida como a 'Valesca do RH da empresa tal'. Ela reflete sobre como, especialmente em São Paulo, a primeira pergunta ao conhecer alguém é 'O que você faz?', revelando uma cultura que tende a resumir as pessoas às suas profissões. Ao sair do ambiente corporativo há 5 anos, ela enfrentou uma crise de identidade, questionando-se sobre quem ela era sem o 'crachá' que a definia. Essa transição, embora desejada, não foi fácil e a levou a um processo profundo de autodescoberta, onde aprendeu a se apresentar não apenas por seu trabalho, mas também como mãe, leitora e uma pessoa apaixonada pelo que faz.
A Longa Jornada da Transição de Carreira: Da Maternidade à Pandemia
A decisão de Valesca de deixar o mercado corporativo não foi um ato de impulso, mas o resultado de anos de reflexão. O gatilho inicial foi a maternidade de seu filho, Eduardo, seguido pelo período da pandemia, que acelerou sua vontade de mudar. Ela relata que, entre o momento em que começou a pensar na mudança e a efetivação dela, demorou cerca de dois anos, saindo da empresa em 2021, em meio à instabilidade da pandemia, o que foi visto por muitos como insanidade. Sua carreira no RH, onde começou como assistente e chegou a gerente, cuidando de recrutamento e seleção e equipes de business partner, deu a ela a base para estruturar sua transição. A pandemia, com filho pequeno em um apartamento minúsculo e trabalho intenso, apenas intensificou o desejo de buscar novos caminhos, mostrando que mudanças significativas exigem planejamento e, muitas vezes, um longo período de maturação.
Do Atendimento a Pessoas Físicas à Consultoria para Empresas
Após sair do corporativo, Valesca inicialmente focou em atendimentos de mentoria de carreira para pessoas físicas, algo que já fazia paralelamente. No entanto, com o tempo, percebeu que esse modelo não faria sentido para ela a longo prazo. Ela sentiu falta de trabalhar com empresas, mas de uma forma diferente: como consultora, entregando projetos e treinamentos e depois seguindo para o próximo cliente. Foi então que resgatou contatos antigos e começou a divulgar seu novo serviço. Ela destaca a importância de falar sobre sua transição para as pessoas, pois uma oportunidade pode surgir de onde menos se espera. Um amigo com uma empresa a chamou para um treinamento, e assim ela começou a construir seu portfólio na consultoria de RH.
Psicanálise, Saúde Mental e a Reflexão sobre o Propósito no Trabalho
Paralelamente à sua carreira em RH, Valesca aprofundou-se na psicanálise, que entrou em sua vida por interesse pessoal, especialmente após a maternidade, quando começou a repetir padrões que criticava em seus pais e a lidar com medos. Ela fez a formação e hoje atende como psicanalista. Essa visão dupla lhe permite perceber como o tema do trabalho e da carreira é recorrente na clínica, refletindo um movimento maior de questionamento e preocupação com a saúde mental. Ela observa que, embora haja um aumento nos afastamentos por ansiedade, burnout e síndrome do pânico, as empresas estão mais preocupadas, tanto por questão de lucro quanto por impacto na marca. A anfitriã complementa, citando a pesquisa da Deloitte sobre a Geração Y, que chegou aos 40 anos frustrada, sem a estabilidade financeira prometida e com um propósito que muitas vezes é o da empresa, não o seu. Ambos concordam que é crucial sair do automático e se perguntar: 'Isso faz sentido para mim?'.
O Medo Financeiro e a Preparação para a Mudança de Rota
Um dos maiores conflitos para Valesca, e que ainda a persegue, foi a questão financeira. Ela descreve um medo 'trágico' de ficar sem dinheiro, algo que trata em terapia. Para se preparar, estabeleceu um objetivo de reserva de emergência e calculou quanto tempo poderia ficar sem renda e quanto estava disposta a ganhar a menos no início. Mesmo após atingir sua meta, o medo persistiu. Ela reflete sobre a responsabilidade financeira de ter um filho em São Paulo, com despesas como escola particular, algo que ela não teve na infância. O apresentador complementa, dizendo que também passou por isso e que ter uma reserva e um prazo é fundamental. A preparação inclui reduzir gastos, fazer contatos e se manter atualizado, para que, se houver necessidade de voltar ao mercado, a pessoa volte melhor e com mais experiência.
O Lado Positivo da Transição: Aprendizado, Tempo e Realizações
Apesar das dificuldades, Valesca elenca os pontos positivos de sua decisão. O principal foi o tempo e a liberdade para estudar. No período de 5 anos, ela concluiu uma formação em psicanálise, uma pós-graduação em neurociência, uma formação em saúde mental nas organizações e uma especialização em segurança psicológica nas empresas. Além disso, o tempo livre foi um privilégio para acompanhar de perto questões de desenvolvimento do filho, que precisava de investigações e acompanhamento com fonoaudiólogo, resultando em uma criança hoje super comunicativa. Por fim, Valesca destaca que, após 22 anos trabalhando em apenas três empresas (incluindo uma Blockbuster, que já não existe), sua mudança a proporcionou trabalhar com dezenas de empresas de diferentes setores, expandindo enormemente seu conhecimento e visão profissional.
O Convite à Reflexão: Loucuras Necessárias e Ajuda Profissional
O apresentador compartilha um momento crucial de sua terapia, quando sua psicóloga o provocou com a pergunta: 'Se não fosse a questão financeira, o que você faria?'. E, mais tarde, quando ele relutava em pedir demissão sem saber o caminho seguinte, ela disse que 'para determinadas decisões da vida, a gente precisa fazer algumas loucuras'. A conversa reforça a importância de se escutar, de buscar ajuda profissional e de considerar alternativas acessíveis, como faculdades de psicologia que oferecem atendimento a preços simbólicos. O medo e a insegurança são legítimos, mas o convite é para que as pessoas parem, respirem e reflitam sobre suas vidas, não com a obrigação de mudar, mas com a consciência de que é possível se planejar, fazer ajustes e, se necessário, voltar atrás, mas sempre mais experiente e preparado.