Um Café Pela Ordem | com o Dr. Riad Wehbe - CriminalistaX

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O episódio do podcast "Um Café Pela Ordem", brilhantemente conduzido pelo advogado Alexandre De Sá Domingues, trouxe como convidado o ilustre Dr. Riad Wehbe, amplamente conhecido nas redes sociais pelo seu perfil "Criminalista X". O programa é um espaço dedicado a debater as nuances da advocacia criminal, as prerrogativas da profissão, e os desafios diários enfrentados por aqueles que escolheram a defesa como missão de vida. Neste resumo detalhado e estruturado, abordaremos todos os pontos cruciais desta conversa inspiradora, que foi desde a trajetória pessoal de superação do convidado até valiosas dicas práticas de atuação no Tribunal do Júri.

O Início de Tudo e as Raízes Culturais

O bate-papo teve início explorando as raízes da vocação do Dr. Riad. Ele revelou que sua paixão pela área criminal despertou ainda nos tempos de faculdade, durante um estágio no Ministério Público, mais especificamente na promotoria de homicídios e execução penal. Foi ali, observando o sistema de perto, que ele teve a certeza de que desejava atuar na defesa, e não na acusação. Logo após se formar, seu primeiro caso já o inseriu na complexidade da fronteira: um processo de contrabando.

Fazendo jus ao nome do podcast, a conversa passou pelo tradicional café. Sendo de origem árabe, Riad compartilhou que consome a bebida de uma forma muito tradicional em sua cultura: sem coar. A água é misturada diretamente com o pó, que eventualmente assenta no fundo da xícara (a famosa borra). Ele toma seu café sem açúcar, demonstrando um apreço pela pureza e tradição da bebida.

A Força das Prerrogativas e os Desafios do Judiciário Atual

Um dos pilares do podcast é o debate sobre a expressão "Pela Ordem". Para Riad, essa e todas as outras prerrogativas não são favores concedidos pelo Judiciário, mas sim direitos inalienáveis do advogado e ferramentas essenciais de trabalho. Quando um advogado pede a palavra "pela ordem", é porque identificou uma violação ou uma situação que foge à normalidade processual. Garantir esse direito de fala é garantir o direito de defesa do cliente.

A discussão aprofundou-se nas recentes resoluções do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em especial a Resolução 645, que trata da gravação de audiências. O Dr. Alexandre destacou que, apesar de muitos magistrados interpretarem erroneamente a norma como uma limitação à gravação por parte da defesa, o Artigo 3º assegura expressamente o direito de o advogado gravar a audiência por meios próprios, bastando uma mera comunicação por questão de lealdade processual, e não um pedido de autorização. Riad relatou sua experiência prática, mencionando que, em regra, a publicidade dos atos tem sido respeitada e que a gravação, quando necessária, tem fluído com tranquilidade, embora ainda existam focos de resistência.

"Maktub": O Momento de Virada e a Força do Propósito

Quando questionado sobre o momento em que teve o "clique" de que havia nascido para a advocacia criminal, Riad emocionou ao contar a história de um caso onde atuou como advogado dativo. O processo envolvia uma moradora de rua, usuária de drogas e garota de programa, que havia sido presa com inacreditáveis 142 kg de cocaína. Qualquer um poderia ter olhado para o caso com descaso, mas ele decidiu ir até o presídio escutá-la.

O caso ocorreu durante a pandemia, período em que as audiências de custódia estavam suspensas. Mesmo assim, Riad despachou diretamente com a magistrada, que teve uma postura extremamente humana, marcando uma audiência excepcional com a presença de assistentes sociais e membros da comunidade. O pedido de internação da acusada foi deferido, com os custos arcados pelo município. Ao final do processo, ela foi absolvida e conseguiu recuperar sua saúde e dignidade.

Para Riad, que é muçulmano, a palavra árabe "Maktub" (que significa "estava escrito" ou "destino") define esse encontro. Ele acredita firmemente que Deus o colocou no caminho daquela jovem para ser um instrumento de ajuda. Esse senso de propósito dita sua regra de ouro: tratar clientes pro bono ou dativos com a exata mesma dedicação e excelência oferecida aos clientes que pagam altos honorários.

O Fenômeno "Criminalista X"

Um dos pontos altos da entrevista foi a revelação da origem do seu famoso perfil nas redes sociais, o Criminalista X. Ao contrário do que muitos pensam, não houve um grande plano de marketing por trás da criação. Durante a pandemia, Riad decidiu parar de fumar e precisava de algo para distrair a mente. Ele começou a compartilhar casos, rotinas e reflexões de sua vida como advogado.

O nome surgiu de uma necessidade prática: para preservar a identidade e o sigilo de seus clientes ao contar as histórias, ele os chamava de "X" ("X foi preso", "X foi absolvido"). Daí nasceu o pseudônimo "Criminalista X". O crescimento foi assustadoramente rápido e orgânico. Em menos de um ano, sem gastar um único centavo com tráfego pago, ele alcançou cerca de 60 mil seguidores. O perfil o tirou de sua zona de conforto, abriu inúmeras portas no Brasil inteiro e o tornou uma referência na advocacia criminal digital.

Uma Trajetória de Superação: Do Líbano à Fronteira

A história de vida do Dr. Riad é digna de um filme. Brasileiro nato, nascido no interior do Paraná, ele mudou-se para o Líbano aos seis anos de idade com sua família. Viveu dez anos no Oriente Médio, tempo suficiente para esquecer completamente a língua portuguesa. Em 2006, devido à guerra no Líbano, sua família precisou ser resgatada por um avião da Força Aérea Brasileira, fugindo do conflito e retornando ao Brasil.

Ele se instalou em Ponta Porã (Mato Grosso do Sul), cidade que faz fronteira seca com Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Trabalhando no comércio local e falando um português muito precário ("português de rua", como ele mesmo definiu), Riad conheceu sua futura esposa, que o incentivou a tomar um rumo profissional e entrar para a faculdade. Com muito esforço, ele reaprendeu o idioma, formou-se em Direito e construiu uma carreira sólida atuando em uma das regiões mais complexas do país para a advocacia criminal, lidando rotineiramente com crimes transnacionais, grandes apreensões de drogas, descaminho e contrabando. Hoje, ele possui escritórios em Ponta Porã, Caarapó e Londrina.

Quadro: Mitos e Verdades na Advocacia Criminal

No dinâmico quadro de Mitos e Verdades, Riad Wehbe desconstruiu vários clichês da profissão:

  • A fala é a única coisa que importa no Júri? (MITO): O Júri se ganha ou se perde nos detalhes: na escolha minuciosa dos jurados, na inquirição estratégica das testemunhas e na sinergia da equipe de defesa. Ademais, Riad ressalta que "ninguém ganha um Júri", pois, independentemente do resultado jurídico, o processo nasce da tragédia de uma vida perdida.
  • Na Lei de Drogas, todo processo é igual? (MITO): Atuando na fronteira, ele atesta que as nuances são infinitas. Há processos com pequenas quantidades onde se briga pelo privilégio (tráfico privilegiado), e há processos fronteiriços gigantescos, envolvendo interceptações telefônicas, associação criminosa e contrabando de armas.
  • A Sustentação Oral pode mudar o jogo em um tribunal decidido? (VERDADE): Se for objetiva, direta e focar na tese principal, a palavra do advogado pode sim despertar a atenção de um desembargador ou ministro e reverter um placar desfavorável.
  • Quem vive do Júri precisa aceitar apanhar da opinião pública? (VERDADE): Crimes contra a vida geram forte clamor social. A mídia e a sociedade frequentemente confundem a figura do advogado com a do réu acusado de crimes hediondos, sendo um fardo inevitável da profissão.
  • O Tribunal do Júri é um grande Teatro? (MITO): Riad abomina essa definição. Para ele, o Júri é a Arena da Palavra, o embate técnico entre tese e antítese. Um advogado bem preparado, que domina cada folha do processo, não precisa ser um "ator" para convencer o conselho de sentença.
  • Os jurados decidem mais pela história do que pela prova técnica? (VERDADE): Jurados são pessoas leigas (professores, comerciantes, médicos). Eles raramente compreenderão a fundo o conceito de "quebra da cadeia de custódia" ou nulidades processuais complexas. O que os convence é uma narrativa lógica, humana e bem construída sobre os fatos.

Perguntas Diretas e Respostas Rápidas

No momento de bate-volta do podcast, Riad deixou lições valiosas e conselhos práticos de atuação:

  • O maior valor na advocacia: Honestidade e transparência. Jamais iludir o cliente. Ele prefere perder um contrato para um colega irresponsável do que prometer um resultado inalcançável apenas para fechar os honorários.
  • Um erro fatal do advogado criminalista: Perder o foco no cliente. O compromisso do advogado não é com o promotor, nem com o juiz, mas única e exclusivamente com a defesa intransigente de quem lhe confiou a liberdade.
  • O que não pode faltar numa Audiência de Custódia: Perguntar ao cliente sobre as circunstâncias da prisão e se houve violência policial ou invasão de domicílio. Se o advogado não registrar essas teses de nulidade logo na custódia, será muito mais difícil (ou impossível) reverter isso ao longo da instrução processual.
  • O que fazer quando os jurados perdem a atenção: Riad não tem medo de usar o tom de voz a seu favor e, principalmente, chamar o jurado pelo próprio nome. Segundo ele e o Dr. Alexandre, o nome é a palavra mais doce que uma pessoa pode ouvir. Quando o advogado inclui o nome do jurado na narrativa (ex: "Veja bem, seu João, como isso aconteceu..."), a atenção é retomada instantaneamente, sem gerar intimidação, mas sim conexão.

Dica de Ouro e a Grande Mensagem Final

Fugindo do roteiro de indicar filmes hollywoodianos sobre advocacia (que, segundo ele, não refletem a realidade processual brasileira), a dica de ouro do Dr. Riad para quem quer atuar no criminal é muito pragmática: Assista a júris reais no YouTube e vá presencialmente ao Fórum. Aprender o rito, observar como colegas experientes reagem às objeções do Ministério Público e entender o tempo de fala são exercícios fundamentais que nenhuma série da Netflix consegue ensinar.

O episódio se encerrou com uma das mensagens motivacionais mais fortes já registradas no podcast. Riad relembrou suas dificuldades: chegou ao Brasil aos 16 anos como refugiado de guerra, sem falar o idioma local, sendo o primeiro membro de toda a sua família a cursar o ensino superior, e sem nenhum "padrinho" na área jurídica. Hoje, lidera bancas de advocacia em três cidades e fala para dezenas de milhares de advogados na internet.

"Se eu, com toda essa dificuldade e sem falar português, consegui chegar até aqui, conduzir audiências e plenários, qualquer pessoa consegue", afirmou Riad. Ele finaliza aconselhando os jovens advogados a não desistirem, a reverem seus ciclos de amizades caso estejam sendo puxados para baixo, e reafirma que a advocacia é uma profissão maravilhosa, repleta de oportunidades e com espaço de sobra para quem está disposto a trabalhar com seriedade, ética e amor pela defesa das liberdades.