Um Café Pela Ordem | com o Dr. Pedro Iokoi

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Neste episódio de "Um Café Pela Ordem", o apresentador e advogado criminalista Alexandre De Sá Domingues recebe uma das figuras mais ilustres e estratégicas da advocacia criminal paulista: o Dr. Pedro Iokoi. Mestre e doutor em processo penal pela Universidade de São Paulo (USP), Iokoi possui um escritório de destaque nacional no segmento do Direito Penal Empresarial. Além de sua robusta atuação técnica, ele é um líder institucional histórico, tendo sido presidente da OAB Pinheiros e atual Diretor Tesoureiro da Caixa de Assistência dos Advogados de São Paulo (CAASP). A conversa transita por temas profundos, desde as dores da advocacia criminal até a necessidade vital de enxergar o escritório como uma verdadeira empresa.

1. A Importância da Vida Institucional e a Jovem Advocacia

A entrevista se inicia com a alusão ao nome do podcast ("Pela Ordem") e com Iokoi relembrando sua entrada nos quadros da OAB, no ano de 2002, através da Comissão do Jovem Advogado. Ele ressalta que essa comissão deve ser a "porta de entrada" obrigatória para qualquer profissional recém-formado. No passado, havia inúmeras restrições para que jovens advogados participassem ativamente das decisões da autarquia. Hoje, a oxigenação institucional permite que a juventude componha o Conselho Estadual, levando para a cúpula da OAB as dores reais da base da pirâmide.

Iokoi faz uma análise contundente do mercado de trabalho: apenas no Estado de São Paulo, existem aproximadamente 400 mil advogados na ativa. É um ambiente de concorrência selvagem e solitário. A Ordem dos Advogados surge, portanto, não apenas como uma entidade de classe, mas como o principal polo de networking para o jovem. Participar de comissões temáticas, festas e eventos permite que o advogado crie conexões, divida angústias, aprenda com os mais experientes e, eventualmente, feche parcerias e negócios essenciais para a sua sobrevivência no mercado.

2. A Advocacia Como Negócio: O Fim do Mito do Sacerdócio

Um dos pontos altos da entrevista é a desmistificação da profissão. Iokoi combate veementemente a visão romantizada de que a advocacia seria exclusivamente um "sacerdócio". Para ele, a advocacia é, acima de tudo, uma atividade empresarial. Ele critica a formação oferecida pelas universidades brasileiras, que lançam excelentes técnicos no mercado, mas profissionais completamente ignorantes em noções básicas de gestão. O jovem advogado sai da faculdade sabendo escrever teses complexas, mas sem saber a diferença entre o regime tributário do Lucro Presumido e do Simples Nacional, sem noções de precificação de honorários, fluxo de caixa ou captação ética de clientes.

Ele aconselha que os jovens utilizem sua fase inicial — onde os custos de vida e de operação ainda são baixos e as responsabilidades familiares menores — para arriscar, empreender e encontrar novos nichos de mercado (como o incipiente direito digital e cibernético), em vez de tentarem competir diretamente no mercado tradicional saturado.

3. A Inusitada Trajetória: Da Arquitetura ao Direito Penal

Curiosamente, Iokoi revela que nunca quis ser advogado. Ele estudava em um cursinho preparatório visando o vestibular de Arquitetura na USP (FAU). Um amigo o convenceu a se inscrever na Faculdade de Direito da PUC-SP como "teste vocacional" e com a promessa de que continuariam tomando cerveja juntos. Ele topou e acabou ingressando no curso.

A virada aconteceu no segundo ano da faculdade, ao assistir uma palestra do renomado e implacável promotor do Tribunal do Júri, Edilson Mougenot Bonfim. Impressionado, Iokoi foi direto ao gabinete do promotor e pediu um estágio, mesmo sem ter cursado a disciplina de processo penal. A ousadia deu certo. Ele estagiou no Ministério Público, passou pela Defensoria Pública (na Vara da Infância e Juventude) e estagiou com o conceituado criminalista Renato Martins.

O destino o levou para a iniciativa privada quando uma prova de concurso público vazou, interrompendo seus planos de ingressar no funcionalismo. Para ganhar dinheiro, foi trabalhar no pequeno escritório do pai de um amigo em Taboão da Serra, atuando no "criminal de sangue", defendendo acusados de furtos e roubos de veículos na região periférica de São Paulo.

4. A Consolidação no Direito Penal Empresarial

A guinada para a elite da advocacia corporativa ocorreu a partir de 2005. Iokoi foi convidado a atuar em uma "boutique jurídica" localizada no mesmo edifício do jornal Gazeta Mercantil. Essa época coincidiu com o início da gestão de Márcio Thomaz Bastos no Ministério da Justiça, período marcado pela explosão das grandes megaoperações da Polícia Federal.

Nesse escritório, Iokoi absorveu o know-how da advocacia empresarial: a necessidade de criar relatórios de auditoria, planilhas de provisão de perdas, estabelecimento de SLAs (acordos de nível de serviço) e alocação de centro de custos. Em 2006, unindo sua expertise criminal com a gestão corporativa que havia acabado de aprender, ele fundou seu próprio escritório, focado 100% no Penal Empresarial. Hoje, sua banca conta com 71 colaboradores altamente qualificados, operando sob rígidos padrões corporativos.

5. Sociedade de Advogados: O Casamento Exige Regras Claras

Abordando a temática de gestão de escritórios, Iokoi adverte que uma sociedade de advogados é como um casamento, mas que necessita de regras muito objetivas desde a sua fundação. O maior erro é achar que a amizade da faculdade sustentará um negócio a longo prazo sem um "acordo de sócios". Ele ensina que o contrato deve prever todas as variáveis temporais e comportamentais.

Por exemplo: ao longo dos anos, um sócio pode querer diminuir o ritmo, tirar dois meses de férias por ano, sair do escritório mais cedo para jogar beach tennis, enquanto outro sócio foca em eventos de captação de clientes até a madrugada. Não há certo ou errado, mas o escritório deve ter um sistema de remuneração variável e distribuição de lucros que seja percebido como justo por todos, remunerando proporcionalmente o esforço comercial e técnico de cada indivíduo.

Além disso, Iokoi é um grande defensor da diversidade empírica dentro da equipe. Contratar pessoas iguais a você apenas gera atrito e divisão. É necessário ter perfis variados: profissionais extremamente empáticos para lidar com delegados e servidores públicos, juristas mais introspectivos para redigir peças brilhantes, e pessoas com vivências diferentes. Ele cita um caso onde uma advogada de sua equipe analisou o vídeo de uma suposta agressão sexual e notou detalhes de coerção física que ele mesmo, com toda a sua experiência, não havia percebido.

6. Café com História: A Aventura no Líbano (Operação Biblos)

No quadro mais aguardado do programa, Iokoi conta sua história mais emblemática e ousada, ocorrida logo após abrir seu escritório, em 2007. Ele foi procurado por empresários árabes envolvidos na "Operação Biblos" da Polícia Federal, que investigava libaneses que viajavam ao Brasil e se casavam fraudulentamente com garotas de programa em Niterói apenas para obter o passaporte brasileiro, que possuía trânsito diplomático muito mais livre e "sem rosto".

Um poderoso empresário envolvido no escândalo exigiu contratar Iokoi pessoalmente no Líbano. Com apenas 30 anos e nenhuma fluência em inglês na época, ele aceitou o desafio e voou para Beirute em classe executiva. Ao desembarcar, foi recebido por um motorista em um veículo Hummer luxuoso e levado a um prédio espetacular de pedra branca. Lá, encontrou um cliente que não lia e-mails — sua secretária os imprimia e traduzia oralmente. Iokoi fechou não apenas o contrato desse empresário, mas de dezenas de outros membros de sua equipe investigados na mesma operação. O trabalho exigiu ousadia, tato diplomático e profundo estudo. Ele conseguiu devolver todos os passaportes às autoridades brasileiras e atuou ativamente nos processos, conquistando para sempre a confiança da vasta e influente colônia libanesa, o que alavancou o sucesso do seu escritório.

7. Mitos e Verdades da Advocacia Criminal

No dinâmico quadro "Mitos e Verdades", o apresentador lança afirmações para que o convidado julgue a realidade do sistema judicial:

  • A prova digital revolucionou o processo penal? (VERDADE): Iokoi atesta que a tecnologia de extração de dados e o rigor com a quebra da cadeia de custódia mudaram radicalmente as defesas, que antes dependiam exclusivamente da fragilidade da prova testemunhal e de laudos periciais precários (ele cita laudos absurdos do passado, onde vítimas de tiros eram diagnosticadas como vítimas de facadas).
  • O sistema criminal brasileiro favorece os ricos e esmaga os pobres? (VERDADE): Tristemente, é uma verdade absoluta. Iokoi lembra a seus alunos que o "cliente" padrão do sistema punitivo do Estado continua sendo o negro, periférico e pobre, geralmente focado nos crimes de tráfico, furto e roubo.
  • Exigir representação da vítima no Estelionato protege o criminoso? (MITO): A alteração trazida pelo Pacote Anticrime, que exige que a vítima manifeste interesse processual, foi amplamente benéfica. Ela limpa o sistema, evitando que o Judiciário e o Ministério Público percam anos movimentando a máquina estatal por casos em que a própria vítima já não tem interesse ou apenas buscava o ressarcimento financeiro.
  • A advocacia criminal é cheia de momentos de glamour? (MITO): Esta é a maior mentira propagada pela televisão. Iokoi desabafa que a advocacia criminal suga a vida pessoal e a saúde mental do profissional. "Ninguém vai ao advogado criminal para dizer que ganhou na loteria", pontua. O advogado lida diariamente com a miséria humana, com o desespero de mães que visitam filhos nas masmorras medievais que são os presídios brasileiros, e com a tortura psicológica da espera infinita por um habeas corpus ou alvará de soltura travado pela burocracia estatal.

8. Perguntas Diretas e Respostas Rápidas

Em um bate-volta ágil, Iokoi deixa lições valiosas:

  • Um erro comum na advocacia criminal: Deixar as teses de defesa guardadas apenas para o final do processo (nas Alegações Finais). O processo penal moderno exige que o advogado trace sua estratégia e apresente a versão dos fatos desde a largada (Resposta à Acusação), conduzindo a narrativa de forma coerente até a sentença.
  • Um princípio ético inegociável: A transparência extrema com o cliente. O criminalista jamais deve "vender sonhos" ou prometer absolvições milagrosas, mesmo que a verdade doa no cliente e custe os honorários.
  • Um grande Mentor: O Professor Doutor Antônio Scarance Fernandes, seu orientador de doutorado na USP, citado como uma referência unânime de genialidade e cordialidade no meio jurídico.
  • Uma prática do Judiciário que deve ser extinta: A mentalidade do "nós contra eles". O poder público (magistrados, promotores, policiais) não pode tratar o jurisdicionado ou o réu como "o outro" ou "o inimigo". O réu é um ser humano igual às autoridades que o julgam, e o respeito à sua dignidade é o pilar mínimo da civilização.

9. Dicas Culturais de Ouro: O Oceano Azul

Ao finalizar a conversa, Iokoi sugere aos espectadores duas obras fundamentais focadas não em leis, mas em estratégia e gestão de negócios, reforçando a premissa de que a advocacia deve ser administrada de maneira inteligente:

  1. Feitas para Durar (Built to Last): Um livro essencial para entender como estruturar uma organização jurídica baseada em propósitos sólidos, permitindo que a "empresa" advocatícia sobreviva às oscilações do mercado e ao longo das décadas.
  2. A Estratégia do Oceano Azul: Ao invés de lutar e sangrar em um mercado vermelho de concorrência esmagadora disputando as mesmas causas com os mesmos "medalhões" tradicionais, Iokoi recomenda que o advogado seja criativo, arrojado e descubra o seu "oceano azul": um nicho inexplorado e inovador onde ele possa reinar absoluto.

O episódio se encerra consolidando Dr. Pedro Iokoi como uma verdadeira referência. Com seu tom professoral, franco e estratégico, ele entregou uma aula magna sobre resiliência, coragem empreendedora, respeito aos direitos fundamentais e as dolorosas, porém fascinantes, complexidades que envolvem o mister da advocacia criminal no Brasil.