Um Café Pela Ordem | com Elka Arruda Domingues

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Introdução: Uma Convidada Mais do que Especial e a Inspiração para a Carreira

O podcast "Um Café Pela Ordem", tradicionalmente focado em debater as nuances, as prerrogativas e os dilemas da advocacia criminal, trouxe um episódio com uma carga emocional e pessoal inédita. O apresentador e advogado criminalista Alexandre De Sá Domingues recebeu sua esposa e companheira de vida, Elka Arruda Domingues. Mais do que uma conversa sobre o sistema de justiça, o episódio foi um mergulho nas raízes da carreira de Alexandre, revelando que Elka foi a grande inspiração não apenas para a criação do próprio programa, mas também para a sua entrada definitiva na seara do Direito Penal. Em um tom nostálgico e afetuoso, o casal relembrou os primeiros passos de ambos na faculdade e como o destino entrelaçou suas vidas pessoais e profissionais de maneira indissociável.

O Acaso e o Júri Simulado: O Ponto de Virada

A história da entrada de Alexandre na advocacia criminal é marcada por um acaso providencial, diretamente ligado a Elka. Durante a faculdade de Direito, havia a tradição de realizar um "Júri Simulado" ao final do curso, um evento grandioso coordenado pelo professor Levi, que à época era Promotor de Justiça. Alexandre conta que não tinha a intenção inicial de participar, mas no último dia de seleção para o evento, enquanto caminhava pelos corredores, ouviu passos atrás de si e se deparou com Elka. Ela confirmou que estava indo se inscrever para a acusação. Motivado por esse encontro — que ocorreu após cerca de seis a oito encontros prévios do casal —, Alexandre decidiu se inscrever de última hora ("caindo de paraquedas", como ele mesmo brinca).

A seleção foi concorrida, com uma sala lotada de cerca de 30 alunos disputando poucas vagas. Inicialmente, Alexandre não foi escolhido. No entanto, o professor abriu uma "repescagem" para adicionar mais dois alunos de cada lado (acusação e defesa), e Alexandre acabou conquistando uma vaga na bancada de defesa. Elka, por sua vez, garantiu sua vaga na acusação. Ela relata que foi a responsável por abrir os trabalhos no dia do júri simulado para uma plateia impressionante de mais de mil pessoas. O que para muitos seria aterrorizante, para ela foi natural, graças à sua bagagem de anos no teatro durante a adolescência. O resultado do embate acadêmico foi um "empate" técnico, resultando em uma condenação por homicídio privilegiado qualificado, um momento que até hoje é lembrado por colegas de turma e que selou definitivamente a paixão de Alexandre pela tribuna.

A Transição de Carreira: Do Direito Penal ao Estúdio de Fotografia

Embora Elka tenha iniciado sua trajetória jurídica no Direito Criminal com grande paixão, atuando inclusive ao lado do saudoso advogado Dr. Paulo de Tarso em Guarulhos, a dureza da área acabou afastando-a dos tribunais. Ela compartilha que a gota d'água foi a atuação em um caso extremamente pesado e midiático, conhecido localmente como o caso do "Maníaco do Atacadão". Sendo mãe de um filho pequeno na época, a carga emocional e obscura desse tipo de criminalidade a marcou profundamente, levando-a a buscar outras vertentes do direito.

Elka migrou para a área de Família e Sucessões, mas logo percebeu que a função exigia mais um papel de psicóloga do que de jurista, o que também não a satisfez. Tentou atuar na esfera bancária e burocrática, com a qual também não se identificou. A grande virada ocorreu quando o casal decidiu abrir um curso preparatório para o Exame da OAB. Como administradora do negócio, Elka precisou aprender a lidar com softwares de edição de imagem, como Photoshop e CorelDRAW, para criar as artes e propagandas do cursinho. Essa necessidade prática despertou uma paixão adormecida pela arte. Após o nascimento do filho Otávio, ela sentiu a necessidade de não apenas editar, mas de capturar as imagens. Alexandre propôs um acordo: ela teria um ano para fazer o estúdio fotográfico dar certo; caso contrário, voltaria a advogar. Hoje, 17 anos depois, Elka é uma fotógrafa e decoradora de imenso sucesso, provando que sua veia artística sempre esteve presente.

A Dinâmica do Júri: A Importância do Teatro e da Oratória

Mesmo afastada da prática advocatícia, Elka continua sendo uma peça fundamental no sucesso de Alexandre. Ela frequentemente assiste aos júris do marido e fornece feedbacks valiosos sobre sua performance. Durante o podcast, ambos debatem a intersecção entre o teatro e o Tribunal do Júri. Embora Alexandre faça a ressalva de que o júri não é um mero teatro — pois lida com vidas reais e exige técnica jurídica rigorosa —, Elka destaca que as ferramentas cênicas são indispensáveis. A oratória não é apenas um "dom" inato, mas uma técnica (uma "matemática") que pode ser desenvolvida e aprimorada.

Elka explica que o advogado precisa traduzir o jargão jurídico contido nos livros para uma linguagem acessível aos jurados, que são pessoas leigas submetidas a horas exaustivas de discursos técnicos. Para prender a atenção do conselho de sentença, é necessário saber modular a voz, aplicar ênfases nas palavras corretas, utilizar pausas dramáticas, controlar a respiração e fugir da monotonia. É através desse domínio da comunicação que o advogado consegue envolver o jurado e transmitir a tese defensiva de forma persuasiva e clara.

Casos Marcantes e os Desafios Éticos e Sociais da Profissão

Relembrando a trajetória a dois, o casal cita o primeiro júri em que Alexandre foi contratado de forma particular (fora do convênio da Defensoria Pública), atuando como assistente de acusação. O caso envolvia dois policiais militares acusados de atirar nas costas de um rapaz usuário de drogas. O julgamento foi exaustivo, estendendo-se até as 4 horas da manhã, e ficou marcado pela figura do pai da vítima, um senhor idoso que buscava incansavelmente justiça pela memória de seu filho.

A conversa também tocou nas dificuldades, medos e preconceitos que cercam o advogado criminalista. Elka confessa que, no início, sentia medo do ambiente das delegacias e até mesmo se preocupava com a forma de se vestir. Contudo, em relação ao trabalho de Alexandre, ela afirma nunca ter sentido temor. O motivo é a postura ética inabalável do marido, que jamais recorreu à prática antiética de "vender fumaça". Elka destaca que o verdadeiro perigo na advocacia criminal surge quando o profissional ilude famílias desesperadas com falsas promessas de soltura e garantias de resultado, algo que um advogado não pode controlar, pois "a caneta é do juiz". Além disso, o casal lamenta o preconceito frequente — inclusive de familiares — que taxam o profissional de "advogado de bandido", revelando uma profunda ignorância social sobre o direito constitucional de defesa que protege a todos na sociedade.

A Realização de um Sonho e a Carreira Acadêmica

Um dos momentos mais tocantes do episódio é a lembrança de quando ambos eram estudantes e assistiram a uma palestra de um renomado advogado que comentou que viajaria para outro estado apenas para realizar uma sustentação oral. Na época, recém-casados e com poucos recursos, o casal considerava aquela realidade inatingível. Alexandre olhou para Elka e disse: "Já pensou no dia em que eu estiver viajando para fazer um júri?". Hoje, com mais de 26 anos de carreira, Alexandre atua em diversos estados do Brasil e realiza sustentações orais constantemente em Brasília, materializando o sonho que construíram juntos.

Elka também exalta a dedicação de Alexandre à vida acadêmica, lecionando por mais de duas décadas. Ela compartilha o orgulho de receber feedbacks de ex-alunos que destacam não apenas a excelência técnica das aulas, mas a humanidade com que Alexandre trata a profissão. Ele não ensina apenas dogmática jurídica; ele inspira valores, seriedade e respeito pela dignidade humana, formando profissionais que realmente compreendem o peso da beca.

Conclusão: O Direito como Alicerce para a Vida

Ao finalizar o episódio, fica evidente que, embora Elka tenha escolhido não exercer a advocacia nas trincheiras dos tribunais, os cinco anos de formação jurídica jamais foram em vão. Ela ressalta que o conhecimento jurídico lhe proporciona uma imensa segurança em sua vida empresarial atual, permitindo-lhe assinar contratos, gerir seu estúdio e lidar com clientes com autonomia e confiança. O Direito, portanto, formou não apenas a base de sua visão de mundo, mas foi o cenário que permitiu o encontro com seu marido. O episódio encerra-se como uma bela homenagem à parceria, à ética profissional e à certeza de que nenhuma trajetória é construída de forma solitária, sendo o apoio familiar e o respeito mútuo os verdadeiros pilares de qualquer carreira de sucesso.