Um Café Pela Ordem | com Dra. Cláudia Bernasconi

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Introdução: Uma Liderança Histórica na Advocacia Paulista

Neste episódio do podcast "Um Café Pela Ordem", o apresentador e tesoureiro da OAB-SP, Alexandre De Sá Domingues, conduz uma entrevista profunda com a Dra. Cláudia Bernasconi. Uma advogada criminalista com mais de 30 anos de carreira, Cláudia carrega um marco histórico: ela é a primeira mulher a presidir a Comissão de Direitos e Prerrogativas da OAB São Paulo. Durante a conversa, Cláudia relata que nunca havia participado da política institucional da Ordem até ser convidada para integrar a chapa atual (presidida por Patrícia Vanzolini e Leonardo Sica). Ela descreve a experiência como reveladora e realizadora, pois a tirou da "bolha" da sua própria área de atuação, permitindo que ela conhecesse e combatesse as mazelas e violações sofridas por advogados de todos os cantos e ramos do estado de São Paulo.

O Desafio da Mulher Advogada e o Machismo Estrutural

Ao ser questionada sobre as dificuldades específicas de ser mulher em uma posição de tamanho destaque e em uma área historicamente árida como o direito penal, Cláudia é categórica. Embora ela sinta que o cenário geral melhorou desde o início de sua carreira na década de 1990, ela expressa choque com a persistência de abusos misóginos no cotidiano jurídico atual. A Comissão de Prerrogativas precisou criar uma vice-presidência específica para a mulher advogada devido ao volume de casos. Para ilustrar a gravidade da situação, Cláudia menciona um episódio ocorrido um dia antes da gravação, no Fórum Criminal da Barra Funda, onde um promotor de justiça chamou uma advogada de "porca". Em outro caso recente, divulgado pela presidente Patrícia Vanzolini, uma profissional foi taxada de "rata". Cláudia reforça que a Comissão está lutando incansavelmente para que os autores dessas ofensas inaceitáveis sejam devidamente responsabilizados, garantindo que o ambiente jurídico seja de respeito profissional.

Prerrogativas: Acesso Livre e a Exposição do Pós-Pandemia

Para Cláudia, a prerrogativa mais essencial de um advogado é o direito de ingressar livremente nos espaços públicos (fóruns, delegacias, presídios). Ela aponta que muitas autoridades se comportam como "donas" do local, tratando o advogado como um intruso, quando, na verdade, todas as prerrogativas convergem para um único fim: garantir o livre exercício da profissão e, consequentemente, o direito de defesa do cidadão. Uma observação interessante feita por Cláudia é sobre a percepção do aumento das violações. Ela acredita que as coisas não necessariamente pioraram, mas sim ficaram mais visíveis. Com a adoção das audiências virtuais e gravações de atos judiciais após a pandemia, os abusos cometidos por juízes e promotores, que antes ficavam restritos à palavra do advogado contra a autoridade, agora estão gravados e documentados. Essa exposição clara e inquestionável é uma ferramenta poderosa para a Ordem agir e educar o sistema de justiça sobre o fato de que prerrogativas não são privilégios, mas garantias constitucionais do cliente.

Café com História: Os Bastidores do Caso Suzane von Richthofen

No quadro "Café com História", Cláudia Bernasconi revive um dos casos mais midiáticos e complexos da crônica policial brasileira. Logo no início de sua carreira (tendo se formado em 1993, e assumido o caso nos anos 2000), ela foi advogada de Suzane von Richthofen nos primeiros seis meses após o assassinato dos pais da jovem. Cláudia descreve esse período como uma avalanche de aprendizado e intensidade. A pressão da mídia era esmagadora, buscando a todo custo declarações e entrevistas. A estratégia de Cláudia foi de blindagem total: não permitiu que Suzane desse nenhuma entrevista sob sua tutela. Devido ao temor real pela integridade física da cliente, Cláudia visitava o presídio diariamente para assegurar que Suzane estava em áreas seguras. Ela também destaca a relação respeitosa e técnica que manteve com o Promotor de Justiça do caso, Dr. Roberto Tardelli, provando que é possível haver um embate processual de altíssimo nível sem a perda da urbanidade.

Mitos e Verdades: A Advocacia Criminal na Prática

Alexandre introduz o quadro "Mitos e Verdades", onde Cláudia desconstrói velhas crenças da profissão:

  • Mito: Após 30 anos de carreira, não há mais dificuldades. Cláudia ri dessa afirmação, pontuando que os desafios apenas mudam de forma. Enquanto um jovem advogado se preocupa em como pagar as contas e conseguir clientes, um advogado sênior lida com causas imensamente mais complexas e com as demandas sofisticadas de um perfil de cliente corporativo.
  • Mito: A fase investigativa (Inquérito Policial) é mais simples que a judicial. Atuando fortemente em Direito Penal Econômico, Cláudia revela que hoje as delegacias (especialmente em São Paulo) sofrem de um déficit humano gravíssimo. Faltam escrivães e investigadores, o que faz com que inquéritos onde as empresas de seus clientes são vítimas fiquem parados por anos. Curiosamente, o processo eletrônico e as audiências virtuais tornaram a fase judicial mais célere do que o gargalo da Polícia Civil.
  • Mito: Sem "padrinho" não se entra na advocacia criminal. Cláudia encoraja fortemente os jovens advogados. Ela aconselha que o verdadeiro segredo não é buscar padrinhos, mas sim cultivar relacionamentos com colegas de faculdade de outras áreas (cível, trabalhista), pois o "networking" horizontal é a maior fonte de indicação de clientes no início da jornada profissional.

O Peso Esmagador de Defender um Inocente

Em um momento de profunda reflexão ética no quadro "No Banco dos Réus", Alexandre questiona se Cláudia não tem peso na consciência ao defender alguém que comprovadamente cometeu um crime, inclusive adotando teses como a negativa de autoria. Cláudia responde com a serenidade de quem compreende o sistema: o papel do advogado é garantir que o Estado não cometa excessos e aplique uma pena justa através de um processo legal. A grande revelação, no entanto, é o contraponto: o que realmente tira o sono de Cláudia é defender alguém que ela sabe ser absolutamente inocente. Ela relembra um caso desesperador onde defendeu um taxista preso injustamente, confundido com um assassino na Ponte dos Remédios após cinco jovens anotarem a placa de seu carro por engano. O terror de ver um trabalhador inocente trancafiado, dependendo exclusivamente do seu trabalho para não ter a vida destruída, traz uma carga de responsabilidade que "triplica de tamanho".

A Corrupção, a Vaidade e a Postura do Jovem Advogado

Quando questionada sobre práticas que deveriam sumir do judiciário, Cláudia aponta a corrupção estrutural. Trabalhando hoje com multinacionais que exigem rígido compliance, ela nota como a corrupção é injusta, criando uma justiça para quem pode pagar propina e outra para quem não pode. Em termos de conselho aos jovens, ela faz uma crítica dura à espetacularização da profissão nas redes sociais. Cláudia reprova veementemente advogados que vão a presídios ou fóruns para fazer "lives" ou gravar vídeos criando falsos embates apenas para ganhar curtidas ("lacrar"). Ela afirma que essa conduta vaidosa fecha portas, gera antipatia no sistema e prejudica o trabalho dos advogados sérios e silenciosos que estão lá apenas para defender seus constituintes.

Momento Cultural e Reflexões Finais

Para o fechamento cultural, Cláudia sugere duas obras fundamentais. A primeira é a série documental recente sobre o caso de O.J. Simpson (disponível na Netflix), que ela considera vital para quebrar o mito da infalibilidade da polícia americana, expondo os erros primários cometidos na cena do crime. A segunda indicação é o aclamado cinema argentino "O Segredo dos Seus Olhos" (estrelado por Ricardo Darín), um thriller poético sobre uma investigação de homicídio que atravessa décadas, a paixão pela busca da verdade e o peso da justiça e da vingança. O episódio se encerra com uma mensagem de esperança e entusiasmo: embora a advocacia às vezes pareça o trabalho de "enxugar gelo", o trabalho institucional sério, somado ao empenho de cada advogado em seu dia a dia, é a única ferramenta capaz de construir o respeito e a valorização que a classe merece.