Um Café Pela Ordem | com Dr. Abner Vidal

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O episódio recente do podcast "Um Café Pela Ordem", brilhantemente conduzido pelo anfitrião Alexandre De Sá Domingues, trouxe para o centro do debate uma das áreas mais dinâmicas e sociais do direito brasileiro: a Advocacia Trabalhista. O convidado de honra para abrilhantar esta edição foi o Dr. Abner Vidal, advogado com mais de 15 anos de experiência, pós-graduado em Direito do Trabalho pela PUC-SP e atual presidente reeleito da OAB Guarulhos. Em uma conversa profunda, inspiradora e repleta de vivências práticas, Dr. Abner compartilhou sua trajetória, desmistificou preconceitos sobre a Justiça do Trabalho, analisou os impactos da Reforma Trabalhista e revelou os bastidores do trabalho incansável na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Este artigo apresenta um resumo detalhado e estruturado de todos os pontos abordados neste encontro, servindo como um verdadeiro guia de inspiração e conhecimento para advogados iniciantes e experientes que buscam compreender as nuances da profissão e os caminhos para alcançar o verdadeiro sucesso na advocacia.


1. O "Café com História": Do Tribunal do Júri à Paixão pelo Direito Trabalhista

A trajetória profissional do Dr. Abner Vidal é a prova viva de que a advocacia é feita de surpresas e adaptações. Durante o quadro "Café com História", ele revelou que, em seus tempos de faculdade e estágio, sua grande paixão era o Direito Criminal. Ele sonhava em ser um grande tribuno do Júri. Fascinado pelos debates em plenário, ele frequentemente se atrasava para as aulas apenas para assistir às atuações dos criminalistas no fórum.

Sua primeira grande oportunidade prática surgiu logo após ser aprovado no Exame de Ordem, em pleno Domingo de Páscoa. Seu antigo chefe o ligou com uma missão urgente e complexa: defender uma senhora, amiga da família, que em uma situação de extrema vulnerabilidade havia acabado de assassinar o marido. Sem hesitar, Abner assumiu o caso pro bono. Ele redigiu a peça de liberdade provisória durante a madrugada e, em poucos dias, conseguiu o relaxamento da prisão. No desenrolar do processo, sua atuação foi tão incisiva que ele conseguiu provar a tese de legítima defesa, resultando na absolvição sumária da cliente já na primeira fase do Tribunal do Júri. Como desdobramento desse caso de sucesso, ele ainda atuou na área previdenciária, garantindo a pensão por morte para aquela senhora.

Apesar desse início arrebatador e promissor na esfera criminal, o destino o conduziu gradativamente para o Direito do Trabalho. Hoje, completamente realizado em sua área, Abner traça um paralelo fascinante entre as duas vertentes. Segundo ele, se a Justiça do Trabalho deixasse de existir, os advogados trabalhistas seriam excelentes criminalistas. Isso ocorre porque ambas as áreas exigem raciocínio extremamente rápido, domínio do princípio da oralidade, capacidade de argumentação sob pressão e a habilidade de reformular perguntas e estratégias em frações de segundo diante de um juiz. Além disso, ambas possuem um apelo social imenso, lidando com os momentos de maior vulnerabilidade do ser humano.

2. Desmistificando a Justiça do Trabalho: Mitos e Verdades

No bloco "Mitos ou Verdades", Alexandre De Sá provocou o convidado com as afirmações mais comuns (e muitas vezes pejorativas) que circulam no senso comum e nos corredores dos fóruns sobre a Justiça do Trabalho. Dr. Abner respondeu a cada uma delas com maestria técnica e visão prática:

Mito 1: O Empregado (Reclamante) Sempre Ganha?

Resposta: MITO. Abner esclarece que o juiz do trabalho deve ser tão imparcial quanto qualquer outro magistrado. O que existe, na verdade, é um princípio de proteção ao trabalhador (princípio da proteção) consagrado no Direito Material, uma vez que o empregado é a parte hipossuficiente na relação de capital versus trabalho. O Estado precisa intervir para garantir, por exemplo, que uma empresa não economize na instalação de equipamentos de segurança (como linhas de vida) em detrimento da vida e da integridade física do obreiro. Contudo, no Direito Processual, as regras são iguais para ambos. Cabe ao advogado, especialmente o da empresa (reclamada), exercer seu papel com firmeza, chamando a ordem e exigindo a imparcialidade do juiz quando necessário.

Mito 2: O Advogado Trabalhista Só Recebe no Êxito?

Resposta: MITO. Embora seja uma cultura predominante para os profissionais que advogam exclusivamente para os reclamantes (empregados) cobrar um percentual sobre o proveito econômico da ação, a advocacia trabalhista vai muito além disso. Abner, cujo escritório atual atua em 90% dos casos defendendo empresas, explica que os honorários patronais são pagos de forma antecipada ou mensal (consultivo). Ademais, existem diversas atuações para trabalhadores que não envolvem valores pecuniários imediatos, como a defesa em apurações de falta grave, onde o advogado pode e deve cobrar honorários iniciais. Trata-se de uma área altamente rentável e com um ciclo processual muito mais célere em comparação com a Justiça Comum, garantindo um fluxo de caixa saudável para os escritórios.

Mito 3: A Justiça do Trabalho é um "Balcão de Negócios" que Dispensa Conhecimento Técnico?

Resposta: MITO ABSOLUTO. O fato de a legislação trabalhista obrigar o juiz a propor a conciliação no início e ao final da instrução processual (sob pena de nulidade do processo) não transforma a Justiça em um mero balcão de pechinchas. Para que um acordo seja verdadeiramente vantajoso e justo, o advogado precisa ter um domínio absurdo das leis, das provas constantes nos autos e, principalmente, das regras de ônus da prova. Um profissional que não conhece profundamente a parte técnica será facilmente engolido na mesa de negociação. A conciliação é um princípio de pacificação social, mas só ocorre de forma equilibrada quando amparada por advogados altamente preparados.

3. A Reforma Trabalhista, a Geração de Empregos e a Carga Tributária

Ao abordar temas mais espinhosos, o podcast adentrou no cenário político-econômico das leis trabalhistas brasileiras. Quando questionado se a Reforma Trabalhista de 2017 veio com o intuito de acabar com a Justiça do Trabalho, Abner relembrou os momentos de tensão daquela época. Havia, de fato, um discurso perigoso por parte de alguns setores governamentais e empresariais sugerindo que a Justiça do Trabalho era "cara" e desnecessária. OABs de todo o país, juntamente com a magistratura, se levantaram contra o açodamento e a falta de debate da reforma. Sobrevivendo àquele período nebuloso, a Justiça do Trabalho saiu fortalecida e provou sua indispensabilidade para a pacificação social, e hoje o debate sobre sua extinção está praticamente superado.

Outra provocação incisiva feita por Alexandre foi: "Há um excesso de direitos trabalhistas no Brasil que impede a geração de empregos?". Com a autoridade de quem defende o setor empresarial, Abner foi categórico em negar essa afirmação. Ele argumentou que a grande massa de trabalhadores brasileiros ganha entre R$ 2.000 e R$ 3.000 mensais, valor que mal cobre os custos básicos de moradia, alimentação e transporte, sendo impossível gerar poupança. Em um país com desigualdades tão abissais, uma rede de proteção social (férias, 13º salário, FGTS) é vital.

O verdadeiro vilão do desemprego e do estrangulamento empresarial no Brasil, segundo Abner, não são os direitos dos trabalhadores, mas a altíssima carga tributária incidente sobre a folha de pagamento. Ele citou o "Sistema S", que sozinho drena cerca de 3% da folha das empresas, além de outras contribuições que não vão diretamente para o bolso do empregado. Se o Estado aliviasse essa pesada carga tributária, os empresários teriam muito mais fôlego para contratar, expandir seus negócios e até mesmo remunerar melhor seus colaboradores. A prova cabal dessa tese é que a promessa de que a Reforma de 2017 (que suprimiu direitos) geraria milhões de empregos provou-se uma falácia nos anos seguintes (2018 a 2020). O que realmente gera emprego é uma economia aquecida e tributação inteligente.

4. Os Bastidores da OAB: Prestígio, Voluntariado e Acolhimento

Mudando o foco para a política de classe, Dr. Abner compartilhou sua visão como presidente da OAB Guarulhos. Em resposta às críticas recorrentes nas redes sociais sobre a inércia da Ordem, ele ofereceu uma perspectiva madura: a cobrança intensa por parte da sociedade é, na verdade, o maior atestado da credibilidade e do peso institucional que a OAB possui. "As pessoas não cobram manifestações do Ministério Público ou da Procuradoria Geral da República com a mesma veemência que cobram da OAB", pontuou. Isso demonstra que a sociedade enxerga na Ordem um verdadeiro pilar de defesa da democracia e da cidadania.

Para desmistificar o glamour em torno dos cargos diretivos, Abner deixou claro uma realidade que muitos desconhecem: o trabalho na OAB é 100% voluntário e não remunerado. Da presidência aos membros das comissões, nenhum advogado recebe salários para dedicar horas do seu dia à instituição. É um trabalho movido puramente por paixão pela classe e pelo desejo de retribuir à advocacia tudo o que ela proporciona. Na subseção de Guarulhos, ele implementou reuniões gerais mensais de comissões, onde centenas de profissionais doam seu tempo e intelecto para planejar ações em prol da sociedade local.

Além da defesa das prerrogativas, uma das marcas da gestão de Abner (e também da OAB São Paulo atual) é o acolhimento à Jovem Advocacia. A OAB Guarulhos, simbolicamente, instituiu um "tapete vermelho" para os novos advogados, quebrando a barreira de distanciamento que antigamente afastava os iniciantes dos presidentes e diretores. A Ordem deixou de ser um "dirigível lento" e passou a ser uma locomotiva de inovação, preparando os advogados para o futuro com debates sobre Inteligência Artificial, automação de escritórios e exploração ética de novos mercados, ajudando-os a encontrar caminhos rentáveis e seguros na profissão.

5. O Momento de Ouro: O Conselho Final para o Sucesso na Advocacia

No encerramento do episódio, no quadro "Momento de Ouro", Alexandre De Sá Domingues pediu que o convidado deixasse uma mensagem final olhando diretamente para a câmera, direcionada especialmente aos jovens advogados que acompanhavam o programa. Dr. Abner Vidal resumiu o segredo de uma carreira bem-sucedida em três pilares inegociáveis: Trabalho, Estudo e Persistência, tudo envelopado por muita Paixão.

Ele alertou os iniciantes a fugirem da ilusão do enriquecimento rápido e das falsas promessas de sucesso instantâneo propagadas na internet (o famoso "arrasta para cima"). A advocacia sólida não se constrói em seis meses. É necessário ter calma, paciência e, acima de tudo, se importar genuinamente com as vidas que estão por trás de cada número de processo. Seja defendendo um indivíduo que perdeu seu emprego ou uma empresa que sustenta milhares de famílias, a conexão humana é essencial.

"A advocacia, do ponto de vista econômico, é uma profissão muito interessante. Se você tiver persistência, calma e paciência, as coisas irão acontecer. Não tem como dar errado se houver trabalho, estudo e persistência. Apaixone-se por tocar vidas e modificar a realidade através da justiça."

Conclusão

O episódio de "Um Café Pela Ordem" com o Dr. Abner Vidal foi uma verdadeira masterclass sobre os desafios, as dores e a beleza da profissão jurídica. O diálogo não apenas enalteceu a importância técnica e humanitária da Advocacia Trabalhista, mas também lançou luz sobre a estrutura tributária do país e a função social indispensável desempenhada pela OAB. Para qualquer advogado, seja em início de carreira ou já veterano nos tribunais, as reflexões compartilhadas neste podcast são um lembrete poderoso de que a justiça é feita de muito suor, estudo contínuo e uma inabalável paixão pelo ser humano.