1. A Origem do "Sem Brincadeira": Uma História de Resenha e Identidade
O time Sem Brincadeira surgiu em 2008, em uma típica resenha de amigos tomando cerveja em Perus, na zona oeste de São Paulo. A ideia inicial era simples: montar um time para jogar nos fins de semana, aproveitando a molecada boa da quebrada. O nome, curiosamente, não foi uma criação original do grupo. Eles herdaram o nome de um time inativo da Malvina, que já estampava a alcunha "Sem Brincadeira" em um uniforme emprestado. Gostaram da sonoridade e decidiram manter, embora tenham reformulado completamente o logo e as cores.
Inicialmente, o uniforme era vermelho e preto com o número 100, mas uma mudança significativa veio quando o presidente Marcelo (Marci) e a diretoria optaram por adotar o amarelo e preto. A justificativa é criativa e identitária: se usassem verde, seriam associados ao Palmeiras; vermelho, branco e preto, ao São Paulo ou Flamengo; preto e branco, ao Santos. Para criar uma identidade única e forte na quebrada, escolheram o preto e amarelo, declarando: "Na nossa quebrada, o preto e amarelo é nosso." A localização do time é no alto de Perus, no lugar mais alto da região, a Colina (Caixa d'Água de Perus), de onde vem o nome da torcida organizada: Leões da Colina.
2. A Torcida Leões da Colina: Paixão, Bateria e o 12º Jogador
O Sem Brincadeira não seria o que é sem sua torcida apaixonada. A Torcida Leões da Colina começou de forma despretensiosa: amigos que iam aos jogos, ficavam na lateral do campo gritando, tomando uma cerveja e incentivando. O Vini, um dos líderes da torcida, conta que nunca foi de jogar campo, mas sempre estava na arquibancada (ou na beira do gramado) agitando o time. Com o tempo, a torcida foi crescendo, ganhou uma bateria batizada de Rugido de Leão, e se tornou um show à parte.
A torcida tem músicas autorais, compostas pelos próprios membros como Lavo, Du (já falecido, recebe homenagens) e Índio. Um dos gritos de guerra mais emblemáticos é: "Sem brincadeira, time de louco, a torcida tomba tudo e busca outro, olê, olê". A bateria é presença confirmada em jogos importantes, e o Vini revela que, em partidas decisivas, a energia é tamanha que a torcida chega a interferir positivamente no resultado, como na semifinal contra o Panela, onde o time estava perdendo por 2 a 0, a torcida inflamou, o time buscou o empate e venceu nos pênaltis. Além disso, há torcedores emblemáticos como Clebinho, famoso por levar um galão de 20 litros de caipirinha para os jogos e por gritar incessantemente com os bandeirinhas, e Peu, um torcedor cadeirante que se emocionou nas semifinais, mostrando que o amor pelo clube não tem barreiras.
3. O Trabalho Social e o Legado na Comunidade de Perus
O presidente Marcelo destaca que o Sem Brincadeira vai muito além das quatro linhas. O clube desenvolve um importante trabalho social na comunidade de Perus há anos. As ações incluem: distribuição de cestas básicas, especialmente durante a pandemia; arrecadação e distribuição de chocolates na Páscoa; e envolvimento direto com as famílias da região.
Marcelo explica que o futebol é importante, mas "não adianta ter o esporte se as pessoas tiverem com alguma dificuldade". Por isso, o clube procura parceiros e comerciantes locais para viabilizar essas ações. Embora alguns ainda fechem as portas, vendo o time apenas como bagunça ou lazer, muitos abraçam a causa e ajudam. A ideia é que o Sem Brincadeira deixe um legado de continuidade, formando não apenas jogadores, mas cidadãos e torcedores. Crianças, como os filhos dos próprios dirigentes e torcedores, já frequentam os jogos e são o futuro da torcida e, quem sabe, do time.
4. A Caminhada nos Jogos da Cidade: 8 Anos de História e a Busca pelo Título no Pacaembu
O Sem Brincadeira participa dos Jogos da Cidade há mais de 8 anos. O primeiro título veio em 2016, com a formação inicial do time. Em 2019, após uma reformulação que trouxe uma base mais jovem (incluindo molecada que jogava nas bases de clubes como Audax), veio o segundo título. Atualmente, o time é tetracampeão regional e já disputou três edições da fase municipal, chegando às quartas de final em uma delas. Agora, em 2024, alcançaram a final municipal, que será disputada no Estádio do Pacaembu, um sonho antigo.
Marcelo relembra com emoção que o acesso à final veio após uma semifinal dramática contra o Guarani, vencida nos pênaltis. A ansiedade naquela semana foi extrema, com problemas de última hora (jogadores que não poderiam ir, cabelos brancos nascendo). Mas o time mostrou resiliência. O presidente confessa que não dorme bem antes dos jogos, e a expectativa para a final no Pacaembu é ainda maior. Para ele, o simples fato de levar o time para jogar em um estádio profissional, onde já foi como torcedor, mas nunca como organizador e dirigente, é um feito histórico, independentemente do resultado.
5. Os Perrengues e Resenhas: Caipirinha, Polícia Rodoviária e o Valtinho que Fugiu do Hotel
O Sem Brincadeira é um time que sabe rir das próprias desventuras. Uma das histórias mais emblemáticas envolve Clebinho e o galão de 30 a 40 litros de caipirinha em uma final da Libertadores de Base em 2019, na zona leste. A torcida e até torcedores adversários beberam. Na volta para Perus, o ônibus foi parado pela polícia rodoviária. Clebinho, que havia bebido pouco naquele dia ("para se prevenir"), foi submetido ao bafômetro e mesmo assim teve a carteira apreendida e o carro levado — gerando uma multa cara que o time teve que pagar.
Outro caso é do diretor Valtinho, que deu o famoso "Miguel" para não ir à final, alegando problemas familiares e uma visita de parentes de Piracicaba. O presidente Marcelo entregou: a verdade é que a esposa ("nega vé") não deixou, e Valtinho preferiu não comprar essa briga. Na mesma final, Vini conta uma resenha pessoal: após ser campeão, bebeu, ficou sem condições de dirigir e deixou sua esposa Iara esperando em Caieiras o dia inteiro, tendo que ser resgatada pelo cunhado. A sede do time, em tempos áureos, ficava em uma adega, o que já demonstra o nível da resenha. O Vini ainda menciona o goleiro Lucas, que, se for substituído, sai do campo e vai direto para a torcida tocar surdo. A zoeira com o goleiro Gabriel (que "dá umas abeladas") também é frequente, mostrando que a cobrança vem junto com o carinho.
6. A Preparação e a Filosofia de Jogo: Ansiedade, Respeito e Fé
Para a final do Pacaembu, a preparação do Sem Brincadeira é intensa, especialmente no aspecto mental. O presidente Marcelo admite que a ansiedade é um inimigo constante, e que o período que antecede o jogo é o mais difícil. O time tem uma espinha dorsal de atletas que está junta desde 2016, o que proporciona entrosamento. A filosofia é clara: jogar com respeito ao adversário, sem arrumar confusão, e sempre com o objetivo de fazer um bom jogo.
Marcelo envia uma mensagem para a torcida e para os jogadores: é preciso saber perder, pois o futebol ensina tanto a vitória quanto a derrota. A organização da competição, especialmente na fase municipal, foi elogiada como "exemplar" na arbitragem e estrutura. O presidente também faz questão de exaltar o adversário da final, o Sem Clube, e seu presidente Cicinho, desejando uma boa final e deixando claro que são adversários dentro de campo, mas não inimigos. A frase final é de união: "Vencer e saber perder. Saber perder é melhor do que saber ganhar, porque ganhar é fácil, perder é difícil".
7. O Significado da Final no Pacaembu e o Convite para a Torcida
Chegar à final dos Jogos da Cidade no Pacaembu é, para todos os envolvidos, a realização de um sonho. Para o presidente, é a coroação de um trabalho que começou em 2008, com uma base que foi mantida e acreditada mesmo nos momentos difíceis. Para o Vini, o líder da torcida, é a chance de ver a Leões da Colina rugindo em um dos maiores palcos do futebol mundial. Para o Binho (membro da torcida), a semifinal já foi eletrizante, com lágrimas escorrendo ao ver torcedores ajoelhados e o cadeirante Peu se levantando no alambrado.
O convite final é para que todos compareçam: "Sábado não fico de bobeira, porque tem jogo e sem brincadeira pode estar uns 40 graus de sol, sem brincadeira é cerveja e futebol". A torcida promete levar faixas, bateria, e fazer uma festa autêntica, com músicas próprias e muita energia. O recado para os seguidores é claro: sigam o Instagram @sembrincadeirafc e a torcida @leoesdacolina para acompanhar essa e outras histórias. O Sem Brincadeira está pronto para fazer história no Pacaembu, honrando a famosa frase: "Sem brincadeira, time de louco".