PodJogar T2 Episódio #1: A Essência do Futebol de Várzea com o "Só Resenha Futebol e Samba"
O episódio de estreia da segunda temporada do PodJogar, o podcast oficial dos Jogos da Cidade de São Paulo, começou com o pé direito e muita comemoração. Neste encontro especial, o apresentador e os ouvintes tiveram a honra de receber os grandes campeões regionais de 2024: os representantes do time Só Resenha Futebol e Samba. Diretamente da Bela Vista, tradicional bairro paulistano, o incansável zagueiro Pereira e o talentoso goleiro Medeiros marcaram presença no estúdio para compartilhar as histórias de vida, as emoções à flor da pele, as enormes dificuldades financeiras e, naturalmente, as infinitas risadas que fazem do futebol amador paulistano um dos ambientes mais ricos e apaixonantes do mundo esportivo.
A conversa mergulhou fundo e sem amarras no que realmente significa ser um atleta de várzea nos dias de hoje, abordando desde as trajetórias pessoais e os sacrifícios de cada jogador até os bastidores hilários de um time que, como o próprio nome sugere de forma literal, valoriza acima de tudo a amizade, o companheirismo e a boa e velha "resenha" após o apito final do árbitro. Prepare-se para conhecer os mínimos detalhes deste episódio que foi, do início ao fim, um verdadeiro golaço de entretenimento e emoção em formato de áudio e vídeo.
As Raízes dos Atletas: Como Tudo Começou para Medeiros e Pereira
O futebol sempre esteve no sangue e na rotina dos dois convidados, mas as trajetórias até o momento em que vestiram a camisa do Só Resenha foram marcadas por diferentes vivências. O goleiro Medeiros, que hoje é reverenciado como um verdadeiro "paredão" sob as traves, iniciou a sua jornada esportiva nas quadras de futsal. Criado na Associação Cristã de Moços (ACM), ele atuava na posição de pivô e, não raras vezes, assumia a arriscada e dinâmica função de "goleiro linha" para tentar reverter desvantagens no placar para sua equipe. Ao ingressar na família do Só Resenha em meados de 2015, ele curiosamente começou atuando como atacante, chegou a passar pela lateral do campo e, guiado por sua paixão original, finalmente fixou-se na posição de goleiro titular, posto que defende com unhas e dentes há mais de cinco anos ininterruptos.
Por outro lado, o robusto zagueiro Pereira traz consigo uma história de vida que espelha o sonho interrompido de incontáveis garotos brasileiros. Jogando futebol apaixonadamente desde os nove anos de idade, ele chegou a trilhar os difíceis caminhos da base e teve uma breve e valiosa passagem pelo futebol profissional. Contudo, as obrigações familiares, as contas a pagar e a necessidade imperiosa de trabalhar o fizeram retornar à várzea de forma precoce. Morador da região do tradicional Bixiga, ele ironicamente jogava pelo time rival da vizinhança (o Juventude) antes de ceder aos repetidos convites dos amigos da rua de cima e finalmente integrar o elenco do Só Resenha. Hoje, com sua presença física imponente, voz de locutor e liderança incontestável, ele é considerado um dos grandes pilares defensivos e morais da equipe campeã.
A Origem do "Só Resenha": Muito Mais que um Time, Uma Comunidade Unida
A história da fundação do Só Resenha Futebol e Samba traduz a essência mais pura, democrática e aglutinadora do esporte amador no Brasil. Fundado oficialmente no dia 13 de setembro de 2013, o time germinou de forma totalmente despretensiosa na Rua Paim, uma pacata travessa localizada entre a movimentada Avenida Nove de Julho e a Rua Frei Caneca, no coração da Bela Vista. Os fundadores originais, todos moradores do gigantesco Conjunto Habitacional Santos Dumont (que abriga os edifícios de nomes icônicos como Caravelle, Demoiselle e 14 Bis), ansiavam apenas por um pretexto para se encontrar aos finais de semana e esquecer os problemas da rotina.
A ideia original era das mais simples e acolhedoras possíveis: criar e oferecer um espaço democrático para os jogadores da própria comunidade que não encontravam oportunidades de atuar nos times varzeanos mais tradicionais e badalados do bairro. Era a desculpa perfeita para bater uma bola sem compromisso tático, tomar aquela cerveja gelada, saborear um churrasco de calçada e colocar a conversa em dia sobre os desafios da semana. O nome "Só Resenha" captura e reflete exatamente essa atmosfera de confraternização fraterna. Contudo, como o futebol sempre prega suas surpresas, o tempo passou, a equipe foi encorpando de maneira orgânica, novos talentos genuínos foram sendo descobertos no bairro e o que era apenas uma distração dominical evoluiu rapidamente para um projeto esportivo sólido, competitivo e altamente vencedor.
O Grande Salto Competitivo e a Glória nos Jogos da Cidade
A transição natural de um time estritamente recreativo para um competidor temido na região ocorreu sem planejamento forçado. Ao perceberem coletivamente a qualidade técnica acima da média do elenco, que passou a reunir jogadores extremamente habilidosos e comprometidos com a vitória, a diretoria amadora e os atletas tomaram a decisão conjunta de se inscreverem em torneios e copas locais. A conquista do primeiro troféu de bairro serviu como um poderoso estopim motivacional para que a equipe percebesse o seu real potencial e passasse a almejar horizontes e competições ainda maiores.
Neste contexto de ascensão, a participação nos Jogos da Cidade de São Paulo funcionou como o grande divisor de águas na história da agremiação. O Só Resenha realizou uma campanha espetacular, superando equipes históricas, e sagrou-se Campeão Regional de 2024. A dimensão da conquista foi tão monumental para os moradores da região que a comemoração extrapolou qualquer limite previsto, durando impressionantes quatro dias e quatro noites ininterruptos de festa pelas ruas da Bela Vista. O apoio dos membros foi vital para a celebração: um dos patrocinadores, que é simultaneamente jogador e proprietário de uma adega (Vanderlei), assegurou que a festa estivesse à altura do épico feito, presenteando a equipe com garrafas de whisky Gold Label e garantindo que a "resenha" comemorativa entrasse para os livros de história do bairro.
A Dura e Ingrata Realidade Financeira do Futebol de Várzea Atual
Um dos momentos mais reflexivos, críticos e reveladores do episódio foi a franca discussão sobre a realidade financeira severamente inflacionada do atual cenário do futebol de várzea em São Paulo. O zagueiro Pereira destacou de maneira cirúrgica que, na atual conjuntura, times amadores bancados por empresários de forte poder aquisitivo inflacionaram o mercado, chegando a desembolsar "cachês" absurdos que variam de 500 a mais de 1.000 reais por um único jogo para atrair os chamados "mercenários" da bola. Para uma equipe modesta, formada essencialmente por trabalhadores assalariados e amigos de infância como o Só Resenha, bater de frente contra essas potências milionárias torna-se um desafio estrutural de Davi contra Golias.
A sobrevivência, a logística e o incrível sucesso do Só Resenha pavimentam-se quase integralmente no suor, na união inabalável e no profundo amor à camisa. Os pesados custos envolvendo o transporte dos atletas, a compra dos uniformes de jogo, a água e as caras taxas de inscrição nos campeonatos são financiados de forma majoritária (estimando cerca de 80% do total) pelos próprios jogadores através de vaquinhas mensais. Eles também contam com apoios locais preciosíssimos e emocionantes, como o do dedicado fisioterapeuta Cauê, que doa generosamente seu tempo e especialidade técnica em absolutamente todos os jogos sem cobrar um centavo, além de pequenos comerciantes da rua que ajudam doando fardos de água ou confeccionando faixas de torcida. Para atrair bons reforços, a equipe aposta única e exclusivamente no apelo emocional do pertencimento comunitário, garantindo aos novos atletas o custo do transporte (Uber) e a promessa de um ambiente humano absurdamente acolhedor, provando empiricamente que a lealdade e a resenha ainda podem superar o poder do dinheiro no esporte.
Solidariedade Além das Quatro Linhas: Uma Família nos Momentos Mais Escuros
Se durante as vitórias e conquistas a festa paralisa o bairro por dias, é justamente durante as tragédias imponderáveis da vida que a verdadeira e indestrutível força moral do Só Resenha transparece. Os convidados do podcast fizeram questão de ressaltar que o grupo é, primariamente, uma formidável rede de apoio psicológico, emocional e social. Eles compartilharam publicamente episódios avassaladores em que a comunidade do time precisou se unir em torno do sofrimento profundo de seus membros, como no trágico falecimento de entes muito queridos do elenco.
Um dos relatos mais tocantes, tristes e pesados mencionados na entrevista foi a perda prematura do filho do jogador Felipe, que atualmente reside e trabalha na Nova Zelândia. Mesmo separados por um oceano e fusos horários de distância, a dor do luto imediato atravessou o mundo e paralisou todas as atividades do time no Brasil. Jogos oficiais foram prontamente cancelados por falta de condições emocionais, e todo o grupo se uniu em orações, mensagens de conforto e mobilização para auxiliar o amigo no que fosse possível à distância. Da mesma forma, no falecimento do pai do jogador Laio, o elenco se fez presente para confortar o atleta, demonstrando de forma inequívoca que o manto sagrado do Só Resenha une aqueles homens por laços de compaixão e irmandade que superam, em muito, qualquer partida de futebol.
Emoções à Flor da Pele: O Gigante em Lágrimas e a Redenção Histórica nos Pênaltis
O futebol de várzea é um caldeirão de sentimentos que possui a capacidade única de arrancar as emoções mais profundas que a casca dura da vida cotidiana costuma esconder. O imponente, forte e sério zagueiro Pereira revelou, aos risos misturados com nostalgia, uma história que rendeu (e ainda rende) muita zoação interminável entre os amigos de equipe e até a indignação cômica de sua esposa Camila: ele chorou compulsivamente, de soluçar, durante a sagrada roda de oração que antecedeu a duríssima semifinal dos Jogos da Cidade. O estopim para as lágrimas não foi o nervosismo pela partida, mas a ausência de um dos principais líderes da equipe, o volante Rafael Feroz, que estava lesionado e impossibilitado de atuar. A profunda empatia pela dor e frustração do amigo nos bastidores fez a montanha de músculos desmoronar em um choro sincero. A ironia apontada pela sua esposa é que o zagueirão não derrubou uma única lágrima sequer durante o nascimento de seus próprios dois filhos, guardando todo esse reservatório emocional para a várzea!
O goleiro Medeiros também teve o seu instante de montanha-russa emocional intensa e inesquecível durante os minutos de tensão da grande final. Com extrema humildade, o arqueiro confessou no programa que se sentiu diretamente culpado por ter falhado em um dos gols do time adversário logo no início do confronto, fato que deixou o Só Resenha amargando uma desvantagem perigosa de 2 a 0 no placar. Felizmente, graças à atuação espetacular e resiliente do veloz atacante Caçarrato (que cravou os dois tentos de empate), a equipe buscou o 2 a 2 no sufoco, arrastando a decisão agonizante para a temida disputa de penalidades máximas. Foi ali, debaixo do travessão, que o goleiro alcançou a sua consagração definitiva: Medeiros defendeu heroicamente nada menos que três cobranças seguidas, redimindo-se absolutamente de sua falha no tempo normal e carimbando a faixa de campeão para a Bela Vista. Ao final da epopeia, o jogador Daniel (o evangélico fervoroso do grupo) afastou o goleiro do tumulto da comemoração, apontou para o céu e ordenou que ele agradecesse a Deus pelo milagre concedido, em um gesto de fé que foi eternizado em fotografias emocionantes guardadas por todos.
Os Bastidores Hilários: Porque o Nome do Time é "Só Resenha"
Como era amplamente previsível e necessário em uma entrevista com representantes de uma equipe batizada de "Só Resenha", as histórias recheadas de comicidade dos bastidores tomaram conta e trouxeram leveza a boa parte da transmissão. Os jogadores confessaram que as confraternizações tradicionais de fim de ano (especialmente o caótico jogo "Solteiros contra Casados") são terrenos férteis para piadas ácidas, provocações sem limites e muita zoeira ininterrupta. Hoje, como a esmagadora maioria do time é composta por homens na vida de casados, as escapadas mais cedo do churrasco usando a clássica desculpa de que "a patroa ligou brava" são o prato principal das piadas.
Mas a anedota que de fato fez o estúdio inteiro, incluindo a equipe técnica, explodir em gargalhadas sonoras envolveu o sempre presente coordenador do time, Leandro Paiva (vulgo Pizza). Às vésperas de uma partida crucial de mata-mata, ele apareceu para a concentração do time com o rosto dramaticamente marcado por arranhões grossos e profundos. Perplexos, os jogadores questionaram o que diabos havia ocorrido em sua casa. Pizza, tentando manter a seriedade, disparou a pior e mais improvável das desculpas: "Fui apertar a barriguinha do meu cachorro brincando e ele me arranhou". Os jogadores, observando friamente a largura colossal das marcas — que sugeriam facilmente as garras de um tigre de bengala ou, de maneira muito mais óbvia, os reflexos físicos de uma briga passional de relacionamento —, não engoliram uma única sílaba da história. Desde aquele dia fatídico, a "barriguinha do cachorro" do Pizza tornou-se a piada oficial e imortal do vestiário.
Outro momento comicamente impagável ocorreu em uma tensa roda de oração pré-jogo, momento de silêncio e respeito. O jogador Feroz, emocionado e desejando registrar a sua gratidão à presença ilustre de um amigo no elenco, proferiu em voz alta: "Eu queria agradecer o Misso por ele estar aqui...". O silêncio fúnebre foi rompido instantaneamente e a roda inteira desabou na risada descontrolada, com um dos colegas indagando de forma incrédula por que ele estava agradecendo a um "Míssil" (confundindo o nome com o armamento) ao invés de agradecer a Deus pela saúde e pelo dom da vida. O "Míssil" em questão era apenas o apelido carinhoso (Misso) de um dos parceiros. O time é um absoluto catálogo de apelidos exóticos: além de Misso, Pizza e Feroz, o elenco desfila pelos gramados paulistanos com nomes como Caçarrato, Felipinho, Valbuena, Drogba e o próprio presidente da associação, apelidado de "Gordo" (embora ostente um físico magro, o apelido pegou pela sua lentidão de movimentos, parecendo um urso preguiçoso na visão dos amigos).
O Futuro Competitivo, a Inclusão Social e o Impacto na Bela Vista
Caminhando a passos largos para a conclusão de um episódio riquíssimo e dinâmico, os convidados foram inquiridos sobre quais são os ambiciosos próximos passos na trajetória do Só Resenha. Ostentando o inédito título regional na prateleira e impulsionados por uma sólida campanha inicial na atual fase municipal (onde conquistaram vitórias maiúsculas, apesar da amarga eliminação nas oitavas de final contra o duro esquadrão do "Sem Brincadeira"), a autoconfiança do grupo disparou. O grandioso projeto para os anos vindouros engloba a entrada sem receios nas competições mais temidas e de altíssimo calibre financeiro da várzea de São Paulo, como a prestigiada Copa do Busão e a colossal Super Copa Pioneer (conhecida como a "Champions League da Várzea"). A intenção não é perder a essência da amizade, mas agregar pontualmente jogadores qualificados dispostos a vestir a camisa pelo amor à resenha para bater de frente com os gigantes do setor.
Entretanto, o objetivo filosófico e central do Só Resenha repousa muito além do brilho efêmero de levantar taças e medalhas. O coletivo ambiciona cimentar sua raiz comunitária, arregimentando cada vez mais a paixão dos moradores e a adesão irrestrita dos comerciantes da Bela Vista para apoiarem incondicionalmente o time na beira do alambrado. Para ilustrar o tamanho e a força desse engajamento local que já está florescendo, citaram a atitude arrepiante de um dono de um tradicional mercadinho do bairro, carinhosamente conhecido como Onça. No derradeiro e decisivo dia da final dos Jogos da Cidade, mesmo com o estabelecimento lotado de fregueses em pleno pico de vendas, ele encerrou o expediente bruscamente, trancou as portas do comércio debaixo de sol e declarou aos clientes que estava indo apoiar o Só Resenha na busca pelo caneco. Esse nível de mobilização passional é a grande vitória que o clube almeja consolidar permanentemente.
Nos minutos finais, transbordando sabedoria, o zagueirão Pereira deixou cravada uma reflexão de imensa profundidade social sobre o papel transformador da várzea no Brasil urbano de hoje. Ele salientou, com tom grave, que o mundo exterior e as ruas encontram-se terrivelmente perigosos, sujos e hostis, cercados de armadilhas mortais e facilidades ilícitas para os jovens de periferia. O esporte amador atua, segundo sua visão aguçada, como a maior, mais barata e mais eficaz ferramenta pública de inclusão social existente no país. O campo de barro e o vestiário retiram crianças e adolescentes da letal ociosidade das ruas, blindam-nos da atração magnética da criminalidade e inserem esses jovens em um microcosmo protegido, moldado por homens de coração bom, disciplina, exemplos concretos de superação e uma rede de auxílio incondicional. O brilhante Só Resenha Futebol e Samba prova incontestavelmente, a cada sábado e domingo debaixo de sol escaldante, que, quando regado à amizade inabalável, comprometimento e uma alegria que contagia todo o bairro, o futebol de várzea transcende os 90 minutos: ele não apenas forja atletas campeões que emocionam a arquibancada, mas transforma destinos, resgata vidas e solidifica os inestimáveis alicerces comunitários de um povo trabalhador que nunca deixa de sorrir.