A República de 1889: Um Golpe que Interrompeu a Ascensão do Império
O professor Rafael Nogueira, mestre em história do direito brasileiro, inicia sua análise com uma provocação contundente: faz sentido alguém de direita ou conservador comemorar a Proclamação da República? Para ele, a resposta é não. O Império do Brasil, especialmente em seus últimos anos, estava em franca ascensão econômica. Após a abolição da escravidão, assinada pela Princesa Isabel sem qualquer indenização aos fazendeiros, a economia não ruiu como muitos temiam; pelo contrário, continuou subindo. Foi então que um grupo de insatisfeitos — militares positivistas, cafeicultores paulistas que se sentiam sub-representados e ex-proprietários de escravos revoltados — orquestrou um golpe de estado. Nogueira enfatiza que não houve revolução popular contra o imperador Dom Pedro II. O povo não se sublevou contra a monarquia, mas também não se levantou para defendê-la diante do golpe militar. O império, que havia garantido 65 anos de estabilidade com a Constituição de 1824 (a mais duradoura da história do Brasil), foi derrubado por uma "quartelada" que instituiu um regime marcado por crises e centralização excessiva, especialmente nos governos iniciais de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.
Os Grupos que Derrubaram a Monarquia e Seus Interesses
Nogueira detalha a confluência de forças que levaram ao fim do Império. Primeiro, os ex-proprietários de escravos, que nunca perdoaram a Princesa Isabel pela Lei Áurea (1888) sem indenização. Segundo, os militares que retornaram da Guerra do Paraguai (1864-1870) sentindo-se desprestigiados, pois a Constituição de 1824 impedia que militares ativos participassem da política. Influenciados pelo positivismo de Auguste Comte (lema "Ordem e Progresso"), eles acreditavam que cabia às forças armadas impor a ordem e o progresso científico ao país. Terceiro, a elite paulista do café, que via sua pujança econômica não corresponder ao seu peso político no sistema imperial, majoritariamente controlado por Minas Gerais, Rio de Janeiro e o Nordeste. Inspirados pelo modelo republicano norte-americano, os paulistas queriam um regime que desses mais poder às províncias (futuros estados). Figuras notáveis, como o engenheiro e escritor negro André Rebouças, republicano de primeira hora, se decepcionaram profundamente com o resultado do golpe, chegando a se despedir de Dom Pedro II no exílio, declarando que não era aquela república que ele havia imaginado.
O Mito da Colonização de Exploração vs. Povoamento
Nogueira utiliza sua experiência como ex-presidente da Biblioteca Nacional para desmontar uma das maiores falácias ensinadas nas escolas brasileiras: a classificação das colônias em "de povoamento" (bem-sucedidas) e "de exploração" (fracassadas, como o Brasil). Ele afirma que essa classificação não existe no registro histórico documental. A ideia foi fabricada no século XIX por Adam Smith e pelo francês Leroy-Beaulieu (ambos conhecidos por seu profundo preconceito contra o mundo ibérico) e popularizada no Brasil por Caio Prado Júnior. A realidade, segundo Nogueira, é que não havia hierarquia legislativa entre Portugal e o Brasil: as mesmas Ordenações Filipinas vigiam em ambos os lados do Atlântico. Os brasileiros eram chamados de "portugueses do além-mar", e não existe um único documento português que utilize o termo "colônia" no sentido pejorativo e exploratório do século XIX. Se os portugueses quisessem apenas explorar, argumenta ele, não teriam fundado cidades, colégios, Santa Casas de Misericórdia e igrejas monumentais. Eles não teriam ficado no território — teriam retornado a Portugal ricos. A verdade é que o Brasil era visto como uma extensão do reino, e a colonização foi um processo de povoamento e construção civilizacional, não de mera extração predatória.
O Ouro Não Foi Roubado, e o Ciclo do Café Foi Mais Importante
Continuando a desconstrução de mitos, Nogueira aborda a crença de que Portugal roubou todo o ouro do Brasil. Ele explica que a Lei de Lavras (com mais de 100 anos à época do descobrimento do ouro em Minas Gerais) determinava que a Coroa portuguesa ficaria com 20% (o quinto) de todo o ouro descoberto. Não houve roubo — houve pagamento de imposto. Além disso, o maior beneficiado pela descoberta do ouro não foi Portugal, mas o próprio Brasil, com a construção de cidades históricas como Ouro Preto e Parati, abertura de estradas, interiorização da população e desenvolvimento de um mercado interno. Nogueira faz uma comparação crucial: a Inglaterra também cobrava 20% sobre o ouro de suas colônias, mas não é acusada de roubo pela historiografia. E mais: o ciclo do ouro não foi o mais rico da história do Brasil. Este título pertence ao ciclo do café em São Paulo, que gerou os excedentes econômicos que financiaram a industrialização paulista e transformaram a região. A ideia do ouro roubado é, portanto, uma narrativa politicamente motivada para deslegitimar a colonização portuguesa.
A Verdade Sobre a Independência, a Constituição de 1824 e os Andradas
Nogueira dedica uma parte significativa da entrevista a defender a memória de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência. Contrariando setores do catolicismo tradicional que o veem como um maçom iluminista e anticlerical, Nogueira argumenta que Bonifácio foi o principal artífice da unidade nacional e o verdadeiro pai da abolição da escravatura. Ele já propunha, nos primeiros anos do Império, um plano gradual de emancipação que libertaria os escravos em cinco anos — algo que só se concretizaria décadas depois. Bonifácio também defendia que se imitasse o método jesuíta de catequização dos indígenas, com reza do rosário e integração. Nogueira rebate as críticas de que Bonifácio era maçom, lembrando que naquela época, praticamente todos os padres e políticos eram maçons — era o "clubinho" da época para tomada de decisões informais. Quanto à Constituição de 1824, Nogueira a considera um modelo de estabilidade e proteção de direitos. O artigo 179, com 31 incisos, já garantia amplamente os direitos individuais: proteção da propriedade, liberdade de pensamento, tolerância religiosa (apesar do catolicismo oficial), necessidade de lei anterior para definir crime, e inviolabilidade do domicílio. A escravidão não estava na Constituição; era uma chaga social que a Carta Magna não mencionava, pois o próprio Bonifácio já buscava sua extinção. A durabilidade (65 anos) e a estabilidade política proporcionada pela constituição imperial são, para Nogueira, provas incontestáveis de sua qualidade superior em comparação com as constituições republicanas que se seguiram.
A Guerra do Contestado e a Violência do Estado Republicano
O professor Nogueira, agora residente em Santa Catarina e membro da diretoria do Instituto Histórico Geográfico de Santa Catarina, aborda um dos episódios mais trágicos e negligenciados da história brasileira: a Guerra do Contestado (1912-1916). Ele explica que o conflito foi, em sua origem, uma brutal violência do estado republicano contra populações sertanejas pobres. A construção de uma ferrovia que iria ligar São Paulo ao Rio Grande do Sul exigia o desalojamento de comunidades inteiras na região do Contestado (fronteira entre Paraná e Santa Catarina). O estado não ofereceu indenização adequada nem diálogo com os moradores, expulsando-os de suas terras de forma violenta. A isso somou-se um contexto de fragilidade institucional da jovem república, vista por muitos como "coisa do demônio", e a presença de líderes messiânicos como o Monge José Maria, que prometiam construir uma comunidade verdadeiramente católica e justa — ecoando o fenômeno de Canudos, na Bahia, liderado por Antônio Conselheiro. O resultado foi uma guerra sanguinária que vitimou entre 15 e 20 mil pessoas. Nogueira aponta um legado concreto desse massacre até os dias atuais: um levantamento do IDH e do PIB catarinense mostra que as cidades que sofreram com a Guerra do Contestado são exatamente aquelas que ainda hoje apresentam os piores índices de desenvolvimento socioeconômico no estado. Um fato curioso e trágico mencionado é que o primeiro avião utilizado em guerra no Brasil foi empregado no Contestado — mas caiu sem realizar qualquer ação efetiva.
A Decadência Intelectual da Universidade e a Formação de Professores de História Fora do Eixo Esquerdista
Nogueira compartilha sua preocupação com a hegemonia cultural da esquerda nas universidades e no sistema educacional brasileiro. Ele relata uma pesquisa da Revista Veja em que, ao serem perguntados sobre o maior herói da história, professores de história brasileiros elegeram Che Guevara — um personagem estrangeiro, assassino e que não tem absolutamente nada a ver com a história do Brasil. Para Nogueira, isso demonstra como o sistema foi capturado. Ele explica que a esquerda atuou de forma estratégica e diplomática por décadas, penetrando nas universidades, conquistando cargos, verbas e a hegemonia cultural. Nos anos 90 e 2000, essa hegemonia se tornou total: a esquerda controlava os meios de financiamento da pesquisa, os programas de pós-graduação, a produção de livros didáticos e a formação de novos professores. Como resposta a esse cenário, Nogueira ajuda a coordenar um curso de licenciatura em história no Centro Universitário Católico Ítalo Brasileiro, com o objetivo de formar professores que tratem a história como ciência e não como militância ideológica. Ele revela que o projeto sofreu um duro golpe quando o governo Lula assinou uma medida dificultando o ensino a distância (EAD) para licenciaturas — mas o curso continua, com formato semipresencial. O professor também anuncia a parceria com a Brasil Paralelo, que ofereceu bolsas de estudo para formar professores de história comprometidos com a verdade documental, e a futura abertura de um bacharelado em história para quem deseja ser pesquisador, historiador ou escritor, sem necessariamente dar aulas.
A Teologia da Libertação em Santa Catarina e o Celeiro de Esquerda no Oeste
Nogueira faz uma observação intrigante sobre a geografia política de Santa Catarina. Curiosamente, os deputados estaduais do PT catarinenses são todos oriundos da região Oeste — a mesma região que deu à luz o principal teórico da Teologia da Libertação, o frade franciscano Leonardo Boff, natural de Concórdia (SC). O professor admite que ainda não consegue explicar precisamente esse fenômeno, mas sugere que ele pode estar relacionado aos processos migratórios para a região, especialmente de gaúchos e descendentes de italianos, e à própria história da Guerra do Contestado, que deixou um rastro de desesperança e vulnerabilidade. Ele menciona que as origens de Gleisi Hoffmann (presidente nacional do PT) também estão no Oeste catarinense, na cidade de Itapiranga. Para Nogueira, compreender essa concentração de pensamento de esquerda no Oeste de Santa Catarina é uma pesquisa urgente que precisa ser feita para que se possa, eventualmente, contrapor essa influência. Ele lembra, no entanto, que Santa Catarina é um estado complexo e também abriga experiências bem-sucedidas como a cidade de Treze Tílias, fundada por austríacos, que mantém uma forte tradição católica e uma economia pujante baseada em laticínios, cerveja, chocolate e uma belíssima arte sacra em madeira.
A Necessidade de Intelectuais na Política e o Exemplo de Dom Pedro II
Nogueira conclui a entrevista com uma reflexão sobre a relação entre intelectuais e política. Ele critica a tendência atual de eleger figuras que são "piores que o eleitor" em vez de pessoas mais preparadas e estudiosas. Defende a figura híbrida do líder erudito — aquele que estuda, lê clássicos, conhece a história do país, mas também tem a humildade de aprender com a prática e com os mais experientes. Como exemplo máximo dessa figura, ele cita Dom Pedro II, que falava mais de 15 idiomas, viajava constantemente para ouvir a população, usava o Poder Moderador com prudência (dissolvendo o parlamento, demitindo juízes ou o presidente do conselho de ministros quando necessário para o bem da nação) e vivia com simplicidade, sendo chamado de "imperador cidadão". Nogueira também cita os exemplos contemporâneos de políticos de direita que conciliam sucesso eleitoral com bagagem intelectual: Nicolas Ferreira, Marcel van Hattem, Caroline De Toni e Ana Campagnolo. Para ele, a direita precisa urgentemente superar o anti-intelectualismo e valorizar a formação e o estudo. Quem não quer se candidatar, afirma, pode pelo menos contribuir com canais de comunicação, assessoria especializada e think tanks. Ele mesmo tenta viver essa dualidade: atua como secretário executivo na Investe SC (atraindo investimentos para o estado), é professor, escritor, editor (Clube Ludovico) e doutorando em ciência política na UFSC, unindo a teoria acadêmica à prática administrativa.