Podcast Podlalaiá #Ep25 - Tadeu Kaçula

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O 25º episódio do Podcast Podlalaiá Samba Clube, brilhantemente conduzido pelo apresentador Rafael, entregou ao seu público uma verdadeira aula de história, sociologia e resistência cultural. Para celebrar mais um capítulo desta segunda temporada de sucesso, o programa recebeu um convidado de peso: Tadeu Kaçula. Sociólogo, curador, escritor, sambista e um pensador fundamental para a compreensão das dinâmicas raciais e culturais do Brasil, Tadeu protagonizou um bate-papo denso, reflexivo e extremamente necessário sobre o passado, o presente e o futuro do carnaval e da população negra no país.

Logo na abertura, Rafael manteve a tradição do programa, agradecendo aos parceiros fundamentais (Yourcast Studio, o personal trainer Felipe Donato e a Boa Vila Espetaria & Eventos) e presenteando o convidado com os tradicionais mimos do Podlalaiá. Mas o que se seguiu não foi apenas uma entrevista sobre o universo do samba, e sim uma imersão profunda nas raízes sociológicas do Brasil.

As Raízes Antes dos Títulos Acadêmicos

Ao ser introduzido por seus vastos títulos acadêmicos, Tadeu fez questão de inverter a ordem de sua apresentação. Antes de ser mestre, doutor pela Universidade de São Paulo (USP) ou pós-doutor, ele se define por seu território e sua ancestralidade. Caçula de nove irmãos, ele é fruto de uma família preta retinta do bairro da Casa Verde, um dos territórios mais negros da Zona Norte de São Paulo. Seus pais se conheceram em 1958, justamente em um desfile da tradicional escola de samba Unidos do Peruche.

Tadeu explicou que sua formação de mundo se apoia em três rodas sagradas do universo negro brasileiro: o Candomblé (ele é iniciado na nação Angola, consagrado ao Nkisi Nkosi), a Capoeira (sendo membro do tradicional Grupo Cativeiro) e o Samba. Somente com essa bagagem ancestral consolidada é que a academia entrou em sua vida para complementar e sistematizar os saberes intrínsecos de sua vivência.

O Carnaval como Espaço de Reumanização

Rafael levantou um debate provocativo: por que parte da sociedade, que se diz amante do samba e do carnaval, torce o nariz quando as escolas levam para a avenida enredos de matriz africana? A resposta de Tadeu foi uma viagem histórica. Ele explicou que, após quase 400 anos de um sistema escravocrata brutal que desumanizou a população negra — retirando sua língua, religião e dignidade —, os primeiros agrupamentos negros pós-abolição (cordões carnavalescos, times de futebol de várzea e clubes negros) funcionaram como espaços vitais de reumanização e resiliência.

Até a década de 1960, o carnaval em São Paulo era duramente marginalizado, tratado pelo Estado e pela elite como "coisa de vagabundo" e passível de repressão policial. Tudo mudou em 1968, na gestão do prefeito Faria Lima, quando o carnaval de São Paulo foi oficializado e passou a receber subvenção pública, visando o potencial turístico e econômico. Com o dinheiro e a chancela do Estado, a festa deixou de ser reprimida e passou a atrair a população branca.

O problema, segundo o sociólogo, é que esse processo gerou um "branqueamento" do carnaval. A sociedade passou a tratar o samba como uma cultura genericamente "brasileira", apagando intencionalmente a cosmologia, a epistemologia e a autoria afro-diaspórica que fundaram a festa.

A Diferença entre Apropriação e Extrativismo Cultural

Durante a conversa, Tadeu introduziu um conceito sociológico de sua própria autoria, que tem publicado em artigos recentes: a diferença entre Apropriação Cultural e Extrativismo Cultural.

Enquanto a apropriação cultural está ligada ao uso estético de símbolos de resistência negra por pessoas brancas (como o uso de dreads ou turbantes, esvaziando seus significados de hierarquia e luta), o Extrativismo Cultural é um processo de usurpação econômica. Ele ocorre quando o capital e as estruturas hegemônicas se apropriam das produções culturais negras para gerar lucros bilionários, mas excluem completamente a população negra dos espaços de gestão e de decisão. Tadeu citou como exemplos os carnavais do Rio de Janeiro, o circuito Barra-Ondina em Salvador, Parintins e Recife, festas que movimentam bilhões, mas onde raramente se vê negros nos altos cargos de comando financeiro e administrativo.

A Falsa Meritocracia e o Projeto Eugenista Brasileiro

A conversa também tocou nas declarações recentes e racistas de dirigentes esportivos, que sugeriam que o negro possui apenas força física, mas não intelectual. Tadeu destruiu essa falácia traçando a história da eugenia no Brasil. Ele lembrou que grandes pensadores do passado (como Nina Rodrigues, João Batista de Lacerda e Monteiro Lobato) dedicaram-se ao chamado "racismo científico" para provar a suposta inferioridade negra.

Em 1911, durante o Congresso Universal das Raças em Londres, o Brasil chegou a apresentar um projeto oficial garantindo que, em 100 anos, a população negra estaria dizimada no país através de políticas de branqueamento e miscigenação forçada. Para reforçar esse projeto de exclusão, o Estado Brasileiro criou leis perversas: um decreto em 1836 que proibia negros de frequentarem escolas e a Lei de Terras de 1851, que impedia negros de adquirirem propriedades. Com esse histórico de bloqueios legais estruturais impostos pelo Estado, Tadeu demonstrou como o discurso moderno de "meritocracia" é uma grande falácia hipócrita.

O Legado da Frente Negra Brasileira (FNB)

Como forma de resistência a essa exclusão sistemática, surgiu em 16 de setembro de 1931 a Frente Negra Brasileira, que Tadeu classifica como a mais importante organização da população negra no pós-abolição. A FNB criou escolas de alfabetização e profissionalização para inserir o negro no mercado de trabalho e fundou o jornal "A Voz da Raça", objeto de estudo do mestrado de Tadeu.

Inspirado por esse legado histórico e utilizando a filosofia africana de Sankofa (voltar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro), Tadeu e outros intelectuais ajudaram a refundar a entidade em 2016, sob o nome de Nova Frente Negra Brasileira. Hoje, o movimento atua em 14 estados, realiza seminários, pressiona o Congresso Nacional através de audiências públicas e trabalha ativamente para inserir e formar candidaturas negras nos espaços de poder institucional, combatendo o desvio de fundos partidários e a falta de representatividade legislativa.

Crítica aos Regulamentos do Carnaval: O Engessamento da Tradição

Trazendo a reflexão sociológica para dentro da avenida, Tadeu Kaçula fez uma crítica dura e cirúrgica às mudanças nos regulamentos do Carnaval de São Paulo. Para ele, as regras atuais promovem um "engessamento" que pune diretamente as escolas de samba tradicionais, conhecidas como "escolas de chão" (a exemplo de Vai-Vai, Camisa Verde e Branco e Nenê de Vila Matilde).

Ele argumentou que o corpo negro possui uma movimentação histórica, estética e orgânica diferente do corpo branco. Ao exigir alas excessivamente coreografadas, penalizar a espontaneidade dos batuqueiros e dos passistas, e reduzir drasticamente o número das Alas de Baianas e da Velha Guarda em prol da evolução rápida e cronometrada, o regulamento atual prioriza uma estética plástica e fria, punindo a ancestralidade. Além disso, ele criticou a obsessão adoecedora das diretorias em "ganhar o campeonato a qualquer custo", transformando o título em um mero troféu de vaidade pessoal de presidentes, esquecendo que o desfile deveria ser apenas a grande celebração do trabalho social, cultural e educacional realizado pela agremiação dentro de sua comunidade durante o ano inteiro.

Literatura, Preservação da Memória e o Instituto Samba Autêntico

Além de sua militância política, Tadeu tem se dedicado vorazmente à literatura para suprir a carência de registros sobre a história negra de São Paulo. Ele detalhou seus três livros publicados:

  • Casa Verde: Uma Pequena África Paulistana: Resgata a importância da Zona Norte, os fundadores das escolas de samba locais e figuras históricas nascidas na região, como o bicampeão olímpico Ademar Ferreira da Silva.
  • Imprensa Negra na Década de 1930: Fruto de seu mestrado sobre a Frente Negra Brasileira e o jornal "A Voz da Raça".
  • Samba e Pandemia: Um diagnóstico profundo dos brutais impactos econômicos e vitais da Covid-19 sobre os sambistas, e como as escolas se organizaram em redes de solidariedade para sobreviver.

Tadeu também falou com brilho nos olhos sobre o Instituto Cultural Samba Autêntico, fundado em 13 de maio de 1999. O que começou como rodas de samba de estudo no Clube dos Sambistas e na Loja Contemporânea, transformou-se no icônico projeto "Rua do Samba Paulista", que chegou a reunir milhares de pessoas no centro de São Paulo mensalmente. Devido à imensa seriedade da instituição, a família do lendário Geraldo Filme confiou ao Instituto o acervo pessoal do compositor, contendo fotos, documentos e áudios inéditos.

Esse riquíssimo material originou uma parceria com o Instituto Moreira Salles (IMS), que resultou no lançamento da série de podcasts e exposições "Geraldo Filme e o Samba Paulista", um projeto com curadoria do próprio Tadeu, essencial para imortalizar um dos maiores nomes da cultura negra do país.

Encerramento Apoteótico com Geraldo Filme

Rafael, visivelmente emocionado e grato pela "aula magna" que acabara de presenciar, encerrou o programa reconhecendo a urgência de debates como os propostos por Tadeu Kaçula. Reforçou que o verdadeiro papel de quem ama o samba é ouvir, aprender e respeitar a história que pavimentou o caminho de todos nós.

Para fechar o episódio com chave de ouro e máxima elevação espiritual, Tadeu pediu licença para cantar uma obra atemporal do mestre Geraldo Filme. Sem instrumentos, apenas com a emoção de sua voz, ele entoou a canção "Reencarnação":

"Pai, criador do universo, venho te pedir perdão pelos erros cometidos... Quero ser sambista ao renascer de novo, para cantar a alegria e a desventura do meu povo... Cantar samba na avenida, e nascer negro novamente."

Um final perfeito e arrepiante para um episódio que provou, mais uma vez, que o samba não é apenas entretenimento, mas o mais forte, bonito e vital instrumento de sobrevivência, intelectualidade e resistência do povo brasileiro.