Podcast Podlalaiá #Ep12 - Lucas Donato

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O episódio 12 do Podcast Podlalaiá Samba Clube, apresentado por Rafael, traz uma entrevista profunda e emocionante com Lucas Donato, um dos maiores e mais promissores talentos da nova geração do samba e do carnaval. Compositor, cantor e intérprete, Lucas abriu o coração sobre suas origens, suas decepções, as vitórias que vem conquistando em São Paulo e os bastidores quase inacreditáveis da vida na avenida. O episódio marca também a estreia do podcast em um novo estúdio (Yourcast Studio), celebrando uma nova fase para o canal.

A Raiz no Samba: Uma Linhagem de Peso

A história de Lucas Donato com a música não começou por acaso; ela veio de berço e de linhagem sanguínea. Ele revela que faz parte da família do saudoso e lendário cantor Roberto Ribeiro (que foi marido de sua tia-avó). Além disso, seu pai foi ritmista, sua mãe foi passista de destaque e seus avós maternos eram compositores premiados de samba-enredo. Seu avô, inclusive, foi um dos fundadores da Unidos da Ponte, mas a escola do coração de quase toda a família sempre foi o Império Serrano.

Lucas conta que cresceu em Madureira, frequentando a ala das crianças e depois a bateria do Império Serrano. Quando decidiu que queria compor, seu avô ficou receoso de que as pessoas achassem que ele só estava ali pelo "sobrenome". No entanto, o talento de Lucas falou mais alto. A grande virada de chave no início de sua carreira ocorreu quando o mestre Arlindo Cruz o convidou para fazer parte de sua parceria de compositores. A partir dali, ele consolidou seu dom, ganhou sambas e criou uma amizade de "irmão de alma" com Arlindinho.

A Decepção no Rio e o Recomeço em São Paulo

Um dos momentos mais reveladores da conversa foi quando Lucas explicou o verdadeiro motivo de sua mudança do Rio de Janeiro para São Paulo. Diferente dos boatos de que havia "fugido", Lucas relatou uma profunda tristeza e decepção com o Império Serrano após o carnaval de 2024. Ele aguardava, há anos, a oportunidade de ser efetivado como o intérprete principal de sua escola do coração. Pessoas internas haviam lhe garantido que "agora era a sua vez", mas a promessa não se concretizou.

Sentindo que a eterna espera estava prejudicando sua saúde mental e travando sua carreira, ele tomou uma atitude drástica: ligou para o amigo Rodrigo Jacopetti, pediu ajuda e comprou uma passagem apenas de ida para São Paulo, onde sua ex-esposa e seu filho já estavam. Na capital paulista, a vida não foi fácil no começo. Lucas trabalhou como carregador, cenógrafo e marceneiro para se sustentar. Logo, o intérprete Igor o ajudou a conseguir uma audição na Mocidade Alegre (atual campeã do carnaval de São Paulo), onde ele passou e ingressou no carro de som. Hoje, Lucas se estabilizou: além de compor e vencer disputas (como recentemente na Dom Bosco para 2025), ele foi contratado como intérprete oficial da Pérola Negra, dividindo o microfone com Bruno Ribas.

O Maior "Perrengue" da Avenida: O Risco de Cegueira

Sempre que Rafael pergunta sobre "perrengues" de carnaval, ele ouve histórias sobre chuva ou choques elétricos. Mas Lucas entregou uma história assustadora e de pura superação física. Na sexta-feira que antecedia o desfile da Mocidade Alegre no carnaval de 2024, Lucas acordou com uma dor absurda no olho e a visão embaçada, a ponto de não conseguir trabalhar. Ao ir ao médico oftalmologista, recebeu um diagnóstico gravíssimo: a pressão do seu olho estava altíssima (em torno de 30) devido a uma antiga cicatriz que inflamou.

O médico foi taxativo: "Se você não tomar essa medicação pesada agora, em dois dias o seu olho explode e você fica cego". Ele gastou cerca de mil reais em antibióticos, colírios fortes (que precisavam ser aplicados de 12 em 12 horas) e comprimidos. No dia do desfile, com o olho completamente inchado e roxo (segundo ele, "parecendo um mutante"), ele foi para a avenida. Ele precisava tomar um dos remédios cruciais exatamente à 1h45 da manhã — momento exato em que a Mocidade Alegre estava desfilando. Lucas escondeu o comprimido solto no bolso, colocou o celular para despertar e, durante a entrada da bateria no recuo, pediu uma garrafa de água e engoliu o remédio no meio do desfile, cantando até o fim e ajudando a escola a ser campeã.

A Indústria das Disputas de Samba e a Perda da Essência

A entrevista também abordou o cenário atual das disputas de samba-enredo, e Lucas fez críticas contundentes à forma como o sistema funciona, especialmente no Rio de Janeiro. Ele revelou cifras assustadoras: parcerias chegam a gastar até R$ 200.000,00 em uma disputa para bancar torcida paga, ônibus, cerveja, fogos indoor, aluguel de palco e cantores. Com as escolas retendo 50% do prêmio, muitas vezes os compositores saem no prejuízo financeiro para amaciar o ego.

Ele elogiou medidas tomadas por escolas como a Imperatriz Leopoldinense, que proibiu torcidas organizadas (com camisas) e limitou os cantores, forçando a escolha do samba pela sua real qualidade e barateando o processo. Em São Paulo, Lucas também vê com bons olhos as escolas que fazem as disputas inteiramente através de audições de CDs ou gravações em estúdios financiados pela própria agremiação.

Sob o aspecto poético, Lucas, acompanhado de seu cavaquinho, reclamou do "engessamento" das obras atuais. Para ele, os compositores de hoje estão obcecados em colocar palavras difíceis no samba apenas para agradar aos carnavalescos (que se tornaram as únicas "estrelas" da festa) ou para forçar refrões idênticos. Ele sente falta da simplicidade genial de compositores antigos, como Beto Sem Braço, que com poucas notas e palavras populares conseguiam descrever perfeitamente um enredo e tocar o coração da comunidade, sem a necessidade de vocabulário de dicionário.

Momentos Musicais, Gratidão e o Futuro

Durante todo o podcast, a resenha fluiu ao som do cavaquinho. Lucas cantou diversos sambas inesquecíveis que marcaram sua carreira e suas referências, passando por obras da Tom Maior, Dom Bosco, Mocidade Alegre, Pérola Negra, Rosas de Ouro e, claro, Grande Rio e Império Serrano.

Ele encerrou o episódio deixando um forte apelo às Ligas de Carnaval e às emissoras de TV: o reconhecimento do compositor. Segundo Lucas, é inadmissível que os autores das obras não sejam anunciados nos alto-falantes da avenida e sejam totalmente ignorados pelas entrevistas televisivas.

Com um sentimento de profunda gratidão pelas portas que se abriram em São Paulo, Lucas reafirmou seu pé no chão. Seu maior objetivo hoje não é voltar ao Rio, mas sim consolidar seu nome no carnaval paulistano e construir um legado pelo qual seus três filhos (Valentina, Nicolas e Gael) sintam orgulho no futuro. A conversa terminou de forma apoteótica, com ele cantando o seu samba-enredo vitorioso do Império Serrano: "A minha história já fala por mim / Sou resistência, orgulho sem fim".