Perícia independente? Polícia Científica em debate com Coronel Paganotto | Radar

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Apresentação do Coronel Paganotto e sua Trajetória na Segurança Pública

O podcast Radar da Segurança Pública recebeu o Coronel Paganotto, profissional com 35 anos de atuação na Polícia Militar de São Paulo, ex-secretário de segurança de Montemor e doutor em Ciências Policiais. Ele compartilhou sua história desde a infância humilde, filho de corretor de móveis e professora, até descobrir nas escolas militares uma forma de ganhar dinheiro para estudar.

Paganotto relatou que ingressou na Academia do Exército em Campinas, mas migrou para o Barro Branco após ser aprovado novamente. Formou-se em 1993 e iniciou sua carreira comandando policiamento no centro de São Paulo. Sua inspiração para entrar na ROTA veio de um episódio na infância, quando viu policiais da ROTA prenderem ladrões que haviam roubado a casa de sua tia.

Ele explicou que teve a sorte de ser transferido para o 7º Batalhão justamente quando 55 policiais da ROTA foram punidos e espalhados pelo centro. Entre eles estava o Coronel Telhada, de quem se tornou discípulo. Paganotto destacou que a tropa de ROTA é especial e não aceita qualquer comandante, pois os policiais são doutrinados para caçar criminosos.

O Caso do Sequestro em Guarulhos e a Descoberta do Corpo

Paganotto narrou um caso marcante ocorrido em Guarulhos, quando ainda era tenente. Ele encontrou um carro abandonado com a chave no contato, que havia sido usado no sequestro do dono do shopping e da universidade de Guarulhos. Ao levar o veículo à delegacia, o delegado de plantão inicialmente se recusou a registrar a ocorrência, alegando que a placa não acusava crime.

Após insistência, o delegado aceitou fazer uma apreensão de objeto, mas o carro acabou sendo liberado indevidamente para um ferro-velho, onde foi lavado e teve som instalado. Paganotto descobriu pelo jornal que o veículo pertencia ao sequestrado e decidiu investigar por conta própria.

Ele conseguiu o endereço da família da vítima e se apresentou pessoalmente. A delegada responsável pelo caso informou que havia encontrado o carro incendiado e um suspeito do semiaberto com as mãos sujas de combustível, mas não conseguia vinculá-lo juridicamente ao crime. Paganotto sugeriu verificar se o suspeito teria usado o carro para ir ao presídio, e ao checar a prancheta de controle da cadeia, confirmou que uma Fiorino apreendida estava no nome do detento.

Três dias depois, Paganotto foi chamado para uma reunião misteriosa em uma churrascaria na zona norte de São Paulo. Lá, encontrou juízes, promotores e desembargadores que lhe ofereceram recursos para encontrar o empresário sequestrado. Eles o instruíram a voltar ao presídio e pressionar um detento a revelar o paradeiro da vítima.

Após voltar à cadeia e mencionar o nome de um desembargador, Paganotto conseguiu a informação: o empresário estava morto, e o corpo estava próximo ao local onde o carro havia sido incendiado. Com apoio de um sargento que conhecia a região de Mairiporã, localizaram o corpo com 14 tiros. O caso foi desvendado e rendeu elogios a Paganotto, que passou a ser conhecido na PM por resolver crimes a partir de informações obtidas dentro dos presídios.

Operação de Infiltração nos Presídios

Em 2000, diante de uma onda de resgates de presos que resultavam em mortes de policiais militares, o comandante-geral convocou Paganotto para uma missão de infiltração. Ele deveria montar um grupo, entrar em presídios como se fosse um criminoso e se aproximar de quadrilhas que realizavam resgates com táticas militares.

Paganotto foi levado à Secretaria de Segurança Pública, onde foi recebido por dois secretários. O secretário penitenciário, Nagacha, autorizou o início da operação em Avaré. Ele montou uma equipe com sete policiais e se apresentou ao diretor do presídio, Tomazela, que inicialmente desconfiou da história de que seriam funcionários da SAP.

Após contato com o secretário, Tomazela concordou em colaborar, mas impôs uma condição: antes de entrar no presídio, a equipe passaria por um treinamento de três meses para aprender a linguagem e os códigos da facção. Eles estudaram o estatuto do PCC, aprenderam a ler as "pipas" (bilhetes passados entre presos) e entenderam o funcionamento do "xadrez", um sistema de comunicação por meio de gritos que simulavam um jogo.

Após o treinamento, a equipe passou a entrar no presídio desarmada, apresentando-se como funcionários da SAP. Eles conversavam com presos cooptados nos parlatórios, sempre alertas para a possibilidade de rebelião. Paganotto destacou que a confidencialidade era mínima e que, se descobertos, morreriam.

O trabalho consistia em usar presos colaboradores para apresentar a equipe a quadrilhas na rua. Eles participavam de negociações de tráfico e assaltos, e no momento da transação, a polícia realizava a abordagem. Paganotto revelou que as operações frequentemente terminavam em troca de tiros, pois os criminosos reagiam ao se verem cercados.

Ele enfatizou que a experiência lhe mostrou a necessidade de a PM melhorar a custódia de provas e o pensamento jurídico. Também criticou a resistência de delegados em aceitar o trabalho de inteligência realizado pela PM, chegando a enfrentar ameaças de prisão por abuso de autoridade.

Paganotto explicou que precisou de autorização judicial para realizar escuta ambiental, pois gravava conversas com criminosos para não se perder durante as ligações. Ele atuou em cinco presídios ao longo de dois anos, totalizando 43 ocorrências de grande porte.

Desafios Institucionais e a Relação entre as Polícias

Paganotto abordou a relação conflituosa entre as polícias Civil, Militar e Científica. Ele afirmou que existe uma disputa por reserva de poder que prejudica a segurança pública como um todo. Segundo ele, os delegados resistem em reconhecer a autoridade dos oficiais da PM, mesmo que estes tenham formação jurídica equivalente e atuem em inquéritos policiais militares.

Ele contou um caso recente em que um policial militar cometeu suicídio dentro do quartel durante um auto de prisão em flagrante por concussão. O Instituto de Criminalística se recusou a realizar a perícia, alegando que só atenderia mediante determinação de um delegado, mesmo sendo um crime militar. Paganotto precisou acionar o delegado seccional para conseguir o atendimento.

Ele defendeu a desvinculação total da Polícia Científica da Polícia Civil, como ocorre em outros estados, para que os peritos tenham autonomia e possam atender melhor tanto a PM quanto o Ministério Público. Paganotto também criticou a falta de compartilhamento de informações entre as instituições, afirmando que a PM, que está na rua 24 horas, muitas vezes não tem acesso a dados de inteligência que poderiam salvar vidas.

Ele propôs a criação de uma polícia única no futuro, que substituiria gradualmente as atuais, com uma chefia colegiada composta por um perito, um policial militar e um delegado. Segundo ele, o modelo atual está falido e não é replicado em nenhum outro país desenvolvido.

Propostas para um Possível Mandato Político

Paganotto, que é candidato a deputado estadual pelo PL, afirmou que sua principal bandeira é a valorização dos agentes de segurança pública. Ele criticou a compra excessiva de equipamentos e viaturas enquanto os profissionais passam necessidades e estão endividados.

Ele também defendeu uma revisão séria na educação, com foco no direcionamento de jovens para carreiras e objetivos. Citou o exemplo de alunos que não sabem o que querem ser quando crescer e não têm preparo para alcançar seus objetivos. Para ele, a educação deve ser o principal investimento, não a polícia.

Paganotto encerrou agradecendo o convite e colocou-se à disposição para continuar o debate em um segundo episódio.