Mulheres na Advocacia: Desafios, Conquistas e Equidade – com Patricia Vanzolini | 001

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O primeiro episódio do "Legalmente Cast", o podcast oficial da OAB Bauru, chegou com força total! Em comemoração ao mês da mulher, a apresentadora Dra. Júlia Herrera, acompanhada da co-host Dra. Amanda Jordão (presidente da Comissão das Mulheres Advogadas de Bauru), recebeu uma convidada de peso histórico: a Dra. Patricia Vanzolini. Doutora em Direito Penal, professora renomada e a primeira mulher a presidir a OAB São Paulo, Vanzolini compartilhou sua trajetória, os desafios enfrentados pelas mulheres no mercado de trabalho jurídico e as perspectivas para o futuro da profissão.

Se você perdeu essa conversa inspiradora e cheia de reflexões fundamentais sobre sororidade, equidade de gênero, maternidade e Direito Penal, preparamos este resumo completo com os principais destaques abordados no episódio.

A Escolha pelo Direito Penal: Uma Paixão Desafiadora

A conversa iniciou abordando a área de atuação da convidada e da co-host: o Direito Penal. Historicamente visto como um ambiente "bruto" e predominantemente masculino, o Direito Penal sempre foi a grande paixão de Patricia Vanzolini. Ela conta que seu fascínio começou pelo interesse em histórias de investigação (o famoso True Crime e autoras como Agatha Christie) e evoluiu na faculdade para um profundo entendimento social da área.

Vanzolini traça um paralelo interessante entre o Direito Penal e o Direito do Trabalho: ambos lidam com o lado mais fraco da balança. No Direito Penal, o réu está em constante oposição ao peso esmagador do Estado e do Ministério Público.

A Lenda Urbana do "Direito Penal não é para Mulheres"
A Dra. Patricia e a Dra. Amanda compartilharam relatos de como a sociedade, e até os próprios colegas de profissão, tentam desestimular as mulheres a seguirem a carreira criminalista. Amanda lembrou de um episódio no início de sua carreira onde um advogado a aconselhou a desistir da área, alegando que ela "não aguentaria dois anos" lidando com clientes difíceis. Patricia também relembrou uma aluna que saiu chorando de uma aula após um professor dizer que o Direito Penal "não era área para mulher" e mandá-la para o Direito de Família.

Apesar dos preconceitos, Vanzolini desmistifica a rotina da advocacia criminal. Ela lembra que nem todo crime é "de sangue" ou envolve organizações criminosas de alta periculosidade; há uma vasta atuação em crimes econômicos, tributários e licitatórios. Além disso, o trabalho da mulher criminalista é técnico, envolve fóruns, gabinetes, despachos e audiências — espaços onde a inteligência e a competência técnica feminina brilham intensamente.

Violência de Gênero no Exercício da Profissão

Um dos pontos mais sensíveis e urgentes do podcast foi a discussão sobre a violência de gênero no dia a dia jurídico. Embora as mulheres já representem 51% da advocacia em São Paulo (e 75% na jovem advocacia, com menos de 5 anos de carteira), as dificuldades persistem.

A Dra. Patricia citou uma pesquisa da OAB chamada "Lawfare de Gênero", que revelou dados alarmantes:

  • As advogadas que mais sofrem violência profissional são as criminalistas e as civilistas que atuam em Varas de Família.
  • A maior parte das violências (verbais, psicológicas e morais) não vem dos clientes, mas de juízes, promotores e, principalmente, de advogados homens da parte contrária.
  • As ofensas às mulheres são sempre ligadas ao gênero. Enquanto um homem é criticado por sua técnica, a advogada mulher é frequentemente tachada de "louca", "histérica", ou tem seu comportamento atribuído à "TPM" ou "menopausa".

O Julgamento da Sociedade e a Reserva de Mercado

Outra forma brutal de violência apontada no podcast é a régua moral desigual aplicada às mulheres. Quando grandes advogados homens (como os defensores nos casos Nardoni ou Suzane von Richthofen) assumem causas polêmicas, são aplaudidos por seu profissionalismo e sucesso financeiro. No entanto, quando uma mulher criminalista assume a defesa de um cliente "impopular", ela é massacrada, inclusive por outras mulheres, sob o argumento de que estaria traindo a causa feminina.

Para Patricia, isso tem um nome claro: Reserva de Mercado. O discurso que proíbe mulheres de pegarem grandes causas serve apenas para garantir que o dinheiro, os holofotes e os casos milionários continuem nas mãos dos homens, relegando às mulheres apenas causas pro bono ou consideradas "puras".

Maternidade, Culpa e a Realidade da Liderança

A Dra. Júlia, que está gestante, trouxe à tona os medos e as pressões da maternidade na advocacia autônoma. O mundo cobra da mulher profissional que ela "tire o pé do acelerador" ao se tornar mãe, um fardo que raramente é imposto aos homens.

A Dra. Patricia Vanzolini, que assumiu a presidência da maior OAB do Brasil tendo uma filha de 2 anos (que teve aos 47 anos de idade) e outra adolescente de 16, deu uma lição de realismo: "Nós temos que nos libertar do mito da perfeição e da culpa".

Ela foi honesta ao dizer que não foi uma mãe "perfeita" que buscou as filhas todos os dias na escola durante o seu mandato, pois estava viajando pelo Estado em prol da advocacia. A diferença estrutural é que os homens que trabalham 14 horas por dia e ficam longe da família são vistos como "excelentes provedores" e não carregam a culpa social. A mulher, ao fazer a mesma escolha em prol de sua ambição profissional e propósito, é julgada como fracassada no papel materno.

Para amparar legalmente as mulheres, Patricia destacou a importância da Lei Júlia Matos (criada pela atual Ministra do STJ, Daniela Teixeira), que alterou o Estatuto da OAB para garantir direitos cruciais como preferência em sustentações orais e suspensão de prazos para advogadas gestantes e lactantes.

A OAB e as Ações pela Equidade

A gestão de Vanzolini foi marcada por um esforço genuíno de inclusão e representatividade real. Não basta colocar mulheres em cargos para preencher cotas; é preciso ter mulheres comprometidas com a pauta feminina (afinal, como lembrado no programa, existem mulheres machistas). Da mesma forma, ela enalteceu o atual presidente da OAB-SP, Leonardo Sica, que mesmo sendo homem, tem um compromisso profundo com a causa, tendo apoiado, por exemplo, o plantão 24 horas de orientação jurídica para mulheres durante o Carnaval, encabeçado pela Comissão da Mulher Advogada.

Sobre a desigualdade salarial que infelizmente ainda assombra os escritórios de advocacia, Vanzolini lembrou a criação do Selo OAB Promove Mulheres, que premia e reconhece escritórios (de todos os tamanhos) que possuem políticas claras e reais de promoção feminina, retenção de talentos pós-maternidade e equidade de salários.

Uma tendência muito positiva mencionada pela ex-presidente é o surgimento de inúmeros escritórios formados exclusivamente por mulheres. Cansadas de bater no "teto de vidro" de bancas tradicionais onde nunca virariam sócias, jovens e brilhantes advogadas estão unindo forças e criando seus próprios espaços de poder.

Conselhos de Ouro para a Mulher Advogada

Caminhando para o fim da entrevista, Vanzolini deixou conselhos poderosos e diretos para as jovens advogadas:

  • Vocês não sabem o quão boas vocês são: As mulheres costumam ser as que pesquisam, escrevem a tese e carregam o trabalho duro, mas na hora da sustentação oral, recuam por insegurança (a famosa Síndrome da Impostora). Enquanto isso, homens frequentemente vão para a linha de frente sem o mesmo preparo, apenas blindados pela autoconfiança de que "são bons".
  • Seja a sua melhor amiga: O diálogo interno da mulher costuma ser seu pior carrasco. Pare de se autossabotar. Se uma melhor amiga olhasse para você, ela enalteceria sua força e competência. Aproprie-se dessa voz.
  • Não recue diante da pancada: A dor do julgamento social é temporária, mas a dor da desistência e de abandonar a própria vocação é eterna. Enfrente o medo, assuma causas grandes e ambicione o sucesso financeiro e profissional sem culpa.
  • Apoie-se em outras mulheres: A ideia de que mulheres são invejosas ou desunidas é uma construção do patriarcado para enfraquecê-las. A sororidade é a maior arma feminina. Vanzolini citou o caso de uma jovem criminalista que, abandonada por um colega mais velho às vésperas de um Júri difícil, uniu-se a duas advogadas amigas e, juntas, viraram a noite estudando e venceram o caso de forma brilhante.

Projetos Futuros: Conselho Federal e a Luta por Eleições Diretas

Atualmente no cargo de Conselheira Federal da OAB por São Paulo, Patricia Vanzolini levou pautas estruturais para Brasília. Entre as suas maiores lutas estão a exigência de paridade de gênero nas Listas Quíntuplas (para os Tribunais) e a grande batalha pela Eleição Direta no Conselho Federal da OAB.

Ela explicou que, hoje, o presidente nacional da OAB é eleito de forma indireta e quase sempre por "chapa única", por meio de articulações políticas fechadas, distanciando o Conselho da base da advocacia. A luta por eleições diretas visa democratizar a instituição, permitir o debate de propostas e fazer com que a cúpula da OAB preste contas reais aos mais de 1,4 milhão de advogados do Brasil.

Conclusão

O primeiro episódio do Legalmente Cast foi um verdadeiro marco de inspiração. A presença da Dra. Patricia Vanzolini não apenas iluminou a rica e desafiadora realidade do Direito Penal, mas entregou um manual de empoderamento, resistência e coragem para todas as advogadas. Como a própria convidada destacou ao final: a maior vitória é ver mulheres tirando os sonhos do papel e realizando projetos incríveis. A advocacia do futuro é plural, inclusiva e, indiscutivelmente, feminina.

Acompanhe as redes sociais:
OAB Bauru: @oabbauru / Legalmente Cast
Dra. Patricia Vanzolini: @patriciavanzolini (Instagram e TikTok) | Canal no YouTube: Alguma Dúvida?