As Origens: Como a Comunidade Linux Tips Transformou Vidas
No episódio final da primeira temporada do Mesa Cast, Jeferson recebeu Natalia Granato e Rarik (Estudante DevOps), dois profissionais que tiveram suas carreiras transformadas pela comunidade Linux Tips. Granato compartilhou sua jornada: começou no projeto Wakanda Streams (coletivo de streamers negros na Twitch), onde conheceu Fernanda (embaixadora da Linux Tips). Camila, a "Punk do DevOps", fez curadoria da Programaria e encontrou Granato através do site tecpreta.com.br, onde ela escrevia dicas de segurança para usuários comuns. Sua primeira palestra foi sobre software livre, usando OBS Studio. A partir daí, ela devorou todos os conteúdos da Linux Tips, participou do projeto Bunto (3 cursos, 3 mil pessoas: Docker, Kubernetes e ISO), e apesar de não ter concluído no prazo por depressão, o suporte da Linux Tips prorrogou o acesso. Hoje, Granato trabalha na Magalu Cloud como DevOps Pleno.
Rarik contou que era eletrotécnico e consumia os vídeos de notícias de tecnologia da Linux Tips (as lives de quinta-feira). Identificou-se com Jeferson por ele também vir da quebrada. O divisor de águas foi o treinamento Linux Essentials gratuito, que deu a base para seu primeiro emprego em tecnologia. Ele veio de uma situação de extrema pobreza em Recife, com biqueira na esquina de casa. Sua mãe (catadora de caranguejo, mesmo tendo alergia a frutos do mar) e seu pai (estivador) nunca desistiram – hoje, com mais de 50 anos, sua mãe está no 7º período de Direito (sonha ser juíza) e seu pai cursa Odontologia. Rarik resumiu: "nunca é tarde para correr atrás dos seus sonhos". Ele também agradeceu a mentoria de Granato e Jeferson, que o ajudaram a alcançar um salário de cinco dígitos em seis meses.
Comunidade Como Motor de Transformação: Networking, Visibilidade e Oportunidades
Todos os participantes enfatizaram que a comunidade é o que faz a Linux Tips acontecer. Rarik conseguiu sua primeira vaga de tecnologia no grupo do Telegram da Linux Tips. Granato conseguiu sua vaga na Magalu Cloud através do networking no DevOps Days São Paulo: viu um stand da Magalu, conversou com o pessoal, e depois no grupo do Telegram do evento, Erivaldo (que estava no stand) encaminhou o currículo dela – ela foi chamada para entrevista e passou. A mensagem foi clara: "sozinho você não vai mais longe; com a comunidade você vai muito mais longe".
Granato e Rarik também atuam como mentores. Rarik contou que um profissional sênior, que já ganhava bem (10-15k), pediu conselhos a ele (que na época ainda era motoboy e estudava) sobre qual caminho seguir. A resposta de Rarik foi mostrar empatia: "Eu tiro energia da minha barriga – se eu não rodar de moto, minha geladeira não tem comida semana que vem". Ele incentivou o profissional a não desistir, e a troca foi produtiva. Jeferson concluiu que quanto mais conteúdo gratuito você faz, mais dinheiro ganha – um princípio que parece contraditório mas se prova verdadeiro na prática, desde que haja propósito.
Superando Barreiras: Classe Social, Raça e o Preconceito no Mercado de Tecnologia
Os três participantes vieram de origens humildes. Granato e Rarik são de quebrada (periferia), e Jeferson também. Rarik descreveu a realidade: acordar às 4 da manhã, pegar busão lotado, chegar em casa às 20h, e ainda encontrar forças para estudar. Ele criticou a meritocracia – "não existe" – e explicou que a sorte e estar preparado quando a oportunidade surge são fatores muito mais relevantes. Rarik também mencionou que a maioria dos moleques da sua rua foi morta pela polícia ou pelo tráfico, e que ele é uma exceção da exceção. Granato complementou: "para eu abrir minha boca numa reunião, preciso estudar muito mais, me esforçar muito mais para ser escutada" – referindo-se ao racismo e machismo estruturais.
Jeferson acrescentou que a pirataria de cursos o ajudou a aprender no início, e que não se incomoda com quem pirateia seus cursos – se incomoda com quem vende o conteúdo pirateado. Granato defendeu as vagas afirmativas como necessárias, criticou empresas que acabaram com setores de diversidade (chamando esses capitalistas de "capitalistas burros" por perderem talentos qualificados), e lembrou que 98% da população brasileira ganha menos de R$ 5.000. Ela também mencionou que processos seletivos afirmativos são extremamente disputados e têm profissionais altamente qualificados.
Metodologia de Estudo: Aprendizado Ativo e Consistência
Granato compartilhou sua técnica de estudo: ela é multidisciplinar – precisa ver, ouvir, escrever, experimentar e conversar sobre o que está aprendendo. Ela lembra do conselho de Gomex: "comece a escrever sobre o que você não sabe". No estágio, ela ficava de olho no projeto do colega ao lado (Terraform, Argo CD) e enchia o sênior de perguntas: "Você pode me explicar?", "Não entendi, pode repetir?". Essa curiosidade e cara de pau aceleraram seu aprendizado.
Jeferson reforçou a técnica de "meter o louco" – acreditar em si mesmo, ter confiança. Mas alertou para a diferença entre confiança e arrogância: o "idiota motivado" é uma praga. A dica para quem está começando: aplique para vagas mesmo que não preencha todos os requisitos. Homens normalmente aplicam se cumprem 2 de 10 requisitos; mulheres e pessoas não-binárias hesitam se falta um único item. Rarik complementou: "deixe o recrutador dizer não – sua boca não cai se você falar não". Granato também incentivou: "com medo, vá mesmo assim".
Sofrimento e Frustração Como Parte do Aprendizado
Jeferson afirmou que, em algum momento, vai doer – você vai sentir dor quase física de não conseguir avançar. A solução não é desistir, mas reduzir a carga horária de estudo (ex: estudar 2-3 horas em vez de 10) e usar técnicas como Pomodoro. O importante é estudar de verdade, usando terminal, montando casos reais. Exemplo: instalar Docker simulando um pedido do chefe ("meu chefe pediu para configurar Docker com imagem X, quais os requisitos?") – isso simula o mundo real e fixa o aprendizado.
Granato enfatizou a importância de testar em diferentes ambientes (sistema operacional, cloud, local) para entender como cada ferramenta se comporta. Ela também mencionou que um mês não é tempo suficiente para dominar nenhuma ferramenta – então não troque de tecnologia a cada 30 dias. Rarik concluiu que conhecimento é a única coisa que ninguém tira de você, e que "Conhecimento liberta".
Clube do Vinil, Música e Identidade Cultural
Granato é mineira mas está em São Paulo. Ela comprou cinco discos de vinil na Discomania (rua Augusta): Gal Costa (Fatal), Morais Moreira, Raul Seixas (raro com Novos Baianos), Bezerra da Silva, e um quinto que esqueceu. Ela assina o clube de vinil da Universal e também o da Três Selos (recomendado por uma amiga BFF). Rarik, que é de Paulista (Pernambuco), cresceu escutando vinil de Zé Ramalho, Bezerra da Silva, e rock (The Clash, Pink Floyd, Ramones, Sex Pistols, Dead Kennedys, hardcore nacional como Ratos de Porão, Cólera e Garotos Podres). Ele citou o movimento cultural em Recife: coco de roda, ciranda, Lia de Itamaracá, Maracatu (especialmente o maracatu rural de baque solto), e cavalo-marinho. Granato contou a história do movimento "Praia da Estação" em Belo Horizonte (2016), que nasceu como protesto contra a privatização das praças – o pessoal levava piscina de plástico, biquíni, e depois alugava caminhão-pipa com vaquinha. Dali surgiu uma cena cultural forte (rap, forró, reggae, skate, circo, duelo de MCs) no Viaduto Santa Tereza, com artistas como Djonga, Clara Lima, Sara Guedes, e o coletivo DV Trib.
Política, Sindicalismo e Consciência de Classe
O episódio terminou com uma discussão política franca. Granato é do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado), ex-dirigente do PSOL em Minas Gerais, bolsista de história na PUC, ocupou a universidade (primeira universidade privada ocupada no Brasil, contra a PEC 55), foi coordenadora geral da ocupação, participou de greves gerais contra reforma da previdência e trabalhista, foi candidata, e viajou à Argentina em 2018 na primeira votação pela legalização do aborto. Rarik foi articulador político em uma comunidade em Recife (Casa de Passagem, depois no bairro João de Barros) que oferecia cursos gratuitos de estamparia, financiados por incentivos fiscais da UNESCO e ONU. Ele também participou do Sindicato dos Metalúrgicos e elogiou o Sindicato Marreta (construção civil) por ser atuante.
Jeferson criticou o SindPD (sindicato dos programadores de São Paulo) por promover eventos com churrasco, sertanejo e sorteio de iPhone, em vez de lutar por melhores condições, reajustes salariais e contra layoffs. Granato explicou que empresas criam CNPJs paralelos para evitar enquadrar TI nas categorias com sindicatos fortes (ex: bancários). Todos concordaram que a organização coletiva é essencial – sindicatos, partidos, movimentos sociais – e que o trabalhador de tecnologia não pode se iludir com privilégios individuais. A frase de encerramento de Jeferson: "aqui a gente é do lado do trabalhador de tecnologia".