Memória de Lutas e a história de Paulo Freire no Nordeste #05 ALFA-EJA Transforma Brasil

Início \ Produções \ Memória de Lutas e a história de Paulo Freire no Nordeste #05 ALFA-EJA Transforma Brasil

Introdução: Memória, Luta e a História de Paulo Freire no Nordeste

O podcast Alfaeja Transforma Brasil, iniciativa do projeto Alfaeja Brasil em parceria com o Instituto Paulo Freire e a Petrobras, inicia um episódio dedicado a um tema fundamental: as memórias de luta e a história de Paulo Freire no Nordeste. O mediador Marcelo Fonseca, coordenador de EaD no projeto e historiador de formação, destaca que a memória histórica é um campo de disputa central na luta social brasileira. A forma como compreendemos o passado influencia diretamente a projeção do futuro. Para abordar essa questão, o episódio conta com duas convidadas especiais: a cineasta Catherine Murphy e Ângela Bizantunes, ambas envolvidas em frentes essenciais do projeto: o audiovisual e a criação do Centro de Referência da EJA (CREJA).

O Audiovisual Como Ferramenta de Resistência e Preservação da Memória

Catherine Murphy, cineasta premiada pelo filme "Lendo o Mundo" (que retrata a experiência de Angicos), e Ângela Bizantunes, que trabalha com o acervo do Instituto, discutem o papel do audiovisual na preservação da memória. Catherine destaca a potência única do audiovisual, que permite não apenas informar, mas fazer o espectador escutar a textura da voz e ver os olhos das pessoas, captando sutilezas emocionais que a palavra escrita, por si só, não alcança. Esta é uma forma coletiva de contar histórias, que parte das comunidades e dos movimentos sociais.

Ângela complementa, afirmando que no mundo contemporâneo, dominado por imagens que muitas vezes se esfacelam rapidamente (como stories e postagens efêmeras), o audiovisual crítico e duradouro se torna uma ferramenta pedagógica de extrema relevância. Ele pode ser usado de duas formas principais na EJA:

  • Como ferramenta de produção: incentivando os educandos a usar celulares para registrar suas próprias histórias, compreendendo a gramática da linguagem audiovisual e exercendo uma visão crítica para evitar a manipulação da informação.
  • Como recurso didático: através da exibição de documentários como "Lendo o Mundo", que retratam realidades vividas, permitindo que os alunos da EJA se sintam representados e convidados a acreditar em sua própria capacidade de aprender e transformar o mundo.

O Centro de Referência da EJA (CREJA) e o Acervo Paulo Freire

Ângela detalha a importância do Centro de Referência Paulo Freire, localizado no Instituto Paulo Freire. O acervo, reconhecido pelo programa Memória do Mundo da UNESCO em nível nacional e pela América Latina e Caribe (2017) como patrimônio documental da humanidade, contém as bibliotecas pré e pós-exílio de Paulo Freire, artigos, registros audiovisuais de palestras, objetos tridimensionais e até um exemplar do projetor utilizado na experiência de Angicos. Mais de 5.700 pessoas de todos os continentes já visitaram o local.

A partir deste acervo, surgem três vertentes do CREJA:

  • CREJA Paulo Freire: fundamentado no acervo do patrono, focado na educação de jovens e adultos.
  • CREJA IPF: baseado na memória dos 34 anos de projetos do Instituto Paulo Freire.
  • CREJA Alfaeja: uma iniciativa em construção que atua nos 15 municípios do projeto Alfaeja Brasil. Seu objetivo é valorizar, resgatar e dar visibilidade à memória da luta pela EJA nesses territórios, identificando histórias coletivas e individuais, depoimentos, pesquisas acadêmicas e práticas pedagógicas em comunidades originárias, quilombolas e ciganas, que muitas vezes são invisibilizadas pela perspectiva colonial dominante.

A Gênese do Filme "Lendo o Mundo": Uma Pesquisa Colaborativa no Acervo

Catherine Murphy revela que a jornada de pesquisa para o documentário "Lendo o Mundo" começou dentro do acervo do Instituto Paulo Freire, dias antes do início da pandemia de COVID-19. A equipe entrou com perguntas fundamentais: o que Paulo Freire estava realizando nos anos anteriores a escrever "Pedagogia do Oprimido" e "Educação como Prática de Liberdade"? A intenção era explorar o mundo do trabalho aplicado, indo além do enfoque acadêmico nas teorias e filosofias.

A pesquisa no acervo, em diálogo com outros documentários e pesquisas universitárias, levou a equipe a focar na experiência de Angicos (1963). Foram os depoimentos comovedores dos alunos originais freirianos (Seu Paulo, Dona Enid, Dona Francisca, Dona Luzia, Seu Manuel) que direcionaram o filme. A decisão foi centralizar as vozes desses ex-alunos, colocando a experiência de Angicos dentro do contexto sociopolítico do Nordeste, que na época reivindicava acesso à educação, cultura, voto, terra e cidadania real. O filme mostra como a alfabetização do avô Paulo Alves impactou toda a sua estrutura familiar, inspirando seu neto, João Victor, a se tornar educador e levar colegas de sala para conhecer a história do avô.

As Conexões Latino-Americanas e a Atualidade da Luta Contra o Analfabetismo

Marcelo Fonseca provoca uma reflexão sobre as duas obras de Catherine: "Maestra", sobre a campanha de alfabetização em Cuba (1961), e "Lendo o Mundo", sobre Angicos (1963). Ambos os filmes retratam momentos históricos em que a alfabetização era uma ferramenta central: em Cuba, para um estado revolucionário em reconstrução; no Brasil, uma experiência que se tornou incômoda a ponto de ser atacada pela ditadura militar que se instalou logo após.

Catherine responde que, embora não haja uma relação direta documentada, existem "fios condutores" entre as experiências. Algumas pessoas ligadas ao Movimento de Cultura Popular (MCP) no Recife tinham conhecimento da campanha cubana. O que fica claro é que, em toda a América Latina, naquele momento histórico, movimentos camponeses, estudantis e a Igreja Católica começaram a desafiar as estruturas coloniais excludentes, sendo a educação uma de suas colunas vertebrais. Catherine ressalta que, em sua jornada de 15 anos documentando experiências de educação emancipatória (incluindo um filme sobre Septima Clark, nos EUA), todos os caminhos passam por Paulo Freire. Perguntas sobre a influência de Freire em Cuba ou sobre Septima Clark como "o Paulo Freire dos EUA" surgem continuamente, confirmando sua relevância global. O analfabetismo de 70% no Rio Grande do Norte à época contrasta com as barreiras atuais, mostrando que a luta pelo direito à educação segue inconclusa.

O CREJA e o Audiovisual como Ação de Defesa do Direito à EJA e ao Futuro

Ângela argumenta que, num contexto onde a memória é constantemente apagada (citando filmes premiados que resgatam momentos históricos que se tenta esquecer), iniciativas como o CREJA e o cinema documental são atos de resistência. Conhecer a memória evita a repetição de tragédias e permite aperfeiçoar conquistas. O CREJA Alfaeja tem o papel de sistematizar, registrar e disponibilizar essa vida vivida e invisibilizada, seja através de oficinas de leitura com a história de Carolina de Jesus ou do resgate da luta dos fóruns de EJA.

Catherine conclui que as palavras dos ex-alunos de Angicos, registradas em seu filme, nos convocam a continuar esse legado no mundo de hoje, que ainda luta contra o analfabetismo e as inúmeras barreiras à educação. Ângela reforça o convite para que os 15 municípios do Alfaeja Brasil contribuam com o CREJA, enviando registros, depoimentos e pesquisas sobre a EJA local, e para que todos assistam a "Lendo o Mundo", um convite à reinvenção e à esperança, reafirmando que disputar a memória é disputar o futuro.