O Podcast Alfaeja Transforma Brasil: Uma Jornada pela Educação Libertadora
O Alfaeja Transforma Brasil é um podcast freiriano que, ao longo de sua primeira temporada, consolidou-se como um espaço fundamental para o debate sobre educação popular, transformação social e o legado de Paulo Freire. Em seis episódios, a iniciativa do Instituto Paulo Freire, em parceria com a Petrobras, reuniu alguns dos nomes mais importantes da educação brasileira para discutir a Educação de Jovens e Adultos (EJA) e os caminhos de uma educação que liberta. Esta retrospectiva relembra os momentos mais marcantes dessa jornada, que parte da raiz do pensamento freiriano e se expande para temas como trabalho, cultura, direitos humanos, memória e a vida em plenitude.
Episódio 1: A Raiz da EJA e o Legado Vivo de Paulo Freire
Tudo começa pela raiz. A raiz da EJA no Brasil tem um nome: Paulo Freire. No primeiro episódio, a conversa destacou como todos os projetos de Paulo Freire estavam ligados à EJA. Um exemplo citado é a primeira campanha de alfabetização de adultos em Diadema, em 1982, quando Freire já estava no Brasil. A obra de Paulo Freire é descrita não como inacabada, mas como aberta ao futuro, e o projeto Alfaeja é uma expressão ousada dessa abertura, buscando transformar o mundo e superar a injustiça social no país.
Um ponto central discutido foi o impacto da leitura do mundo na autoestima dos educandos da EJA. Adultos e idosos chegam à sala de aula com a autoestima abalada pela exclusão social e por falas que os rotulam como ignorantes. Quando o educador cria condições para que eles falem sobre seus saberes (o pescador que sabe pescar, a costureira que sabe costurar, o agricultor que sabe plantar), ocorre uma transformação. Perceber-se como alguém que sabe algo é um ato de humanização do processo educativo. A alfabetização, na perspectiva freiriana, não se limita às letras, mas abrange todas as dimensões da vida: cantar, dançar, cozinhar e, principalmente, aprender com a diferença e com o outro.
Episódio 2: O Trabalho, a Liberdade do Professor e a Política Pública no Território
Se a EJA nasce do encontro com a realidade, ela também nasce do mundo do trabalho. O segundo episódio tratou da indissociabilidade entre a EJA e a vida laboral dos educandos. Um dos convidados argumentou que a EJA nunca se afastou do mundo do trabalho, mas que houve uma diferença na compreensão do que é a profissionalização. Desde o Método Paulo Freire, a discussão sobre o trabalho é central, pois as palavras geradoras apontam para o cotidiano, do qual o trabalho é parte inalienável.
Um tema de destaque foi a necessidade de dar liberdade ao professor. A escola precisa permitir que educadores criativos e fantásticos, que existem em todo o país, possam inovar. A política pública, portanto, ganha vida no território, no município, onde as pessoas vivem. A pauta da educação deve ir além da relação econômica entre empresa e trabalhador, abrangendo saúde, saneamento, lazer e todos os direitos que fazem parte da cidadania plena. É na vida real, no município, que a Constituição Federal deve se concretizar.
Episódio 3: Culturas Plurais, Saberes Populares e a Valorização da Pessoa
Não se pode falar de educação sem falar de cultura, mas cultura no plural: culturas. O terceiro episódio mergulhou nos saberes populares e na centralidade da história de cada pessoa no processo educativo. Cultura foi definida como palavra plural que representa os diversos modos de vida, fruto de nossa natureza de seres de linguagem que criam histórias, contos, fábulas e arte. A importância da cultura e da arte na EJA reside no fato de que alguns modos de vida são mais valorizados que outros, e a educação tem o papel de reverter essa hierarquia.
Viver um território fértil, onde se é escutado e respeitado, é fundamental. O relato de um aluno que se sentiu à vontade para falar sobre um poema à sua maneira ilustra o potencial da educação que ouve. A valorização da identidade da pessoa, reconhecendo o que ela já traz consigo – o saber da experiência feito – é um pilar essencial. A integração entre os saberes vividos e os novos conhecimentos deve ser natural, colocando a história do indivíduo em primeiro lugar.
Episódio 4: Vidas Interditadas, Vidas Ameaçadas e a Negação do Direito à Vida
O quarto episódio tocou em uma ferida profunda da sociedade brasileira: a interdição de milhões de vidas. Quase 80 milhões de brasileiros não conseguem terminar o ensino médio, sendo, portanto, interditados de prosseguir nos estudos e de acessar o ensino superior. Esta é uma dívida histórica do país com jovens, adultos e idosos. Paulo Freire usava a palavra "interditado" para descrever a condição de quem não pode ultrapassar certas barreiras sociais, e essa interdição se refere não apenas à educação, mas à própria vida.
A conversa foi além, questionando se essas vidas são interditadas apenas no direito à educação ou em algo mais radical. A conclusão é que elas são interditadas como vidas, sendo a resistência à vida o primeiro e mais fundamental direito humano. A radicalidade das lutas dos jovens, adultos e idosos na EJA não pode ser compreendida sem considerar que suas resistências são pela interdicionalização da vida, ou seja, contra a negação do próprio direito de viver.
Episódio 5: Memória, Audiovisual e o Legado de Angicos
A história da EJA tem marcos que pulsam até hoje. O quinto episódio revisitou essa memória, focando na força do audiovisual e do centro de referência para preservar e propagar o legado freiriano. A conversa destacou a produção de dois documentários importantes: Maestra, sobre a campanha de alfabetização em Cuba (1961), e Lendo o Mundo, sobre a experiência de Angicos (1963). Ambas as experiências latino-americanas ocorreram em um período muito próximo e são exemplos de educação popular transformadora.
O processo de realização de "Lendo o Mundo" foi profundamente comovente, especialmente os depoimentos dos alunos originais freirianos. A decisão de centrar as vozes desses ex-alunos e situar a experiência de Angicos no contexto sociopolítico do Nordeste da época foi fundamental. O filme ajuda a compreender a importância da memória para dar continuidade ao legado de Paulo Freire. Além disso, o Centro de Referência Paulo Freire e o Centro de Referência da EJA, que sistematizam o acervo e as experiências do Instituto ao longo de seus 34 anos, são pilares para a manutenção e difusão desta história viva.
Episódio 6: Povos Indígenas, Vida em Plenitude e o Bem Viver
A primeira temporada se encerrou com um tema que conecta educação, cultura e todas as formas de relação: a vida em plenitude. O sexto episódio trouxe a perspectiva dos povos indígenas, que compartilham um histórico de opressão colonial e, ao mesmo tempo, ensinam a todos nós que outro mundo é possível, através da resistência e da "reesistência".
Os princípios do bem viver e da vida em plenitude vão além de conceitos teóricos; eles se manifestam nas práticas comunitárias de comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais. Plantar, cultivar alimento, construir casas e promover festas são atos que expressam a integralidade entre cada ser e o todo, e o todo em cada ser. Esta é uma lição fundamental para a EJA, que precisa se conectar a essas cosmovisões para construir uma educação verdadeiramente transformadora e respeitosa com as diversas formas de vida.
Conclusão: A Educação como Ato de Esperança e Transformação
A retrospectiva da primeira temporada do podcast Alfaeja Transforma Brasil revela uma certeza que atravessa todos os episódios: a educação é sempre um ato de esperança e de transformação. Seis episódios, dezenas de vozes e temas que vão da alfabetização à interculturalidade, passando pelo trabalho, pela memória e pelos direitos humanos, mostram o compromisso do projeto com a construção de uma educação que liberta. O convite final é para que o público acesse todos os episódios, disponíveis na playlist do canal, e continue participando desta jornada em busca de um Brasil mais justo e humano.