Origens e Paixão pelo Mercado Financeiro: De Summer Job a Analista de Investimentos
Marcos Saravalle é economista de formação e analista de investimentos, com uma trajetória que começou muito antes da faculdade. Desde o ensino médio, ele acompanhava o mercado de ações com paixão. Um momento decisivo foi um summer job (trabalho de verão) durante as férias do colégio, período em que o mercado financeiro brasileiro era completamente diferente – sem home broker, sem bancos digitais. Esse trabalho foi com um pai de um amigo, que era um dos sócios do BBA (hoje Itaú BBA). Foi ali que Marcos decidiu: "Quero fazer isso, quero ganhar dinheiro investindo em ações".
Marcos se identifica como um apaixonado por análise fundamentalista – o processo de avaliar empresas, entender seu valor intrínseco e decidir se vale a pena investir. Ele cita Warren Buffett como exemplo máximo de analista: um homem que passa 10 horas por dia lendo jornais, relatórios de bancos e corretores, demonstrativos financeiros e formulários de referência, sem computador nem telefone em sua sala. Esse prazer pela leitura e pela análise sempre esteve presente em sua carreira.
Início no Citibank, a Descoberta do Sell Side e a Busca pelo Propósito
Marcos iniciou sua carreira no Citibank, por volta dos 20 anos, em um programa de trainee. No entanto, acabou alocado na área operacional (middle office) da tesouraria – um trabalho de reconciliação e risco, que não exigia o pensamento analítico que ele amava. Ele brinca que era o único que chegava às 7h da manhã com o jornal Gazeta Mercantil já lido, enquanto as áreas operacionais não precisavam criticar a economia.
Percebendo que a carreira no banco, embora estável, não era o que ele queria, Marcos migrou para o mercado Sell Side, onde os analistas trabalham para bancos de investimento avaliando empresas e embasando ofertas de ações, dívidas e debêntures. Ele descreve o sell side como o departamento que alimenta tecnicamente as ofertas do BTG, Itaú, XP e outras grandes instituições. Essa transição foi fundamental para alinhar sua carreira à sua paixão: ser um analista de fato, e não um operacional.
A Importância da Credibilidade e da Confiança no Mercado Financeiro
Marcos enfatiza que, no mercado financeiro, a credibilidade é o ativo mais valioso. Ele usa uma analogia poderosa: um banco não vive de dar lucro ou prejuízo; ele vive de credibilidade. No momento em que perde a credibilidade, ele quebra. Marcos construiu sua credibilidade ao longo de 25 anos de carreira e afirma que pode perdê-la em 5, 10 ou 20 anos se fizer algo errado por muito tempo.
Ele diferencia influenciadores de profissionais: ter uma grande audiência não significa ser um bom profissional. A construção de autoridade leva tempo, décadas. Para Marcos, o mais importante é ser o mais respeitado e ter a maior credibilidade – o sucesso e a visibilidade são consequências. Quando um investidor lembra de quem tem credibilidade no mercado, ele quer ser lembrado como uma dessas referências.
Como Identificar Credibilidade: Indicação, Histórico e Certificações
Para quem está fora do mercado e deseja encontrar profissionais confiáveis, Marcos sugere três caminhos principais:
- Indicação: o melhor negócio do mundo, que existe há milhares de anos. Ser indicado por alguém de confiança (como um amigo ou parceiro de negócios) gera relacionamentos de longo prazo.
- Histórico e rastreabilidade: com a tecnologia atual, é possível rastrear por onde o profissional passou, com quem trabalhou e qual é sua rede de relacionamentos. Ligar para referências é uma prática recomendada.
- Certificações: o mercado financeiro possui certificações reguladas pelo Banco Central e outras entidades. Elas garantem que o profissional está habilitado para exercer determinada atividade. Marcos critica influenciadores que não possuem certificação para o que fazem e alerta que, em alguns casos, isso pode ser considerado exercício ilegal da profissão.
Ele reforça que o cliente é soberano – e não a corretora ou o banco. A tendência, inspirada na Europa e nos EUA, é colocar o cliente no centro, em vez do produto. Se um assessor não pode atender ao que o cliente precisa, ele deve indicar outro profissional, mesmo que isso signifique perder um cliente de R$ 100 milhões. A transparência e a honestidade constroem relações de confiança que podem durar gerações.
Educação Financeira, Bets e a Irracionalidade do Investidor Brasileiro
Marcos aborda a questão cultural do brasileiro: a ansiedade e o desejo de enriquecer rápido. Ele compara a irracionalidade: as pessoas pesquisam por três meses para comprar um carro ou uma geladeira, mas, na hora de investir, muitas vezes tomam decisões precipitadas, sem verificar sequer se a empresa existe ou se a promessa de retorno é realista (como 5% ao mês, que é matematicamente insustentável em qualquer país do mundo).
Ele compartilha uma história de sua sogra, que quase caiu em um golpe de alto rendimento. Ela foi salva por um intervalo de datas – na semana seguinte, a empresa sumiu com o dinheiro de todos os investidores. Marcos atribui esse comportamento à falta de educação financeira e à influência de conteúdos de redes sociais. Ele sugere que os investidores usem a Inteligência Artificial a seu favor: pesquisem a empresa, verifiquem reclamações, chequem certificações. A IA pode ajudar a isolar a irracionalidade e a evitar decisões impulsivas.
Em relação às bets (apostas esportivas), Marcos alerta que elas são matematicamente desenhadas para fazer o apostador perder dinheiro aos poucos. Ele tem sido chamado por empresas de RH para palestrar sobre o tema, pois muitos funcionários estão se endividando, perdendo produtividade e apresentando problemas psicológicos. Ele demonstra em palestras interativas que, com um simples jogo físico, já na segunda rodada a maioria das pessoas está devendo. A bet funciona como uma droga no cérebro, e o brasileiro é particularmente vulnerável por sua busca por riqueza fácil e imediata.
O Futuro da IA: Retorno Marginal e a Bolha Tecnológica
Marcos não acredita que estejamos em uma bolha no setor de tecnologia. As grandes empresas (as "sete magníficas" como Apple, Nvidia e Microsoft) estão expandindo receita, margem e lucro. Ele usa a frase: "Me diga para onde vai o lucro, que eu te digo para onde vai a ação". Enquanto as empresas continuarem crescendo, as ações tendem a subir.
Sua preocupação, no entanto, é com o retorno marginal do investimento. Quem investiu US$ 1 bilhão em uma empresa de IA há 5 anos pode ter tido um retorno de 10 vezes. Mas quem investe US$ 1 bilhão hoje provavelmente não terá o mesmo retorno. O retorno marginal é menor. A pergunta que ele faz é: os investidores estão preparados para retornos menores? Ele cita o exemplo da escassez de energia e espaço para data centers – há até discussões sobre colocar data centers no espaço, mas o retorno disso é, no mínimo, duvidoso.
Marcos cita como exemplo a SpaceX, que pode ser avaliada em trilhões de dólares, mas ainda não gera caixa. Ele prefere investir em empresas consolidadas como Microsoft e Apple, cujos modelos de negócio são previsíveis. Sua recomendação é: cuidado com modismos, mas, de forma geral, é otimista em relação ao mercado de tecnologia.
Onde Encontrar Marcos Saravalle e o Convite para o Próximo Episódio
Marcos pode ser encontrado em todas as redes sociais como @marcossaravalle (com dois "L"). Ele é comentarista do portal BMC News (bmcnews.com.br), uma TV focada 24 horas em business e negócios, com programa próprio. Ele também atua com consultoria de investimentos focada em gestão de patrimônio e, em breve, lançará fundos de investimento.
Ao final, Marcos agradece a oportunidade e convida Manuel para participar de seu programa, Negócios SA, completando o ciclo de entrevistas entre os dois.