Introdução: Da Paixão por Tecnologia à Revolução da Internet das Coisas
No episódio do podcast da Confraria Cast, Manuel Edésio recebe Luís Viola, um amigo e parceiro com uma trajetória única no mundo da tecnologia. Viola é um carioca que adora velejar e a natureza, mas que acabou se tornando uma referência em Internet das Coisas (IoT) no Brasil. A conversa explora sua jornada desde os primeiros contatos com computadores na infância, passando por uma carreira executiva de sucesso na Turner (um dos maiores grupos de mídia do mundo), até se tornar empreendedor e fundador da Enablers, uma empresa que desenvolve soluções completas de hardware e software. O episódio destaca lições valiosas sobre postura profissional, a importância do networking e a necessidade de engenheiros aprofundados para o avanço tecnológico do país.
Origens e Primeiros Passos: Do MSX à Carreira Executiva
Luís Viola começou sua jornada tecnológica aos 11 anos de idade, em meados de 1984/85, quando seu pai, técnico em eletrônica, comprou um computador e começou a ensiná-lo. Viola brinca que seu pai perdeu o computador e a Playboy, tamanho o entusiasmo do filho. Sua paixão pela tecnologia é tão grande quanto seu interesse por biologia, a ponto de cogitar cursar Biologia Marinha em Arraial do Cabo (RJ), mas o vestibular naquela instituição foi cancelado. Ele acabou cursando Processamento de Dados.
Seu primeiro dinheiro veio de forma criativa: vendendo fitas cassete com jogos piratas para o computador MSX. Ainda na adolescência, um amigo de seu pai (um médico) precisava de um sistema para imprimir receitas. Viola desenvolveu um pequeno sistema em Basic no MSX que cadastrava medicamentos e os imprimia. Esse foi seu primeiro contato com o desenvolvimento de software para negócios reais. Após estágio e uma passagem pela Marinha, ele se tornou sócio em uma empresa que desenvolvia software para hospitais, usando Clipper e, posteriormente, Delphi com Oracle (já em 1996).
A Virada para São Paulo: O Carioca que Gosta de Trabalhar
Em 2001, Viola recebeu uma proposta para vir para São Paulo trabalhar na Turner. Ele descreve sua saída do Rio de Janeiro como marcada pelo Rock in Rio. Viola explica para a audiência o que leva um carioca a se mudar para São Paulo: carioca que gosta de trabalhar acaba vindo para São Paulo. Ele observa que, no Rio de Janeiro, muitas pessoas não têm compromisso com horários e tarefas, enquanto o paulista é mais certinho e focado. O carioca, por sua vez, tem uma característica de ser mais desenrolado e flexível, o que combinado com a disciplina paulista pode gerar ótimos resultados. Viola exemplifica: no seu primeiro ano e meio em São Paulo, ele não ficou um único final de semana na cidade. Saía de carro às sextas-feiras às 17h30 para o Rio, voltava no domingo à tarde, repetindo o trajeto semanalmente.
Manuel complementa, contando que também veio do Rio para São Paulo e que, assim como Viola, aceitou condições desafiadoras (como trabalhar de segunda a segunda nos primeiros meses) porque estava disposto a vencer e construir uma carreira, indo além da recompensa financeira imediata.
Carreira na Turner: Três Lições e a Obsessão por Organização
Viola considera a Turner a melhor escola que já teve, onde ele se formou como executivo. Ele trabalhou em três escritórios da Turner no Brasil, cuidou do escritório no Chile e liderou projetos de disaster recovery, data centers na América Latina, e infraestrutura de satélite. Uma das principais lições que ele aprendeu e pratica é: você não precisa saber tudo, só precisa ter o telefone de quem sabe. Esta filosofia, que ele ensinou a Manuel, é um pilar do seu networking e gestão.
Viola também é conhecido por sua obsessão por organização. Quando entrou na Turner, o centro de processamento de dados (CPD) estava desorganizado. Ele mesmo arrumou todo o cabeamento e, ao mudar para um novo escritório, projetou um cabeamento estruturado que permitia ligar qualquer ponto a qualquer ponto dentro do data center sem fazer varal, com previsão de crescimento. O resultado impressionou seu chefe, que pediu que ele replicasse o modelo em toda a América Latina. Manuel relembra que, ao visitar o CPD da Turner, achou aquilo parecido com coisa de filme, com equipes dedicadas apenas a organizar os cabos.
Contratação de Fornecedores de Software: Feeling, Testes e Confiança
Quando perguntado sobre como grandes empresas devem contratar parceiros de software, Viola é prático: comece com pedaços pequenos, fracione, faça testes. Se você errar, erre pequeno. Evite contratar um fornecedor desconhecido para um projeto gigantesco de uma só vez. O feeling e a confiança são fundamentais, e é preferível contratar alguém conhecido ou referendado. Viola critica quem contrata no desespero, entregando tudo de uma vez sem avaliação prévia. Ele destaca que o tombo pode ser grande e que muitos fornecedores de software causam decepções.
Manuel reforça essa visão contando uma história em que, mesmo após ter saído da Borland (empresa onde trabalhavam juntos), Viola o procurou para resolver um problema em um projeto. Manuel se sentiu responsável pelo projeto e foi até a Borland pedir permissão para assumir o projeto e seu risco, movido pela confiança que Viola havia depositado nele. Viola complementa que o que falta hoje em dia é as pessoas se sentirem donas do que fazem, não necessariamente donas da empresa, mas responsáveis pelo processo e pela qualidade. Ele critica o discurso de “se sentir dono da empresa” quando se é funcionário, pois a recompensa financeira não é a mesma. O que vale é ter caráter, postura e posicionamento – coisas que não se ensinam, vêm da pessoa.
A Transição para o Empreendedorismo: Nascimento da Enablers
Viola conta que, ainda na Turner, voltou a estudar eletrônica e entrou em comunidades de entusiastas, como a Pic List (lista de e-mail do Yahoo sobre microcontroladores). Foi nesse grupo que conheceu pessoas talentosas que mais tarde o acompanhariam em projetos inovadores. Em 2010, Viola foi um dos primeiros no Brasil a trazer uma impressora 3D, ajudando a montar o equipamento com amigos. Essa experiência o conectou com a cultura maker e com a possibilidade de criar hardware localmente.
Em 2015/2016, ele percebeu o surgimento de tecnologias de rádio que permitiam transmitir dados a longas distâncias com baixíssimo consumo de energia, viabilizando o sensoriamento remoto por bateria. Ele viu uma rede chamada The Things Network, surgida na Holanda, que propunha uma rede colaborativa de IoT. Viola decidiu trazer esse conceito ao Brasil e, como não havia regulamentação, tornou-se um dos fundadores da Associação Brasileira de Internet das Coisas (ABINC), trabalhando junto à Anatel para criar as regras de certificação e uso comercial das frequências. Ele atuou na associação por 4 a 5 anos até que, posteriormente, foi procurado para fundar a Enablers.
A estratégia da Enablers foi diferenciada desde o início: ao invés de apenas vender hardware ou software separadamente, a empresa decidiu entregar a solução completa. Viola explica que criaram um “Lego de conceito”, com diferentes opções de rádio, tipos de energia (bateria de 10 anos, solar, recarregável) e entradas/saídas, mas tudo integrado em uma única placa de circuito. Eles desenvolveram um sistema operacional de baixo consumo e todo o hardware e software são Made in Brazil (exceto os chips, que são importados). Um exemplo do produto é um equipamento para medição remota de gás, que fica 10 anos em campo com a mesma bateria em uma caixa muito pequena.
Internet das Coisas e o Futuro: O Gap de Engenheiros no Brasil
Viola explica o conceito de Internet das Coisas (IoT): é fazer com que as coisas passem a falar. Através de sensores, é possível detectar deslocamento de terra (prevenindo desabamentos) ou medir consumo de água e gás remotamente. Os dados são transmitidos e a partir deles se toma decisões. Ele vê um grande gap de engenheiros no Brasil, especialmente engenheiros eletrônicos que entendam o funcionamento de baixo nível (sistemas operacionais, firmware). As pessoas estão operando em camadas muito altas de abstração, e faltam profissionais que saibam como as coisas funcionam por baixo. Viola compara com a China, que formou uma base massiva de engenharia e hoje produz tecnologia de ponta. Ele ressalta que o Brasil precisa recuperar essa capacidade de construir hardware e soluções completas, não apenas programar em alto nível.
O Poder do Relacionamento e a Confraria dos CEOs
Manuel pergunta sobre o papel do relacionamento na jornada de Viola. Viola é participante assíduo da Confraria dos CEOs (tendo até sua placa como guardião) e atribui muitas de suas conexões importantes a esse ambiente. Ele compartilha a famosa frase que ensinou a Manuel: “Você não precisa saber, só precisa ter o telefone de quem sabe”. Para Viola, a oportunidade está muitas vezes em uma conexão que não foi feita ou em uma visão diferente para um problema, que também se obtém através de conexões. Ele critica o isolamento das pessoas, especialmente das novas gerações, que vivem atrás das telas, não dão abraços, não aper tam mãos e perdem a capacidade de gerar relacionamentos profundos. Viola menciona que o consumo de vinho está caindo mundialmente porque as pessoas pararam de sentar à mesa por longos períodos, e o vinho é uma bebida que exige tempo e conversa.
A amizade entre Manuel e Viola é um exemplo prático: eles se conheceram pelo que representavam profissionalmente, mas permaneceram amigos pelo que são, compartilhando os mesmos valores. Viola finaliza dizendo que amigos de verdade contam-se nos dedos das duas mãos, e são aqueles a quem se pode olhar nos olhos e dizer “eu te amo como irmão”.
Visão de Futuro: IA, Hardware e os Próximos 10 Anos
Quando perguntado sobre os próximos 10 anos em tecnologia, Viola é realista: a infraestrutura ainda é um gargalo. Ele lembra que em 2016/2017 já falava sobre 5G, mas acreditava que só estaria disponível para uso comercial por volta de 2025 – e hoje ainda se convive com 4G, 3G e até GPRS. Ele ressalta que não adianta desenvolver aplicações de 5G sem infraestrutura. Sobre Inteligência Artificial (IA), Viola observa que a IA é uma ferramenta poderosa, mas tem limitações: os modelos atuais pegam o que a humanidade já criou, eles não criam nada novo do zero. Ele alerta que não se pode deixar a IA alimentar a própria IA, pois o sistema desanda. No entanto, ele vê um grande potencial de crescimento da IA nos próximos anos, especialmente com inovações como chips de processamento analógico que usam resistência variável e memória para processar matrizes com muito menos energia e mais velocidade do que os chips digitais atuais.
Viola conclui que a IA está forçando as empresas a finalmente mapearem seus processos, algo que sempre foi negligenciado. Assim como a pandemia acelerou a telemedicina e o trabalho remoto, a IA está acelerando a automação e a organização dos negócios. Ele deixa seu contato profissional: pode ser encontrado no LinkedIn (Luiz Viola) ou através da página da Enablers. Viola é low profile, não usa redes sociais como Instagram ou Facebook (diz que Facebook é “coisa de mãe”), e prefere assistir vídeos longos no YouTube sobre marcenaria (seu hobby) a consumir conteúdo imediato.
Recado Final e Agradecimentos
Manuel agradece a Viola por sua participação, destacando que ele é um irmãozão que fez em São Paulo. Viola retribui o carinho, dizendo que a verdadeira amizade é aquela que resiste a meses sem contato, mas quando se reencontra, parece que foi ontem. Ele reforça o valor das conexões verdadeiras e se despede da audiência, encerrando mais um episódio da Confraria Cast.