Liga Digital: Transformando Vidas com Educação e Tecnologia nas Comunidades

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Introdução: O Encontro do Propósito com a Oportunidade no Mundo Digital

Bem-vindos a mais um episódio do Analytikos Podcast. Hoje, recebemos duas convidadas que personificam a transformação através da educação e da oportunidade. Ediline Godói e Elenice Moura, a Elê, são fundadoras da Liga Digital, um projeto social que já formou mais de 8.000 alunos oriundos de comunidades periféricas. A conversa, mediada pelo nosso anfitrião Cezinha (idealizador do E-commerce House e embaixador da Liga), explora a jornada inspiradora dessas mulheres, o impacto do projeto, os desafios de colocar jovens no mercado digital, e como empresas e pessoas físicas podem apoiar essa causa através de mecanismos como incentivo fiscal e doações diretas.

A Origem da Liga Digital: De Empacotadora a Executiva Multinacional

A história da Liga Digital começa com a trajetória de superação de Ediline. Seus pais vieram de Minas Gerais para São Paulo com poucos recursos, e seu pai começou catando entulho nas ruas. Aos 14 anos, Ediline precisava trabalhar para ajudar em casa e conseguiu uma vaga como empacotadora no Supermercado Lopes (hoje apenas Lopes) em Guarulhos. Foi ali, durante três anos, que ela deixou um currículo "debaixo da porta de uma agência" e foi chamada para trabalhar no mundo offline do marketing.

A Sede de Conhecimento e a Descoberta do Digital

Com uma sede imensa de aprender, Ediline correu atrás para entender o que era Google (na época, o core do negócio) e como construir sites. Sem acesso a cursos formais, ela foi se especializando na prática. Passou por agências, assumiu a operação de e-commerce da Ultrafarma e, ao longo de 25 anos de carreira, construiu uma trajetória sólida. Ela conheceu Elê através de um amigo em comum, que conectou a ideia de Ediline (um projeto social para dar aulas a jovens) com a execução prática que Elê já vinha fazendo em comunidades. O nome "Liga" veio naturalmente, pois a parceria "deu liga".

O Tamanho do Problema e da Oportunidade: 300 Mil Vagas Não Preenchidas

Elê traz dados contundentes que justificam a existência da Liga Digital. O mercado de tecnologia e e-commerce tem um déficit estimado em mais de 300.000 vagas de emprego que não serão preenchidas por falta de profissionais qualificados. Simultaneamente, mais de 16% dos jovens brasileiros (a partir de 16 anos) não têm nenhuma perspectiva de emprego. A conclusão é clara: não investir no social é não investir no próprio negócio. A empresa não cresce sem capital humano formado.

Transformação Digital e Transformação Social: Uma Relação Indissociável

As fundadoras enfatizam que não existe transformação digital sem transformação social. A tecnologia por si só não resolve os problemas estruturais. É através do impacto social, do engajamento e da conexão entre os mundos digital e comunitário que se promove uma mudança real. A favela, segundo Elê, é potência: há sellers, logistas, artesãs e empreendedores com enorme criatividade, que precisam apenas de ponte e direcionamento.

A Estrutura da Liga Digital: Mais de 40 Professores e Eventos de Grande Porte

Atualmente, a Liga Digital conta com uma estrutura robusta e voluntária. São mais de 40 professores de mercado, todos profissionais atuantes e de alto calibre. Entre eles, um executivo de marketing da Warner (que tem o Batman como anfitrião) e outros grandes nomes do setor. Esses professores dão aulas gratuitas nas comunidades, mentoram os alunos e os acompanham em eventos.

Eventos como Extensão da Sala de Aula

A Liga Digital leva seus alunos para os maiores eventos do setor. Os números impressionam: 184 alunos no Vtex Day, mais de 100 alunos no E-commerce Brasil, e mais de 80 alunos na Flow Biz Conference. Antes de cada evento, Elê realiza um call preparatório, explicando a história do evento, os objetivos e como os alunos devem se comportar, abordar profissionais e buscar oportunidades. Essa preparação faz com que os jovens cheguem sem vergonha e prontos para se conectar.

Alunos que se Tornam Embaixadores: Histórias de Sucesso

O impacto da Liga Digital é medido não apenas em números, mas em histórias. Uma das mais emblemáticas é da Ágata, a primeira aluna do projeto. Recentemente, uma grande empresa do mercado digital procurou a Liga para apoiar o projeto. Durante a reunião, Elê perguntou como a empresa conheceu a Liga, e a resposta foi: "Sou aluna da Liga em Heliópolis. Tenho dois dias de empresa e já indiquei o projeto".

O Caso Gabriel e a Evolução para Liderança

Gabriel, um jovem que entrou na Liga com 16 anos, hoje é um profissional desenvolvido, atuando em cargo de gestão em uma grande empresa, apresentando cases em eventos e programando. Ele é um exemplo do ciclo completo: de aluno a profissional que se torna referência.

Contratação Orgânica em Eventos

Ediline relata um caso recente: um executivo da IESAK (grupo Quesac Cosméticos) que entrou para cuidar de marketplace participou do Vtex Day, conheceu a Ágata, pegou o currículo dela de forma espontânea. Em um processo seletivo totalmente isento, Ágata foi contratada, e outro jovem da Liga também estava participando. A contratação veio da força de vontade e da qualificação, não de indicação direta.

Programa de Jovem Aprendiz da Liga Digital: Mão de Obra Especializada com Custo Baixo

Um dos grandes lançamentos da Liga Digital é o programa de Jovem Aprendiz. Diferente do que acontece em muitas empresas, onde o jovem aprendiz é colocado em funções aleatórias sem desenvolvimento, os jovens da Liga chegam preparados. Eles já sabem disparar e-mail marketing (com parceria de uma grande plataforma), cadastrar produtos, subir e-commerce no ar, e entender de TikTok, Photoshop e marketplaces.

Convite para Empresas: Contratem Jovens Aprendizes da Liga

Empresas com a partir de quatro funcionários já são obrigadas por lei a ter jovens aprendizes, mas muitas não cumprem a legislação. A Liga Digital oferece uma solução: jovens que já entendem o jogo do mercado digital. O custo para a empresa é baixo (dentro da legislação) e o profissional chega jogando. As fundadoras fazem um apelo direto: contratem os alunos da Liga como jovens aprendizes ou estagiários, e observem a diferença.

Incentivo Fiscal: Como Direcionar Impostos para Apoiar a Liga Digital

Um dos pontos mais importantes e práticos do episódio é a explicação sobre incentivo fiscal. Empresas de lucro real, lucro presumido, e outros regimes (exceto Simples Nacional) podem direcionar até 10% do imposto devido para ONGs como a Liga Digital. Isso pode ser feito através de leis como a Lei Rouanet, Lei do Esporte, Lei da Criança e do Adolescente, Lei da Reciclagem, entre outras.

Como Funciona na Prática: Do Zero de Caixa

O processo é mais simples do que parece. A empresa faz uma transferência para a Liga Digital, que emite um recibo. Na hora de pagar o imposto, a empresa abate o valor direcionado. O dinheiro não sai do caixa da empresa – ele já estava provisionado para o imposto. A empresa apenas escolhe para onde vai um pedaço do que já pagaria ao governo. Além disso, existe vantagem fiscal: doar 1% pode gerar um abatimento de até 1,65%.

Transparência e Compliance

A Liga Digital conta com o apoio da Isuca Advocacia (presidida por um profissional conhecido do mercado) e da Olhar Social para garantir total transparência e compliance. No site da Liga, há um extrato detalhado mostrando exatamente onde cada recurso é aplicado: lanches, coletes, transporte, etc. As doações de incentivo fiscal podem ser feitas até 31 de dezembro do ano fiscal (o episódio foi gravado em novembro, próximo do prazo).

Outras Formas de Apoiar: Doações, Voluntariado e Equipamentos

Além do incentivo fiscal e da contratação de jovens, existem várias outras maneiras de apoiar a Liga Digital.

Doações Financeiras Diretas (PIX)

Pessoas físicas ou jurídicas podem fazer doações de qualquer valor via PIX para a chave querodoar@ligadigital.com. Um exemplo citado é uma empresa que doa R$ 200 por mês, recurso que ajuda a pagar ônibus e lanches para levar alunos a eventos. Até mesmo R$ 10 ajudam a comprar água para um aluno durante um evento.

Doação de Equipamentos e Tempo

A Liga aceita doações de computadores, celulares corporativos e outros equipamentos de tecnologia, que são repassados para as instituições parceiras nas comunidades. Voluntários também são bem-vindos: profissionais que podem dar aulas, mentorar alunos, ou atuar em áreas como controladoria financeira, comercial, administração. Pessoas físicas podem doar tempo, conhecimento, ou simplesmente indicar alunos da Liga para vagas em suas empresas.

O Sonho das Fundadoras: Um Espaço Físico e a Multiplicação de "Outras Elês"

Perguntadas sobre o sonho de longo prazo para a Liga Digital, as respostas são profundas e pessoais. O sonho de Ediline é ter uma instituição física diferente, que não apenas receba os jovens, mas que também sirva à comunidade. Um espaço onde os próprios alunos possam criar logos, desenvolver sites e e-commerces para empreendedores locais, funcionando como um laboratório de desenvolvimento comunitário patrocinado por marcas.

O sonho de Elê é mais simples e, ao mesmo tempo, gigantesco: formar outra Elê. Outra menina preta e periférica que saiu da favela, que não tinha o que comer, e que agora tem uma operação para gerir, sustenta a família e é reconhecida no mercado. Ela não quer ser milionária; quer que ninguém da sua família (filha, sobrinhos, mãe) passe fome. Ela quer que as empresas enxerguem que R$ 200 por mês (o custo de um almoço de executivo) pode formar um jovem, pagar um ônibus e criar uma nova história.

Conclusão: O Convite para Fazer Parte da Rede de Super-Heróis

A Liga Digital é um movimento que conecta pontas: jovens de comunidade que são potência (nativos digitais, inteligentes e preparados) com empresas que precisam de mão de obra qualificada e que desejam cumprir seu papel social. O apelo final das fundadoras é direto: não espere apenas o dinheiro do imposto; doe seu tempo, doe R$ 10, contrate um jovem, ou indique a causa para o CFO da sua empresa. O site ligadigital.com (PIX querodoar@ligadigital.com) e os Instagrams @edilinegodoi, @elenissimoura e @ligadigital são os canais de contato. Como diz Elê: "Se tudo isso a gente fizer outra Elê, eu tô feliz. É um mel, é um remédio."