Jump Talk #29 - A tecnologia na indústria e o impacto da inovação

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No 29º episódio do Jump Talk, o podcast oficial da Jump focado em discutir a interseção entre mercado, tecnologia e inovação, os anfitriões Anderson e Gilberto receberam um convidado de altíssimo gabarito: Geraldo, atual Diretor de TI (CIO) da Ypê. Com uma carreira sólida de quase 30 anos dedicados à tecnologia, grande parte dela construída dentro da Indústria de Transformação, Geraldo compartilhou sua trajetória, os desafios enfrentados ao longo das décadas e as visões estratégicas que estão moldando o futuro de uma das maiores marcas de bens de consumo do Brasil.

Ao longo de um bate-papo profundo e enriquecedor, foram abordados temas desde a adoção de tecnologias emergentes como a Inteligência Artificial (IA) e o Metaverso, até a estruturação do impressionante Centro de Distribuição 4.0 da Ypê. Abaixo, confira o resumo detalhado dos principais insights e lições dessa conversa inspiradora.

Da Era sem Internet ao Mestrado em Inteligência Artificial

A jornada de Geraldo na tecnologia começou muito cedo, de forma quase não intencional. Aos 13 anos, ele iniciou sua vida profissional e, na década de 1990, ingressou em um Colégio Técnico de Processamento de Dados. A principal motivação? Ele tinha a certeza absoluta de que não queria passar a vida sendo office boy caminhando pelos cartórios do centro de São Paulo.

Nessa época, as empresas menores operavam de forma puramente artesanal, e a internet comercial sequer existia no Brasil. A grande virada de chave em sua percepção ocorreu ao observar como os sistemas gerenciais poderiam digitalizar o mundo físico, trazendo eficiência aos negócios. Curiosamente, no final de sua graduação em 1997, seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) foi sobre o "Futuro da Internet". Naquele momento, a previsão mais audaciosa que ele conseguia vislumbrar era a digitalização de jornais impressos – uma prova de como a velocidade da inovação tecnológica superou todas as expectativas humanas.

Logo após a internet, o segundo grande marco em sua carreira foi a introdução dos sistemas ERP (Enterprise Resource Planning), com empresas pioneiras como a Baan e, posteriormente, a consolidação mundial da SAP. Com uma veia acadêmica forte, Geraldo lecionou por 10 anos em cursos de graduação e pós-graduação, e recentemente concluiu um Mestrado em Inteligência Artificial pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), conciliando os estudos rigorosos com sua posição executiva, esposa, três filhos e cinco cachorros.

O Papel Estratégico da Tecnologia na Indústria de Transformação

Tendo passado por gigantes do setor (CPG - Consumer Packaged Goods e Indústria de Transformação) como Philips, Flextronics, Dori, Marilan e agora a Ypê, Geraldo é categórico ao afirmar: a tecnologia está ligada de forma umbilical à competitividade e sobrevivência das empresas.

No passado, as grandes barreiras para a aprovação de orçamentos de TI no board (conselho) das indústrias resumiam-se a duas frentes:

  • Resultados Financeiros: É o dilema do "ovo e da galinha". A empresa só investe em tecnologia se estiver dando lucro, ou ela precisa investir em tecnologia justamente para gerar lucro? Empresas em dificuldade financeira tendem a cortar a inovação primeiro.
  • Capacidade de Convencimento do CIO ("Show me the money"): O líder de TI precisa ter a habilidade política e comercial de provar ao conselho que a tecnologia não é um gasto, mas um investimento com retorno claro sobre o investimento (ROI).

Na Ypê, o cenário é de vanguarda. A tecnologia não é aplicada para "fazer fumaça" ou puro marketing. Toda e qualquer inovação aprovada precisa estar diretamente vinculada a um destes pilares inegociáveis: Governança, Meio Ambiente (Sustentabilidade), Social, Melhoria dos Produtos ou Melhoria da Experiência do Consumidor final. O objetivo primário é aumentar a qualidade e reduzir os custos, garantindo preços competitivos nas gôndolas dos supermercados.

O CD 4.0 da Ypê e a Revolução Autônoma

O nível de automação tecnológica alcançado pela Ypê é de cair o queixo, refletindo o conceito da Indústria 4.0 na prática. Geraldo destacou com orgulho o Centro de Distribuição (CD) localizado na sede da empresa, em Amparo (SP), considerado um dos mais tecnológicos de toda a América Latina.

Neste CD, a intervenção humana braçal e pesada foi praticamente extinta no carregamento e estocagem. O processo funciona assim:

  • O uso de Caminhões Autônomos que retiram os paletes da linha produtiva e os transportam para o Centro de Distribuição dentro de um ambiente controlado.
  • Esteiras 100% automatizadas, transelevadores e veículos guiados automaticamente (AGVs/Robôs) que estocam e, posteriormente, separam e levam as mercadorias até as docas de expedição conforme as ordens de faturamento.

Um ponto vital levantado por Geraldo é o impacto do Letramento de Dados e de Processos Básicos. Robôs de milhões de dólares não funcionam se uma premissa analógica básica for ignorada – por exemplo, se a madeira do palete estiver frouxa ou quebrada, o robô irá travar. Ou seja, a inovação disruptiva exige que os processos fundacionais físicos estejam perfeitos. E o que aconteceu com os funcionários que antes faziam o trabalho braçal de carregar paletes? Conforme a cultura da Ypê, a empresa "deixou de usar as mãos dessas pessoas para usar a cabeça", realocando esses profissionais para áreas de supervisão, controle e operação dos sistemas.

Inteligência Artificial: Da Nuvem às Gôndolas e ao Consumidor Final

A Inteligência Artificial (IA) já não é um plano para o futuro na Ypê; ela permeia toda a cadeia de valor. Geraldo dividiu a atuação da IA na companhia em várias frentes práticas:

1. Plano de Negócios Inteligente (Sell-in e Sell-out)

Não basta para a Ypê vender (Sell-in) seus sabões e detergentes para os supermercados e atacadistas; é crucial garantir que esses produtos saiam do estoque do varejista para a casa das famílias (Sell-out). Usando algoritmos complexos, a Ypê gera planos de negócio customizados para cada cliente (seja um gigantesco hipermercado ou uma loja de bairro), analisando os estoques compartilhados para não "empurrar" mercadorias encalhadas, mas sim realizar promoções cirúrgicas que garantam o giro rápido.

2. Auditoria de Gôndolas com Reconhecimento de Imagens

Antigamente, o promotor de vendas ia ao mercado com uma trena manual para medir o espaço ocupado (share of shelf) pelos produtos Ypê nas prateleiras. Hoje, o promotor tira uma foto da gôndula e o sistema de Visão Computacional (OCR / AI) identifica imediatamente as falhas, produtos faltantes e o posicionamento exato da concorrência, alertando sobre o que deve ser corrigido para atingir a conformidade visual perfeita (a "Loja Perfeita").

3. A Assistente Virtual Iara

Pensando no consumidor final e nas pessoas que estão aprendendo a viver sozinhas, a Ypê lançou a assistente virtual Iara. O consumidor pode entrar no site e fazer perguntas práticas, como "Iara, como eu lavo roupa branca encardida?", e ela fornecerá o passo a passo exato do uso das máquinas e dos produtos, atuando como um braço de educação e facilitadora do dia a dia.

Equilibrando a Inovação Disruptiva e a Gestão de Riscos

Um dos grandes dilemas de qualquer CIO é: como balancear o desejo de toda a empresa de usar o que há de mais novo (o "Hype" da IA e do Metaverso) com a segurança e a responsabilidade orçamentária?

A Ypê resolve isso com o planejamento "70 em 7" – a meta audaciosa de dobrar a receita operacional líquida e o EBITDA da empresa em 7 anos. Tudo o que a TI faz deve suportar esse objetivo. Para aprovar novas ferramentas, foi criado o Fórum de Inovação Tecnológica, que conta com a presença do CIO, diretores de estratégia, líderes de Gente & Cultura, o Head de Dados e o CISO (Chief Information Security Officer, o Diretor de Segurança da Informação).

Geraldo usou uma metáfora genial para explicar a importância da segurança cibernética: "Há duas formas de lavar os pratos: a primeira é molhando a cozinha inteira, a segunda é tomando cuidado. A terceira é não lavar os pratos. Na Ypê, nós lavamos os pratos, mas tomando muito cuidado." Ou seja, a inovação não é freada (não lavar os pratos), mas também não é liberada de forma irresponsável (molhar o chão). O CISO atua garantindo ambientes isolados (sandboxes) para testar provas de conceito antes de integrarem ao Core da companhia.

A Transformação da Pirâmide de TI: O Dado no Centro de Tudo

Historicamente, a TI operava sob um tripé: Processos, Pessoas e Sistemas. Geraldo enfatizou que, hoje, esse modelo evoluiu para um quadrado (ou um losango), onde o Dado passou a ocupar o núcleo de todas as decisões. Para garantir a assertividade, a Ypê está massificando a cultura Data-Driven (orientada a dados).

Para isso, não adianta apenas limpar o banco de dados e aplicar governança. É preciso realizar um letramento digital em todos os líderes da companhia. Quando um gerente solicita a geração de um novo dado ou dashboard, a TI aplica perguntas cruciais: "Para que serve este dado? Qual decisão você tomará baseada nele? Se o dado for X ou Y, qual será a sua ação?". Muitas vezes, ao não conseguir responder a essas perguntas, a própria área de negócios desiste da demanda, enxergando que a solicitação era puro capricho e não geraria valor analítico real.

O Futuro: Potencializando o Ser Humano, Não Substituindo-o

Encerrando o bate-papo com um olhar sobre o futuro e o mercado de trabalho, Geraldo manteve um tom altamente otimista em relação à Inteligência Artificial. Diferente do discurso apocalíptico da substituição de empregos, ele vê a IA como o "Cinto de Utilidades do Batman" – uma ferramenta poderosa para alavancar a criatividade humana.

Segundo ele, nunca as Ciências Humanas foram tão importantes quanto agora. Saber redigir um bom Prompt (comando para a IA) requer excelente capacidade de comunicação, empatia, compreensão de contexto e clareza semântica – características inerentemente humanas. A IA pode automatizar a coleta de dados e a geração de resumos, mas a resolução de problemas complexos e a criatividade estratégica continuarão sendo dominínios exclusivos do cérebro humano.

A mensagem final de Geraldo, destinada especialmente aos jovens e estagiários que buscam uma carreira na tecnologia hoje, foi um conselho afetuoso para si mesmo há 27 anos atrás (e um agradecimento à sua mãe): "Estude o dobro do que você estudou e escute os mais velhos o dobro do que você escutou". O aprendizado contínuo (Lifelong Learning) é a única vacina contra a obsolescência na era digital.