Histórias que escrevi na minha infância

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Introdução: Da Ouvinte de Histórias à Criadora de Mundos

Desde muito pequena, a apresentadora Júlia Calixto, do canal Página 31, sempre teve um amor profundo por histórias. Seja através de livros, filmes ou séries, o contato com narrativas sempre foi uma constante em sua vida. Este vídeo especial tem como proposta não apenas mostrar a origem de suas criações literárias, mas também se entrelaçar com um projeto antigo do canal chamado 'Lendo para os Pequenos', onde ela lia livros infantis. Como as histórias apresentadas foram escritas por ela até os 9 anos de idade, o conteúdo é ideal para crianças que gostam de ouvir histórias.

O Primeiro Caderno e o Papel da Mãe como Escriba

Tudo começou quando sua mãe, percebendo a criatividade da filha, sugeriu que registrassem aquelas invenções. O resultado foi um caderno intitulado 'Meu livro de histórias', onde Júlia ditava as tramas e sua mãe as escrevia, enquanto Júlia ficava responsável pelas ilustrações. As histórias datam de quando ela tinha entre 4 e 7 anos de idade.

História 1: A Visita das Amigas (18 de maio de 2013)

Com 4 anos de idade, Júlia criou a história de 'A visita das amigas', que apresenta as personagens Laranjinha e Douradinha. A trama gira em torno da amizade proibida entre as duas, cujas famílias não se gostavam. Laranjinha, então, inventa uma máquina para visitar a amiga sem que seus pais vissem, levando-lhe um cartão de aniversário, uma coroa dourada e um desenho. Na continuação, Douradinha também cria sua própria máquina para visitar Laranjinha, e no final, as famílias se reconciliam e se tornam amigas, com as duas meninas se tornando princesas. A história é escrita na letra da mãe, com a única contribuição gráfica de Júlia sendo seu nome assinado na parte inferior.

História 2: O Mundo Engraçado (16 de agosto de 2013)

Ainda com 4 anos, Júlia escreveu 'O mundo engraçado', uma fantasia criativa que subverte as leis da natureza. Neste mundo, o sol é azul e frio (congelando as coisas), a lua é verde e quente (aquecendo até o sol), o céu é amarelo, e as árvores possuem nomes e personalidades: a árvore do meio se chama Luísa, a árvore azul se chama Pensão, e a árvore preta se chama Avestruz. A história termina com uma transformação: o sol volta a ser amarelo e quente, a lua fica fria, e o mundo fica mais feliz com o nascimento de flores e pedras. A apresentadora se diverte especialmente com o nome 'Pensão' dado a uma árvore.

A Transição para a Escrita Própria e as Primeiras Letras

Com o tempo, Júlia começou a escrever suas próprias histórias, mesmo com uma letra que ela mesma descreve como 'horrível' e 'garrancho'. É nessa fase que surgem narrativas claramente inspiradas em sua vida pessoal.

História 3: A Menina que Gosta de Ler Histórias

Metaforicamente, esta história apresenta uma menina que adora ler. A sequência de leitura da personagem inclui: um livro sobre monstros, outro sobre 'a menina que gosta de ler histórias', depois 'As Criaturas de Harry Potter' e, por último, 'O Dente Ainda Doía'. A apresentadora comenta que, apesar de no desenho a menina não aparecer lendo todos os livros (por falta de espaço), a história deixa claro que ela leu muitos mais. Júlia vê nesta narrativa um reflexo de seus próprios hábitos de leitura na infância.

História 4: A Menina que Rouba Batatas (c. 2014)

Uma das histórias mais inusitadas, 'A menina que rouba batatas', narra a aventura de um grupo de meninas que roubam batatas. Uma carrega uma cesta na cabeça, outra pega as batatas e outra leva a cesta no braço. Elas invadem uma casa e roubam 'um monte de batata', batendo um recorde e vivendo felizes para sempre. A apresentadora teoriza que a inspiração pode ter vindo do seu próprio gosto por batatas ou do gosto de sua mãe, já que a história é dedicada a ela ('D. Júlia para mamãe').

O Segundo Caderno: Inspiração na Vida Real e Crítica Social

O segundo caderno, com capa de flor, abrange histórias escritas dos 7 aos 9 anos de idade. Júlia nota que, neste período, suas tramas se tornaram ainda mais inspiradas em situações e pessoas reais do seu convívio.

História 5: O Saco que Queria Voar (13 de dezembro de 2016)

Com 7 anos, Júlia escreveu a história de 'Saco lito', uma sacola plástica. Inspirada em seu bisavô, que ia ao mercado especificamente para comprar sacolas plásticas, a trama acompanha Sacolito, cuja família inteira é comprada por um homem, menos ele. Abandonado e triste, ele ouve que sua família está no céu. Determinado a voar para reencontrá-los, ele pede ajuda a uma garrafa de água (que estava dormindo) e, finalmente, ao Senhor Vento, que o ensina a voar. Soprando forte, o vento faz Sacolito voar bem alto, encontrar sua família, e todos vivem felizes para sempre.

História 6: A Diferença Entre a Primeira e a Segunda Classe na Época dos Bondes (sem data)

Demonstrando uma consciência social precoce, Júlia escreveu uma história inspirada no que aprendia na escola sobre as classes sociais nos bondes (trens). A narrativa apresenta a família de Danilo (pai), Amanda (mãe), Vivian e André (filhos), que economizam réis (a moeda da época) para realizar o sonho de viajar de primeira classe. No entanto, ao embarcarem, são repreendidos por um senhor por falarem alto e as crianças correrem e gritarem, sendo informados de que isso só era permitido na segunda classe. A família fica de cara emburrada, e Vivian mostra a língua para o 'velho chato'. No final, Danilo desabafa que na primeira classe 'as pessoas não conversam e nem brincam', e a família decide que, a partir daquele dia, só viajaria de segunda classe.

Terceiro Caderno: O Comedor de Orelhas e a Inspiração Familiar

Um terceiro caderno, usado inicialmente para outras atividades escolares, contém uma história memorável que Júlia selecionou para o vídeo.

História 7: O Comedor de Orelhas (26 de março de 2018)

Com 8 anos de idade, Júlia escreveu esta história baseada em uma brincadeira de seu pai, que ameaçava comer a orelha de seu irmão mais novo, Nuno. A trama também parece fazer referência ao livro infantil 'Mamãe Virou um Lobisomem'. Na história, o pai de Nuno, após passear por muitas horas com o filho, fica com muita fome. Sem dinheiro para comprar dois lanches no McDonald's e não encontrando o vendedor de pipoca na rua, o pai começa a se transformar em um monstro: cresce, sua roupa se rasga, um símbolo de uma orelha aparece em seu corpo, e pelos começam a crescer. Gritando 'Eu vou comer suas orelhas!', ele persegue Nuno. O menino joga uma carne que estava na mão de um açougueiro para distraí-lo e depois corre até um açougue, compra muitas orelhas de porco e as joga para o pai monstro, que come até se saciar, voltando ao normal. Ao chegar em casa, Nuno conta a história para sua irmã Júlia e sua mãe Andreia, e todos decidem que nunca mais deixarão o pai sem comida.

Conclusão: A Conexão Entre Leitura, Imaginação e o Futuro

Júlia reflete sobre como esses cadernos são verdadeiras relíquias que mostram sua criatividade e imaginação na infância. Ela atribui essa imaginação fértil ao seu constante contato com a leitura, com seus pais lendo para ela e, posteriormente, ela lendo por conta própria. Ela faz um paralelo direto entre este vídeo e o bate-papo que participará na Bienal do Livro, no dia 6 de setembro, às 17 horas no Espaço Infância. A mesa, intitulada 'Criança que lê é criança que cria', será mediada pela autora Tatiana Cales (saga Helena) e contará também com a participação de Bel Ito e Sofia Cieiro, discutindo exatamente o tema abordado no vídeo: o impacto da leitura na infância para o desenvolvimento da criatividade.