A internet trouxe inúmeras facilidades para o nosso dia a dia, mas, na mesma proporção, abriu as portas para um submundo obscuro de fraudes, promessas falsas e estelionato digital. Para jogar luz sobre esse cenário preocupante, o ResolvaCast, apresentado pelo advogado e médico veterinário Kleysller Willon, recebeu uma das figuras mais importantes na denúncia de fraudes digitais no Brasil: Guga Figueiredo, amplamente conhecido nas redes sociais como o "Xerife da Internet".
Em um bate-papo denso, revelador e fundamental para a utilidade pública, Guga abriu os bastidores da sua criação de conteúdo, explicou como funcionam os golpes mais comuns da atualidade, a responsabilidade (e muitas vezes a irresponsabilidade) dos influenciadores digitais e as brechas legais que permitem que charlatões vendam "curas milagrosas" até mesmo em rede nacional de televisão. Acompanhe abaixo o resumo completo desta entrevista essencial para a sua segurança digital.
A Origem do Xerife: A Falsidade no Mundo Fitness
A história de Guga Figueiredo na internet não começou caçando golpistas financeiros, mas sim expondo as mentiras de um nicho que ele conhecia muito bem: o mundo fitness. Formado em Educação Física, Guga começou a se incomodar profundamente com a quantidade de desinformação e propagandas enganosas que circulavam nas redes sociais.
Ele relata que o estopim para a sua jornada foi a venda de "pomadinhas que queimam gordura localizada" e chás milagrosos. No entanto, o que realmente o fez furar a bolha de sua cidade no interior e ganhar alcance nacional foi começar a desmascarar as famosas "musas fitness". Segundo Guga, muitas influenciadoras vendiam cursos e suplementos afirmando terem conquistado seus físicos de forma 100% natural, quando, na verdade, apresentavam todos os sinais fisiológicos do uso de esteroides anabolizantes (como engrossamento da voz e desenvolvimento muscular hiperacelerado).
Kleysller, com sua visão de médico veterinário e advogado, complementou a gravidade da situação, lembrando que a venda indiscriminada de anabolizantes (muitos de uso veterinário) sempre foi um grave crime de saúde pública. O que Guga fazia era, no fundo, proteger a saúde de pessoas leigas que se frustravam ao tentar alcançar um padrão estético construído à base de química, comprando produtos que não funcionavam.
A Anatomia dos Golpes Digitais Modernos
Com o tempo, Guga percebeu que a desonestidade não estava restrita ao mundo fitness. Ele decidiu expandir seu conteúdo para denunciar estelionatos de todas as naturezas. Durante o podcast, ele detalhou alguns dos golpes mais cruéis que circulam atualmente, muitos deles patrocinados por grandes influenciadores:
- O Golpe do Cartão para Negativados: Focado em pessoas que estão com o nome sujo no SPC/Serasa. O golpista cria um site idêntico ao de um banco real e aprova um limite de crédito fictício. Para "enviar o cartão" para a casa da vítima, cobram uma pequena taxa (ex: R$ 30,00). Após o pagamento, afirmam que o cartão ficou retido e cobram uma nova taxa, sugando o pouco dinheiro de quem já está em situação de vulnerabilidade financeira.
- O Golpe da Renda Extra e Home Office: Promessas de ganhar R$ 900 por dia assistindo a vídeos, avaliando roupas da Shein ou assistindo a novelas da Globo. A vítima é induzida a comprar um aplicativo ou pagar uma "taxa de cadastro" para liberar os supostos trabalhos. Obviamente, o trabalho não existe e o dinheiro da taxa é roubado.
- O Falso Bug do Cassino: Guga citou influenciadores específicos (como Gato Preto e Bia Miranda) que divulgam uma mentira absurda: um suposto "bug" em uma plataforma de cassino onde, se você depositar em Reais e mudar o país do aplicativo para a Europa, o saldo se transforma magicamente em Euros, multiplicando o dinheiro por seis. A vítima deposita e perde tudo. "Se o bug fosse real, o golpista faria isso calado para ficar milionário, e não venderia a dica", ironiza Guga.
Kleysller destacou a perversidade psicológica desses crimes. Os golpistas miram em pessoas desempregadas, negativadas ou desesperadas por renda. E o pior: cobram valores pequenos (R$ 20, R$ 30, R$ 50), o que desestimula as vítimas a procurarem uma delegacia para registrar um Boletim de Ocorrência, garantindo a impunidade dos estelionatários.
A Responsabilidade dos Influenciadores e a Fúria dos Fãs
Um dos pontos mais polêmicos do bate-papo foi a atitude dos criadores de conteúdo. Muitos influenciadores milionários colocam seus rostos nessas fraudes sob a desculpa de que "não sabiam que era golpe" ou "foi a agência que fechou o contrato". Guga é categórico: eles sabem exatamente o que estão fazendo, mas o dinheiro pago pelas quadrilhas é tão alto que eles ignoram a ética.
O mais assustador, relata Guga, é a reação do público. Quando o Xerife da Internet expõe um golpe divulgado por um famoso, ele não recebe apenas agradecimentos, mas também uma avalanche de ódio dos próprios fãs do golpista. "O fã do influenciador é cego. O cara está tentando roubar o dinheiro dele, e o fã vem me atacar, dizendo que eu sou invejoso e que estou querendo 'hype' nas costas do ídolo dele", desabafa.
Apesar desse cenário sombrio, Guga nota uma leve melhora recente. A pressão popular e o medo de processos e multas milionárias fizeram grandes nomes recuarem. Influenciadores como Felipe Neto, Maira Cardi e Renato Cariani abandonaram publicamente a promoção de casas de apostas (bets) após sentirem o peso das críticas de seus seguidores e os danos à própria imagem. Isso prova que a denúncia e a cobrança por parte do público funcionam.
A Regulamentação das Bets: Um Mal Necessário?
A discussão sobre apostas esportivas e cassinos online (as famosas "bets") rendeu um debate profundo. Guga Figueiredo deixou claro: ele é totalmente contra cassinos e jogos de azar, pois destroem famílias e finanças. No entanto, de forma surpreendente, ele se declarou a favor da regulamentação imposta pelo governo.
Sua lógica é pragmática. Como o brasileiro já se tornou o maior apostador do mundo e a cultura do jogo já foi injetada na sociedade (inclusive com apoio de grandes emissoras de TV), manter a atividade clandestina é o pior cenário possível. A regulamentação trouxe avanços importantes:
- Proteção a menores: Plataformas legalizadas exigem identificação rigorosa, impedindo crianças de jogarem, algo que os sites clandestinos ignoravam.
- Fim da evasão de divisas: Antes, todo o dinheiro ia para paraísos fiscais (como Curaçao). Agora, o dinheiro circula no Brasil e as empresas pagam impostos altíssimos (como a taxa de licença de 30 milhões de reais).
- Transparência de Domínio: Plataformas legalizadas passarão a usar o domínio
.bet.br. Qualquer site operando fora desse domínio (como .com ou .net) é clandestino, facilitando a identificação de golpes rápidos que somem com o dinheiro do usuário em 30 dias.
Kleysller concordou, ressaltando que sites clandestinos são os que mais promovem estelionato direto, onde a pessoa sequer tem a chance de sacar o que ganhou, pois a plataforma simplesmente desaparece do mapa da noite para o dia.
O Perigo na TV Aberta: Falsos Suplementos e a Brecha da Anvisa
Se você acha que a internet é o único lugar perigoso, Guga Figueiredo trouxe um alerta assustador sobre a televisão aberta e os programas religiosos. Ele tem denunciado agressivamente propagandas em programas vespertinos (citando o programa de Sônia Abrão e programas de pastores/padres) que vendem "suplementos naturais" prometendo curar a diabetes, a artrite e até o alcoolismo (causando "ranço" de bebida).
Como isso é possível? Guga explica a brecha da Anvisa: suplementos alimentares (vitaminas, minerais, encapsulados de plantas como ora-pro-nóbis) são isentos de registro, pois são classificados no mesmo patamar que alimentos comuns. A regra é clara: eles não podem prometer cura, prevenção ou tratamento de doenças. Quem faz isso está cometendo crime.
Para comprovar que algo cura uma doença, a empresa precisaria investir milhões em ensaios clínicos, grupos de controle e validação científica para registrar o produto como medicamento. Os aproveitadores fogem dessa via: pegam farinha, vitaminas baratas ou plantas comuns, colocam em cápsulas, vendem por fortunas (às vezes mais de R$ 2.000) e miram em um público idoso e desesperado pela dor, usando a autoridade de apresentadores de TV e líderes religiosos para validar o golpe.
O perigo vai além da perda financeira. Muitos desses laboratórios clandestinos (fechados recentemente pela polícia, operando com betoneiras de cimento no meio da sujeira) misturam medicamentos de tarja preta (anfetaminas, sibutramina) e até remédios veterinários junto com plantas para forçar um emagrecimento rápido nas vítimas, causando taquicardias, infartos e óbitos.
Deepfakes: A Inteligência Artificial a Serviço do Crime
A tecnologia piorou o cenário. Os estelionatários agora utilizam ferramentas de Inteligência Artificial (Deepfakes) para roubar os rostos e a voz de grandes personalidades com extrema credibilidade na área da saúde e comunicação, como o Dr. Drauzio Varella e a apresentadora Ana Maria Braga.
Eles criam vídeos perfeitos onde essas figuras parecem estar recomendando remédios milagrosos para catarata ou dores nas articulações. O idoso, que já tem dificuldade com a tecnologia moderna, não consegue distinguir o vídeo falso do verdadeiro, sendo enganado com extrema facilidade por confiar cegamente na autoridade daquela figura pública.
Estratégia de Redes Sociais: Como Começar e Crescer
Mudando o foco para o empreendedorismo digital, Kleysller perguntou a Guga sobre suas estratégias de crescimento. Para quem deseja começar a produzir conteúdo hoje (seja um advogado, médico ou denunciante), Guga tem uma regra de ouro: Comece pelo TikTok.
Ele explicou a diferença crucial entre os algoritmos. O Instagram tornou-se a rede do ego e do "beautiful people" (pessoas bonitas, iates, comida japonesa). Além disso, é muito difícil crescer organicamente do zero no Instagram, pois a plataforma prioriza quem já tem público ou quem paga por anúncios.
O TikTok, por outro lado, é democrático. A plataforma não se importa se você tem zero ou um milhão de seguidores. Se o seu conteúdo for autêntico, tiver uma boa narrativa, pouca edição artificial e se conectar com as dores reais das pessoas, ele vai viralizar. Guga recomenda usar a ferramenta TikTok Insights para ver quais assuntos estão em alta e conectar esses temas virais ao seu nicho profissional. Depois de dominar o TikTok e construir uma base, o criador deve levar esses vídeos para o Instagram e, principalmente, focar no YouTube.
Segundo Guga, o YouTube é a plataforma definitiva para monetização e construção de comunidade forte. Enquanto o Instagram não paga um centavo por visualização (forçando o criador a vender cursos ou fazer publicidade), o YouTube paga bem em dólares (AdSense) e permite a criação de "Clubes de Membros", onde seguidores fiéis pagam mensalidades para apoiar o trabalho do criador — algo fundamental para o Xerife da Internet, que não aceita patrocínios duvidosos para manter sua isenção e credibilidade intactas.
Saúde Mental, Hobbies e a Pressão do Julgamento
Apesar da rotina estressante de investigar quadrilhas, lidar com advogados (Kleysller é o advogado que protege as marcas e defende Guga judicialmente das retaliações dos golpistas) e roteirizar vídeos, Guga faz questão de manter sua saúde mental em dia. E o seu refúgio é inusitado: o Karaokê.
Ele frequenta assiduamente casas de karaokê em São Paulo (como o Tokyo) simplesmente para cantar e se divertir, sem nenhuma pretensão de ser bom ou afinar a voz. Durante o podcast, ele fez uma brilhante analogia psicanalítica usando a teoria de Freud (Id, Ego e Superego). Segundo Guga, o Superego é a voz da sociedade julgadora na nossa cabeça ("não cante, você é ruim, vão rir de você"). O álcool, no karaokê, desliga esse Superego, permitindo que a pessoa suba na mesa e cante Raça Negra sem medo de ser feliz.
Ele traça um paralelo direto disso com a criação de conteúdo. Muitas pessoas deixam de produzir vídeos, ensinar algo valioso na internet ou impulsionar suas carreiras por puro medo do julgamento alheio (o Superego), temendo o que os amigos ou familiares vão pensar. "Você não tem controle sobre o que o outro pensa. Deixar de ganhar dinheiro, de ajudar pessoas e de prosperar na carreira por causa do julgamento de quem não paga suas contas é o maior erro que alguém pode cometer", aconselha Guga.
Conclusão: O Papel de Cada Um na Limpeza da Internet
O episódio do ResolvaCast encerrou com uma reflexão poderosa sobre cidadania digital. O trabalho árduo de Guga Figueiredo e de sua assessoria jurídica (capitaneada por Kleysller) é um serviço de utilidade pública incomensurável. No entanto, o Xerife da Internet não pode combater esse exército de fraudadores sozinho.
A responsabilidade recai sobre todos nós. Precisamos estar vigilantes, questionar promessas de dinheiro fácil (como rendas de R$ 900 por dia com um clique), duvidar de curas milagrosas em cápsulas e, acima de tudo, cobrar os influenciadores que seguimos. Dar unfollow, denunciar publicações fraudulentas e alertar nossos pais e avós sobre o uso de Inteligência Artificial em vídeos são passos fundamentais para secar a fonte de dinheiro dos criminosos.
Apoiar financeiramente (através de visualizações, inscrições ou clubes de membros) os criadores de conteúdo que trazem a verdade à tona é o combustível necessário para que vozes como a de Guga Figueiredo continuem ecoando mais alto que a ganância dos estelionatários. A internet só será um lugar mais seguro quando a informação, o senso crítico e a coragem de denunciar prevalecerem sobre a ingenuidade e a impunidade.