Introdução: A Jornada Empreendedora de Denise, da DGN Contabilidade
No episódio do Mooncast, Mateus Santos recebeu Denise, contadora e CEO da DGN Contabilidade, para uma conversa profunda sobre sua trajetória profissional e empreendedora. Com 16 anos de mercado contábil e 6 anos à frente da DGN, Denise compartilhou sua história de superação — desde a infância com recursos limitados, passando pela escolha contraintuitiva da contabilidade, até a construção de um escritório que cresce de forma estruturada e sustentável.
A conversa revelou que o sucesso não veio por acaso, mas de uma combinação de disciplina, estudo constante, proximidade com o cliente e metodologias de gestão (como o EOS). Denise também abordou temas sensíveis como a perda de uma sócia nos primeiros anos, a importância de se cercar de pessoas certas e a necessidade de investir em marketing e vendas — mesmo quando o orçamento é apertado. Este artigo resume os principais aprendizados para contadores que desejam empreender e escalar seus negócios.
Trajetória profissional: 16 anos no mercado contábil
Denise começou a trabalhar muito cedo, com 14 anos, no primeiro escritório de contabilidade. No ensino médio, fez o técnico em contabilidade — não por escolha, mas porque era o único curso subsidiado disponível na época. Ela queria cursar biologia, mas as condições financeiras e o apoio de um chefe a convenceram a seguir pela contabilidade. Ela lembra que a decisão foi pragmática: precisava de um emprego e a contabilidade oferecia estabilidade.
Com o tempo, Denise aprendeu a gostar da profissão. Ela trabalhou em auditoria (um "intensivão" que ensinou disciplina e resiliência), foi coordenadora em um escritório e, mais tarde, assumiu posições de liderança em empresas de refeições coletivas. Cada experiência contribuiu para sua visão estratégica e para a cultura que ela hoje aplica na DGN.
A visão estratégica que a contabilidade proporciona
Denise destacou que o grande aprendizado da contabilidade é a capacidade de análise estratégica. A leitura de balancetes e demonstrações financeiras permite identificar erros, tendências e oportunidades — não apenas nos negócios dos clientes, mas também na vida pessoal. Ela comparou a análise contábil a uma visão de futuro, onde metas e métricas direcionam as decisões. Essa habilidade, segundo ela, é única do mercado contábil e não seria desenvolvida da mesma forma em outras áreas.
O nascimento da DGN Contabilidade durante a pandemia
A DGN nasceu de forma despretensiosa durante a pandemia, em 2020. Denise, ainda CLT em uma empresa de refeições coletivas, começou a ser procurada por empresários do segmento para tirar dúvidas sobre as constantes mudanças normativas. Ela estudava as instruções semanais e trazia respostas práticas. Quando alguns contadores se recusavam a aplicar as orientações, Denise fazia o serviço por conta própria.
O gatilho para empreender veio quando um grupo de seis empresários a procurou e disse: "Queremos você como nossa contadora responsável". Denise hesitou, mas aceitou após uma conversa com uma ex-colega de trabalho, Marli, que se tornou sua primeira sócia. Marli tinha expertise em departamento pessoal, área que Denise não dominava. Infelizmente, Marli faleceu com apenas um ano de DGN, vítima de uma doença rara — um momento de grande dor, mas que também consolidou a determinação de Denise em manter o escritório vivo.
Como os primeiros empresários moldaram a cultura da DGN
Os primeiros seis clientes da DGN foram empresários que determinaram os honorários e as condições de trabalho. Eles disseram a Denise quanto pagariam e o que esperavam. Essa dinâmica inverteu a lógica tradicional: em vez de a contadora precificar, os clientes definiram o valor. Denise aceitou e, a partir daí, construiu um escritório com cultura de proximidade e solução de problemas.
Até hoje, a DGN mantém o compromisso de responder a críticas com soluções em até três meses. Se um cliente aponta uma melhoria no NPS, a equipe tem até 90 dias para implementar uma mudança. Essa postura proativa criou um ciclo virtuoso de indicações, que foi o principal motor de crescimento nos primeiros anos.
Metodologia "Ganhando Tração" aplicada à contabilidade
Denise trouxe para a DGN a metodologia EOS (Entrepreneurial Operating System), aprendida em uma de suas experiências CLT. O livro-base é "Ganhando Tração", que ensina um sistema operacional para pequenas e médias empresas. Os pilares do EOS incluem:
- Reuniões semanais estruturadas: Com pauta fixa, tempo definido e feedbacks sobre problemas e conquistas.
- Pedras trimestrais: Metas de longo prazo desdobradas em ações concretas para os próximos 90 dias.
- Ferramenta de gestão (Nininety): Para disparar tarefas, acompanhar indicadores e alinhar a equipe.
Denise destacou que o EOS exige disciplina religiosa e que a metodologia, embora simples, só funciona se aplicada com consistência. Hoje, a DGN tem reuniões semanais para discutir problemas, celebrar conquistas e definir as tarefas da semana, sempre com foco na visão de 3 a 5 anos.
Transição do home office para o modelo híbrido e "Processo Berçário"
Desde o início da pandemia, a DGN operava 100% em home office. Recentemente, Denise decidiu migrar para o modelo híbrido, com três dias presenciais por semana. A principal razão foi a necessidade de consolidar a cultura entre novos colaboradores, que não tinham a mesma referência da equipe inicial.
Ela criou o "Processo Berçário": no primeiro mês, o novo funcionário é 100% presencial, para aprender processos, alinhar expectativas e absorver a cultura da empresa. Depois, passa para o híbrido. Denise acredita que a presença física é fundamental para transmitir a tonalidade de atendimento e a proximidade com o cliente que ela deseja para a marca.
Mudança de mentalidade: de contador a empresário contábil
Um dos pontos mais fortes da conversa foi a diferença entre ser contador e ser empresário contábil. Denise enfatizou que muitos profissionais faturando R$ 30 mil, R$ 40 mil ou até R$ 200 mil ainda agem como autônomos, sem uma visão de negócio. Faltam DREs gerenciais, planejamento de caixa e investimento em marketing.
Ela contou que, quando contratou a Moonflag, já tinha um DRE gerencial que incluía o investimento em marketing como uma linha de custo. Isso permitiu avaliar o retorno sobre o investimento de forma objetiva e tomar decisões com base em dados, não em feeling. Para Denise, o contador precisa aplicar a si mesmo as mesmas recomendações que faz aos clientes: ter visão estratégica, controle financeiro e metas claras.
Como gerar valor e proximidade real com o cliente
Denise explicou que a proximidade com seus clientes não veio do atendimento reativo (enviar guias, fechamentos), mas de entregar valor prático. Ela criava cenários fiscais e financeiros, como planilhas comparativas de impostos, e mostrava ao empresário o impacto de cada decisão. A linguagem era simples e focada no bolso do cliente: quanto ele poderia economizar ou quais riscos evitaria.
Essa abordagem fez com que os empresários a procurassem espontaneamente para tirar dúvidas e, consequentemente, a indicassem para outros. Denise enfatizou que não adianta falar de lei com o empresário; é preciso traduzir a lei em números, cenários e ações. Esse é o diferencial competitivo que a DGN manteve até hoje.
Desafios operacionais e a superação de perdas no time
A perda da Marli foi um dos maiores desafios da jornada. Marli era a única especialista em departamento pessoal e faleceu repentinamente. Denise precisou rapidamente terceirizar o serviço, mas a solução não funcionou. Ela então recorreu à sua rede de confiança — o que ela chama de "recrutamento de bar" — e trouxe uma ex-colega de trabalho, que, com sua filha, assumiu a área.
Esse episódio mostrou a importância de ter pessoas de confiança na equipe e de não centralizar conhecimentos críticos em uma única pessoa. A partir daí, Denise passou a valorizar ainda mais a formação de um time de elite, com pessoas que compartilham da mesma cultura e que se sentem donas de suas responsabilidades.
Estruturando o departamento comercial e investindo em marketing
Denise admitiu que contador não é comercial, e implementar um departamento comercial foi um desafio. Ela estudou por dois anos sobre vendas, prospecção e funil de clientes antes de estruturar a área. Hoje, a DGN tem um fluxo claro: entrada de leads, nutrição, reunião comercial e pós-venda.
Ela também destacou que investir em marketing não é opcional para quem quer crescer. Ela investe cerca de 13% a 15% do faturamento em marketing — um percentual alto, mas necessário para alavancar a receita. Para escritórios com faturamento menor (R$ 30-50 mil), Denise recomenda que o investimento seja proporcionalmente maior, pois o custo fixo do marketing não escala linearmente.
Rotina de gestão, visão de longo prazo e tom de voz da equipe
Denise compartilhou sua rotina de gestão atual: das 8h às 18h, ela está 100% focada na operação e no time; após esse horário, dedica-se à reflexão estratégica, revisando o desempenho do time e alinhando a tonalidade de atendimento. Ela quer que toda a equipe transmita a mesma proximidade que ela transmitia quando atendia pessoalmente.
Ela também pratica o "afastamento semanal" sugerido pelo EOS: sai do escritório (ou vai para um quadro branco em casa) para desenhar o futuro da DGN, visualizar cenários e ajustar a rota. Esse momento de visão de longo prazo é o que permite à empresa se antecipar a problemas e se preparar para o crescimento.
Sem romantismo: o preço do crescimento e dedicação
Denise foi realista: crescimento não é romântico. Nos primeiros anos, ela trabalhava sábados, domingos e feriados. Abriu mão de churrascos, encontros e lazer para construir a DGN. Hoje, já consegue ter finais de semana livres, mas sabe que cada fase exige um nível diferente de dedicação.
Ela comparou a empresa a uma criança: nasce, passa pela infância, adolescência e maturidade. Cada momento exige cuidados específicos. O empresário precisa entender que, em alguns momentos, o equilíbrio não existe — é preciso investir tempo e energia para colher frutos no futuro. E quem não está disposto a isso pode optar por um crescimento mais lento ou manter o negócio em um patamar confortável. As duas escolhas são válidas, desde que sejam conscientes.
Recado final e encerramento
A mensagem final de Denise para jovens empreendedores contábeis é: decida e vai. Se você quer empreender de verdade, tenha consciência do que vai abdicar e do que precisa fazer. Não espere condições perfeitas; comece com o que tem, estude, aplique metodologias e, principalmente, cuide do seu cliente com proximidade e valor prático.
Denise também reforçou a importância de ter um DRE gerencial, de separar as finanças pessoais das da empresa e de reinvestir o lucro para crescer. Ela mesma seguiu esses princípios: manteve um caixa de reserva, não aumentou seu padrão de vida enquanto a empresa não estava sólida e, hoje, colhe os frutos de uma gestão disciplinada.