Fran Franceschi #69 Os bastidores de uma carreira feita de recomeços — com Kika

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Introdução: Cristiane "Kika" Easi, a Engenheira de Alimentos que Gerencia 75 Lojas da Lelis

Neste episódio do podcast da Fran Francesque, recebemos uma profissional que é a própria definição de reinvenção e versatilidade profissional: Cristiane Easi, conhecida como Kika, Gerente de Operações da Lelis, responsável por mais de 75 lojas da marca no Brasil. Com uma trajetória que começou na engenharia de alimentos, passou por gigantes como VP (adoçantes), Nivea, Daslu e Grupo Veste (Rosa Chá e Bobô), Kika compartilhou sua jornada de recomeços, a importância de trabalhar com amor, os desafios de gerenciar pessoas e lojas, e a estratégia da Lelis para se manter relevante em um mercado dominado pelo fast fashion. Abaixo, os principais insights dessa conversa inspiradora.

Das Origens na Engenharia de Alimentos à Primeira Passagem pela Lelis

Kika é formada em engenharia de alimentos e passou cerca de 10 anos atuando na área, em empresas como a VP (conhecida pelos adoçantes Gold, Doce Menor e açúcar mascavo). Ela trabalhou em fábricas, cuidou de controle de qualidade, foi chefe de produção e geria equipes e operações. Depois, migrou para a Nívea, onde trabalhava em Itatiba (SP), morando em São Paulo e enfrentando o desgaste diário de 1h30 de trânsito. Grávida de seu filho Gustavo, ela passou mal, largou o carro em Itatiba e voltou de táxi, decidindo pedir demissão — uma pausa na carreira.

Após o nascimento do filho, aos seis meses, Kika já não aguentava mais ficar em casa e precisava trabalhar, mas não conseguia mais voltar para a engenharia, pois as fábricas ficavam longe. Foi então que uma amiga, Renata, que já trabalhava na Lelis, disse que havia uma oportunidade. Em 2003, Kika entrou na Lelis pela primeira vez, não no mundo glamoroso da moda, mas sim para montar o controle de qualidade das roupas dentro do galpão da logística. Ela aplicou na moda a mesma metodologia que usava nos alimentos: criou amostragens e um plano de qualidade. Ficou um ano nessa função, que ela descreve como "nada glamurosa", mas fundamental.

A Escola daslu: Planejamento e a Transição para o Comércio Varejista

Em 2004, Kika foi trabalhar na Daslu, onde permaneceu por mais de 12 anos. Inicialmente, foi para o planejamento (área diretamente ligada à sua formação em engenharia), começando na unidade da Vila Nova Conceição. Após uma breve saída para tentar retomar a carreira na engenharia de alimentos (em meio à "confusão da Daslu" e a mudança da loja para a Marginal), ela acabou voltando para a Daslu pela segunda vez, já na loja enorme da Marginal. Lá, ela fez carreira no planejamento comercial, cuidando de uma linha, depois de um grupo, começando pelo jóias, depois malha casual, feminino, masculino, infantil e, por último, casa. Foi uma bela escola: ela aprendeu sobre compra, precificação, venda, open to buy e planejamento de coleção, sempre trabalhando muito próxima das vendas. Kika afirma que sempre gostou de vender e lidar com pessoas, características que seriam fundamentais em sua carreira posterior.

O Sabático em Washington e a Vida de Dona de Casa (e Mãe de Atletas)

Em 2015, seu marido pediu demissão da Daslu para fazer um sabático e estudar esport management em Washington, nos EUA. A família (Kika, o marido e os dois filhos, Gustavo e Pedro) mudou-se para lá sem nada. Kika ficou dois anos sem trabalhar formalmente, dedicando-se integralmente à casa e aos filhos: lavar, passar, cozinhar, ser motorista. Foi um período difícil no começo, mas extremamente valioso para os meninos. Eles não falavam inglês (Pedro tinha 9 anos e Gustavo 11) e se adaptaram rapidamente por meio do futebol. O esporte os ajudou a se socializar e a aprender o idioma pela imersão. Pedro se destacou tão rápido que, em pouco tempo, Kika virou "mãe, irmã e pai do Pedro", tamanha a projeção do filho nos times locais (Arlington, Bethesda).

Após dois anos, a família voltou ao Brasil. Os meninos entraram no meio do ano letivo no Colégio Santo Américo (antes estudavam no Lourenço, em SP). No entanto, Gustavo (Guga) decidiu que queria voltar para os EUA para fazer o high school. Voltou, ganhou uma bolsa de futebol em uma escola só para meninos, e, no meio do caminho, veio a pandemia. Ele chegou ao Brasil com uma mala de mão, ficou um ano, voltou para os EUA para se formar, fazendo quarentena no Equador por causa do futebol. Em seguida, entrou na faculdade também com bolsa de futebol. Hoje, Pedro tem 19 anos e Gustavo 22. Essa experiência moldou a visão de Kika sobre disciplina, esporte e reinvenção.

O Retorno ao Brasil e a Passagem pelo Grupo Veste (Rosa Chá e Bobô)

Quando voltou dos EUA, Kika não retornou imediatamente para a Lelis. Ela trabalhou por um ano em um site e depois entrou no Grupo Veste, responsável por marcas como Rosa Chá e Bobô. Começou na Rosa Chá, na parte comercial (compras e planejamento comercial). Quando a pandemia chegou, o grupo uniu as equipes de retaguarda comercial e estilo das duas marcas, e Kika passou a cuidar tanto da Rosa Chá quanto da Bobô. Foi um período de muito aprendizado e desafio, com a marca participando de fashion week e enfrentando os impactos do varejo na pandemia. Kika avalia essa fase como uma experiência intensa, que a preparou para o próximo grande passo.

O Retorno à Lelis em 2024: O Desafio de Operacionalizar 75 Lojas

Em 2024, Kika recebeu um convite de sua chefe Janaína para um novo desafio. A pergunta foi: "Se não fosse mais com o comercial, com o que você quer trabalhar?" Kika respondeu: "Com vendas". Janaína riu e ofereceu uma vaga no varejo. Kika aceitou na hora e tornou-se Gerente de Operações da Lelis, responsável por 75 lojas em todo o Brasil. Apesar de sempre ter trabalhado perto das lojas (na Daslu, no Grupo Veste), ela nunca havia cuidado diretamente de uma loja. Agora, ela lidera uma equipe de cinco coordenadoras regionais (cada uma cuida de 15-16 lojas), mais duas assistentes diretas. A maior loja da rede é a do Iguatemi São Paulo, que conta com mais de 60 funcionários (entre vendedores, assistentes de estoque, caixa, administrativo, etc.), e funciona em três turnos, totalizando cerca de 500 colaboradores diretos nas lojas.

Kika visita constantemente as lojas, ainda não conseguiu visitar todas, mas sua rotina é de reuniões diárias com a equipe. Ela destaca que o maior desafio não é a meta em si, mas gerenciar pessoas — fazer com que todas trabalhem felizes, cumpram horários, atendam bem as clientes e cuidem do negócio como se fosse sua própria casa. Sua filosofia é simples: a vendedora deve receber a cliente como receberia uma convidada em sua casa — simpática, bem arrumada, oferecendo água e café.

A Marca Lelis: 36 Anos de História e o Desafio do Fast Fashion

A Lelis tem 36 anos de mercado e é uma marca com autoridade consolidada. Diferente de fast fashions como Shein, Zara e Renner, a Lelis aposta em um diferencial de qualidade versus preço. A alfaiataria da marca, por exemplo, compete diretamente com peças mais baratas do fast fashion porque oferece um caimento, um tecido e uma durabilidade superiores. Além disso, a Lelis sabe que seu nome já é um presente bem-visto — ninguém precisa explicar o que é a marca. O desafio atual, segundo Kika, é atrair novos clientes e se comunicar com as novas gerações. Para isso, o marketing da marca se tornou mais dinâmico no Instagram, e as vitrines passaram a ser organizadas por looks completos (e não mais apenas por cor), dando autonomia às vendedoras para sugerir combinações. A loja do Pátio Batel, em Curitiba, é um exemplo dessa nova roupagem: vidro maravilhoso, exposição por cores dentro de cada corner, roupas contando histórias.

Omnichannel e Integração entre Loja Física e Digital

A Lelis trabalha de forma integrada: lançamentos na loja e no e-commerce acontecem ao mesmo tempo, com a mesma comunicação. As clientes frequentemente chegam à loja com a foto tirada do e-commerce, procurando a peça. A marca implantou o conceito de "prateleira infinita" (OMNI), que permite ao vendedor consultar o estoque de todas as 75 lojas e vender uma peça que não está disponível fisicamente na unidade do cliente, com entrega em casa (inclusive via cupom do vendedor). No início, as clientes resistiam a comprar sem experimentar, mas as vendedoras aprenderam a contornar essa objeção. Essa integração permite à Lelis trabalhar com estoques menores, reduzindo custos e aumentando a eficiência.

Eventos, Parcerias e a Estratégia para Bater Metas

A meta é diária e, quando se bate a meta de julho, já se está correndo atrás da de agosto. Para movimentar as vendas, a Lelis realiza eventos e minieventos constantemente. Exemplos: comemoração de 20 anos da Lelis Casa em Recife; parcerias com bancos como o Itaú; e minieventos com parceiros locais (marcas que se identificam com a Lelis). As gerentes saem às ruas e shoppings em busca de marcas parceiras para fazer cross-sell e trazer clientes que não são originalmente da Lelis. Aniversários de clientes também são oportunidades para convidar as amigas e realizar vendas. Kika enfatiza que, embora o nome Lelis já se venda sozinho, esses eventos são fundamentais para trazer sangue novo à base de clientes.

O Futuro: Planejamento a Longo Prazo e Coleções que Chegam em 2026

Kika revela que o planejamento da Lelis trabalha com anos luz de antecedência. Enquanto a loja vende a coleção atual (verão), a equipe de estilo já está desenvolvendo a coleção que chegará às lojas em janeiro de 2026. Isso significa que a moda da Lelis não segue o ritmo do fast fashion de reposição contínua: as coleções são limitadas e, quando acabam, acabam. Apenas algumas linhas perenes (básicas) têm reposição. Esse modelo cria um senso de urgência (scarcity) que estimula a compra imediata, mas exige uma comunicação clara com a equipe de vendas e com as clientes. Kika explica que muitas vendedoras perguntam se vai chegar mais de determinada peça; a resposta é sempre "não", e a saída é usar a prateleira infinita para encontrar a peça em outra loja da rede.

A Importância do Amor pelo Trabalho e do Esporte na Vida Pessoal

Kika encerra a entrevista com sua mensagem pessoal: trabalhar com amor. Ela não trabalhou de graça, mas sempre buscou o que ama fazer — seja na engenharia de alimentos, na área comercial, ou hoje no varejo. Para ela, o mais importante é estar feliz, pois passamos mais tempo no trabalho do que em casa. O esporte também é um pilar fundamental em sua vida: já praticou corrida, triathlon, capoeira, e hoje se dedica à musculação e bike indoor. O exercício é seu grande equilíbrio — nos dias em que não acorda bem, descer para andar de bicicleta ou fazer uma aula transforma completamente seu estado de espírito.

Mensagem Final: Trabalhe Feliz e Cerque-se de Pessoas que Somam

Como conselho para os ouvintes, Kika diz: trabalhe feliz. Não deixe de buscar o que te realiza profissionalmente, pois o engajamento e a alegria no ambiente de trabalho impactam diretamente sua qualidade de vida. Cerque-se de pessoas que somam, trabalhe em uma empresa bacana que te abrace, e não subestime o poder do esporte como ferramenta de equilíbrio emocional. Kika é a prova viva de que é possível se reinventar múltiplas vezes, migrar de setores completamente distintos (alimentos, cosméticos, moda de luxo, varejo de moda) e construir uma carreira sólida e feliz.