Fran Franceschi #66 | Liderança, Inovação e Propósito, Com Bianca Maksud

Início \ Produções \ Fran Franceschi #66 | Liderança, Inovação e Propósito, Com Bianca Maksud

Introdução: Bianca Maxud e a Jornada do Entretenimento à Consultoria Estratégica

Neste episódio do podcast da Fran Francesque, recebemos uma mulher que não só inspirou a trajetória do próprio podcast, mas também construiu uma carreira sólida e multifacetada no mundo do entretenimento, mídia e esportes. Bianca Maxud, formada em administração pela FAAP com MBAs em São Paulo e Nova York, é hoje uma das mentes estratégicas por trás da Matos Project, uma consultoria que ajuda empresas a inovar, se transformar e encontrar novos caminhos de negócio. Nesta conversa profunda, Bianca compartilhou sua visão sobre a evolução do consumo, os desafios do futebol como negócio, a importância da essência e como conciliar a maternidade com uma carreira de alta performance.

As Origens: Da TVA à Globo e a Paixão por Entender o Consumidor

Bianca iniciou sua carreira na TVA (TV Abril), no início da TV paga no Brasil, seguindo os passos de seu pai, que sempre foi sua grande inspiração profissional. Depois, passou muitos anos na Claro, onde consolidou sua expertise em produto, e posteriormente migrou para a Globo, sempre no universo de entretenimento e mídia. Foi nessa jornada que ela desenvolveu um olhar aguçado para entender o consumidor, que se tornaria a base de sua atuação atual.

Bianca descreve que começou no mundo analógico, onde uma pesquisa de mercado durava de 2 a 3 anos. Com a chegada do digital, tudo mudou: agora a informação é nova a cada dia. A chave para navegar nesse ambiente, segundo ela, é a curiosidade e a escuta ativa. "Se você não ouve, você se ilude com a sua própria ideia e corre o risco de vender o que não está sendo comprado." Essa mentalidade flexível e ágil é o que permite às empresas se adaptarem a um cenário em constante transformação.

O Futebol como Negócio: Desafios e Oportunidades no Esporte Brasileiro

Atualmente, um dos focos de Bianca na Matos Project é o futebol. Ela trabalha com a Libra, um conjunto de clubes brasileiros que busca profissionalizar a gestão do esporte. O objetivo é transformar o futebol não apenas como entretenimento, mas como um negócio sustentável e rentável, inspirando-se em ligas como a Premier League inglesa e a NFL americana. Esta última, segundo Bianca, é a maior geradora de receita do mundo esportivo, pois criou um universo que vai além do jogo: instituição, marca, naming rights e uma relevância global inquestionável.

O grande desafio no Brasil é aumentar a geração de receita. Embora o país seja a sexta maior liga em reconhecimento mundial, a receita é pífia perto das principais ligas europeias e americanas. Bianca explica que é preciso entender as diferentes gerações de torcedores: enquanto o público mais velho consome o jogo de 90 minutos, as novas gerações preferem melhores momentos, destaques (highlights) e conteúdo digital. A conexão com o torcedor precisa ser profunda para ser duradoura, e isso passa por formatos variados, como álbuns de figurinhas digitais, cards, memes e outras experiências que dialogam com o comportamento do consumidor jovem.

A Queda do Beisebol como Alerta e as Referências Internacionais

Bianca cita o beisebol como um exemplo de esporte que não conseguiu se renovar. Por ser um jogo longo, ele não cativou as novas gerações e hoje enfrenta uma queda de popularidade. Para o futebol brasileiro, a lição é clara: é preciso olhar para todos os públicos com estratégias diferentes. Ela menciona que os Estados Unidos (especialmente a NFL) e a Europa (Premier League, Bundesliga, Série A italiana) são referências constantes, mas também destaca a importância de exportar a paixão nacional: não apenas a camisa da seleção, mas as camisas de clubes como Flamengo, Palmeiras e São Paulo para torcedores no exterior.

A Metodologia Matos: Contexto, Escuta e Criação de Caminhos

A abordagem da Matos Project, segundo Bianca, é profundamente centrada no contexto. Antes de qualquer ação, a equipe realiza desk research, entrevistas internas, e contrata pesquisas externas para entender o mercado de hoje e de amanhã. A partir daí, são traçadas perspectivas e caminhos. Bianca dá um exemplo prático: um cliente que oferece um sistema de BPO (folha de pagamento e benefícios). Em vez de estudar a venda do sistema, ela estuda quem compra — no caso, o profissional de RH. Quem é esse profissional? Como ele se sente? Para onde ele está indo? A partir dessas respostas, a consultoria pode sugerir não a venda de um sistema, mas a venda de uma solução que resolva a dor real do cliente: o desespero por ajuda e suporte.

O tempo de análise varia conforme o tamanho da empresa e a complexidade do objetivo. Um reposicionamento pode levar cerca de 5 meses, enquanto a criação de novos caminhos demanda um prazo maior. O que Bianca mais valoriza nesse trabalho é a oportunidade de atuar em diferentes indústrias, desde tecnologia até futebol, sempre aplicando uma mesma metodologia adaptada à realidade de cada cliente. O fascinante é justamente descobrir como problemas de setores distintos podem ser resolvidos com soluções semelhantes, uma vez que o consumidor é o mesmo em diferentes papéis.

Influenciadores Digitais: Estratégia, Autenticidade e a Mente Flexível

Sobre o uso de influenciadores digitais, Bianca é pragmática. O termo "influenciador" pode ser amplo: desde um microinfluenciador local com forte conexão comunitária até um macroinfluenciador de alcance nacional. Tudo depende do objetivo e do orçamento do cliente. Ela defende que, antes de qualquer contratação, é preciso entender a dor da marca e o que ela precisa alcançar. Se o objetivo é crescer market share no interior de São Paulo, faz sentido investir em influenciadores regionais. Se é um reposicionamento nacional, talvez seja necessário um investimento maior em nomes conhecidos.

Bianca ressalta que a autenticidade é crucial. As marcas que tentam amarrar influenciadores em briefings muito rígidos perdem o potencial máximo da campanha, que está justamente no jeito único de cada criador de conteúdo se comunicar. Para ela, o digital trouxe uma democratização da voz do consumidor, e as marcas que não entenderem isso correrão o risco de ficar para trás. A conexão genuína e a entrega de valor são mais importantes do que a simples exposição.

Maternidade e Carreira: O Equilíbrio Dinâmico e a Prioridade Consciente

Bianca, mãe de duas filhas (Maria Eduarda de 15 anos e Maju de 13), fala com honestidade sobre os desafios de conciliar uma carreira intensa com a maternidade. Durante 12 anos, enquanto trabalhava na Globo, ela viajava toda semana para o Rio de Janeiro, dormindo por lá e voltando no dia seguinte. Por muito tempo, ela sentia que as filhas não sofriam com isso, até que a própria Bianca começou a sentir o desequilíbrio. A maturidade trouxe a percepção de que era hora de inverter as prioridades.

Ela acredita que qualidade é melhor que quantidade, mas que a quantidade também é importante. Presença, diálogo e estar disponível se tornaram fundamentais. Bianca se define como "dura" na criação das filhas, no sentido de querer formar meninas de valor, que entendam conceitos de conquista e frustração. Ela não permite, por exemplo, que as filhas façam unha desde muito pequenas, não porque isso mude a vida delas, mas para ensinar que algumas conquistas levam tempo. Hoje, ela afirma: "Eu sou mãe e profissional. Sou executiva depois de ser mãe, porque é uma responsabilidade que eu pedi." Ela faz questão de trabalhar feliz, pois acredita que uma mãe feliz em casa impacta positivamente toda a família.

A Pirâmide de Prioridades e a Importância das Relações

Quando perguntada sobre sua pirâmide de prioridades, Bianca é categórica: a base é a família — sua mãe, sua irmã Dani, seu cunhado Cléber, seu marido Eduardo, suas filhas, seu sobrinho e seus sogros. Acima da família, mas ainda na base, estão os amigos do trabalho. Ela acredita que quem transforma colegas de trabalho em amigos é mais feliz, pois convive mais tempo com essas pessoas do que com a própria família. Ela mantém almoços regulares com ex-funcionários, ex-chefes e mentores, como André Guerreiro, Pedro Garcia e Silvio Reginaldo (fundador da Matos).

Bianca também admira seus concorrentes, pois eles a tiram da zona de conforto e a desafiam a crescer. Para ela, as pessoas que passam pela vida — sejam elas positivas ou negativas — deixam aprendizados. A chave é reconhecer quem agrega e quem apenas ensina o que não fazer. No topo da pirâmide, estão as metas e realizações profissionais, construídas sobre essa base sólida de relações humanas.

Autocuidado, Espiritualidade e o Movimento Pendular do Consumo

Bianca observa que o autocuidado e a espiritualidade ganharam força especialmente após a pandemia. No entanto, ela acredita que esse é um movimento pendular: as pessoas estão em um extremo agora, mas com o tempo encontrarão um equilíbrio. O que é certo é que não se volta mais ao patamar anterior. Os homens, por exemplo, hoje são incentivados a se cuidar — algo impensável em gerações passadas. O digital impulsiona essas tendências, e as marcas que desejam se manter relevantes precisam estar atentas.

Porém, Bianca adverte que as pessoas podem se cansar de "experiências" o tempo todo. A sustentabilidade virá para as marcas que conseguirem ir além do produto e entregar um benefício real e uma conexão genuína. Ela cita o exemplo da Coca-Cola, que nunca vendeu apenas um refrigerante, mas sim uma sensação. Da mesma forma, marcas como Louis Vuitton (entrando no mundo dos esportes) e Tiffany (criando experiências como cafeterias) estão se adaptando para renovar seu público e manter a relevância.

O Futuro: Inteligência Artificial, Geração Alpha e o Equilíbrio dos Pratos

Bianca acredita que as próximas gerações (Geração Z e Alpha) serão nativas digitais e viverão em um mundo ainda mais acelerado, com entregas por drone, carros voadores e compras feitas por assistentes virtuais. No entanto, ela torce para que esses avanços venham com mais saúde mental e equilíbrio do que a geração anterior teve. O papel dos pais é fundamental para filtrar o excesso de informações e ensinar valores como frustração, conquista e essência.

Ela observa que suas filhas, mesmo sem poder fazer unha, já conhecem marcas como Risqué e OPI. As crianças de hoje estão bombardeadas por informações sobre bolsas, cosméticos e tendências, e cabe aos adultos ajudar a navegar nesse mar de estímulos. Bianca conclui que o verdadeiro desafio é o equilíbrio de pratos: manter uma mente tranquila, um coração alegre e a essência inabalável, enquanto se acompanha as mudanças inevitáveis do mercado e da tecnologia.

Mensagem Final: Não Perca a Sua Essência

Para encerrar, Bianca deixou uma mensagem poderosa: conheça a si mesma e lute para continuar sendo quem você é. Em um mundo extremado, onde as pessoas amam ou odeiam sem meio-termo, manter a essência é um ato de resistência e o verdadeiro legado que se deixa. Ela agradece a Fran Francesque pela parceria e transformação mútua, e reforça que a transparência e a verdade, embora às vezes dolorosas, são os caminhos mais sustentáveis.

A conclusão é que, seja no futebol, no consumo de luxo, na consultoria ou na vida pessoal, quem se mantém fiel à sua essência e ouve atentamente o consumidor (seja ele um torcedor, um cliente ou um filho) terá mais chances de navegar com sucesso pelas águas turbulentas do século XXI.