Fran Franceschi #64| Estilo, Tendências e Identidade com Sylvain Justum

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Introdução: Silvian Justum e a Moda com Alma e Propósito

Neste episódio do podcast da Fran Francesque, recebemos um dos mais respeitados e criteriosos jornalistas de moda do Brasil: Silvian Justum. Editor da renomada Forbes Life Fashion, Silvian compartilhou sua fascinante trajetória, que começou nos bastidores da revista VOG e hoje o coloca como uma referência em análise de tendências, comportamento de consumo e, acima de tudo, essência. Com um olhar apurado que mistura sua herança francesa com a brasilidade, ele nos guia por uma reflexão profunda sobre o momento atual da moda, o valor do tempo, a convivência entre o digital e o impresso, e a importância de absorver o presente.

As Origens no Jornalismo: Da Publicidade aos Bastidores da VOG

Silvian Justum iniciou sua carreira em uma época em que o mercado de moda brasileiro era completamente diferente. Na virada dos anos 80 para os 90, as opções profissionais se resumiam basicamente a ser estilista ou executivo de marca. Sem aptidão para nenhum dos dois, ele optou por cursar Publicidade na Casper Líbero, em São Paulo. Foi durante a faculdade que ele testemunhou o nascimento de uma nova cena: nomes como Alexandre Herchcovitch começaram a pipocar, e eventos como o Morumbi Fashion (precursor do São Paulo Fashion Week) ganhavam forma.

A grande virada aconteceu por uma coincidência familiar. Sua mãe começou a namorar o pai de um stylist que trabalhava como assistente de produção na revista VOG. Quando surgiu uma vaga, Silvian foi incentivado a se candidatar. Morando na casa da mãe e com as contas pagas, ele tinha condições de arriscar. Largou o emprego estável (mas odiado) como contato comercial em uma revista de decoração e tornou-se assistente de produção na VOG, uma função que envolvia desde crepado de sapatos até carregar sacolas, mas que foi sua porta de entrada para o universo da moda.

O Aprendizado na Prática e o Primeiro Contato com a Imagem

Na VOG, Silvian teve um mentor fundamental: Giovan Frasson, diretor de moda da época. Frasson o levou para trabalhar em frilas, incluindo desfiles do São Paulo Fashion Week, catálogos e campanhas. Silvian atuou como seu assistente por um tempo, aprendendo na prática a produzir imagens, editoriais e desfiles. Foi uma escola intensa focada em imagem, pois o jornalismo e a escrita só viriam a se desenvolver cerca de 10 anos depois. Essa base prática nos bastidores é o que dá a ele, até hoje, uma visão privilegiada e detalhista de toda a cadeia da moda.

A Evolução para a Escrita e o Comando da Forbes Life Fashion

A escrita entrou na vida de Silvian através de Lilian Pacce, que lhe deu as primeiras oportunidades para cobrir o São Paulo Fashion Week no jornal O Estado de S. Paulo. Depois, ele passou pela RPRAAS Bazaar como editor de moda de texto. Sua habilidade com a palavra, no entanto, tem uma origem peculiar: o colégio francês, onde as dissertações e a construção estruturada de textos eram rigorosamente cobradas. Essa base o acompanhou e aflorou na prática profissional.

Atualmente, Silvian é diretor de redação da Forbes Life Fashion, uma publicação do grupo Forbes no Brasil, voltada para moda e lifestyle, que sai duas vezes por ano. A diretora geral é Donata Meirelles, com quem ele já havia trabalhado nos tempos de VOG, e ele integra o time desde a primeira edição. Na revista, ele divide seu tempo entre escrever algumas matérias e, majoritariamente, editar textos de colaboradores. Seu toque pessoal é garantir que cada texto converse com o universo da publicação, selecionando criteriosamente os profissionais certos para cada tema.

Essência, Autenticidade e a Coesão das Marcas

Um dos temas centrais da conversa foi a essência. Silvian acredita que, por mais que as pessoas evoluam, amadureçam e mudem suas prioridades ao longo da vida, a essência permanece a mesma. Para ele, sua essência está no lado humano — a preocupação com as pessoas envolvidas em cada projeto. Ele afirma que não se faz nada sozinho, e que é crucial que as pessoas estejam felizes e acreditem na marca para que o trabalho funcione.

No trabalho de consultoria para marcas, Silvian busca justamente entender essa essência. Ele procura saber quem é o cliente, como ele se comporta, onde vive, e qual é o seu estilo de vida. A partir daí, ele lapida o tom da escrita, da fala e as ideias de pauta para criar uma coesão dentro do universo da marca. Ele descreve seu estilo pessoal como clássico, mas com um twist — um elemento de surpresa que evita o datado e o careta. Essa filosofia é aplicada a todos os trabalhos que realiza, sejam para marcas, eventos ou a própria revista.

O Luxo no Século XXI: Tempo, Experiência e a Busca pela Pausa

Questionado sobre o que é luxo hoje, Silvian é categórico: tempo. Em um mundo acelerado, onde as pessoas estão o dia inteiro conectadas e muitas vezes à beira do burnout, o verdadeiro luxo é ter tempo para cuidar de si internamente, para ler um livro, para não responder mensagens após um determinado horário, e para estar com quem se valoriza. Ele exemplifica que o impresso, especialmente uma revista semestral como a Forbes Life Fashion, oferece justamente essa pausa — um respiro em meio ao caos digital.

Silvian observa que vivemos uma onda de wellness, autocuidado e espiritualidade, como uma consequência natural do ritmo insano. As marcas estão percebendo isso e se associando a causas como literatura (resgatando o livro físico), esporte (como a collab da Loewe com corrida) e bem-estar. Para ele, a marca que apenas empurra o consumo frenético pode até estar bem agora, mas terá um prazo de validade menor. Quem ganhará será aquela que entender o movimento ao redor de seus clientes e se adaptar, oferecendo o que eles nem sabem que precisam.

O Ego no Mundo da Moda e o Jogo de Cintura

Silvian não poupa críticas a um dos aspectos mais difíceis de sua profissão: o ego. Ele reconhece que o mundo da moda é particularmente repleto de egos, muitas vezes sem corresponder ao talento. Ele afirma que não se importa de trabalhar muito, de virar noites, de ganhar menos do que merece ou de lidar com múltiplas plataformas. Mas, se pudesse eliminar uma coisa da sua profissão, seria o ego, pois é a parte mais complicada. Lidar com pessoas é necessário e gratificante, mas cada pessoa vem com seus respectivos egos, às vezes exacerbados.

A solução, segundo ele, é o jogo de cintura e a maturidade para escolher as batalhas. Aprender a não embarcar no ego alheio, evitar bater de frente quando não leva a lugar nenhum, e simplesmente deixar para lá. Ele afirma que uma das vantagens da maturidade é poder olhar para uma situação e decidir que não vale o desgaste, preferindo tocar o barco. Essa habilidade é essencial para sobreviver e prosperar em um ambiente onde a imagem e a vaidade andam de mãos dadas.

O Conflito (e a Harmonia) Entre o Digital e o Impresso

Silvian traz uma visão equilibrada e realista sobre a relação entre o digital e o impresso. Ele lembra que houve um desespero inicial, com a previsão de que o digital acabaria com tudo — influenciadores acabariam com jornalistas, e o digital mataria o impresso. No entanto, ele acredita que essa fase já passou. As duas mídias estão caminhando para uma convivência harmoniosa, onde uma complementa a outra, em vez de disputar espaço.

Ele argumenta que o impresso, especialmente uma revista semestral, não deve brigar com a urgência do digital. O furo de reportagem não vai mais para o papel, e sim para os sites e redes sociais. O desafio do impresso, então, é criar histórias que durem — conteúdos perenes, com análises aprofundadas, personagens e entrevistas que continuem relevantes seis meses depois. A Forbes Life Fashion, por exemplo, foca em dicas de viagem, moda atemporal e entrevistas com personalidades, garantindo que a revista não fique desatualizada rapidamente.

A Experiência Traumática com a Capa de Marília Mendonça

Um exemplo dramático da diferença entre os tempos do digital e do impresso foi narrado por Silvian: na primeira edição da Forbes Life Fashion, uma das capas seria com Marília Mendonça, Maiara e Maraísa (As Patroas). Quando a revista já estava indo para a gráfica, o avião da cantora caiu. A equipe teve que decidir rapidamente o que fazer. A solução foi transformar a pauta em um tributo, substituir a capa de grupo por uma foto solo de Marília, e reposicionar o texto como uma homenagem na abertura da seção. Foi um susto que ilustra como o impreso precisa, às vezes, se adaptar em cima da hora, torcendo para que dê tempo antes do fechamento.

A Nova Geração e a Sabedoria de Subir Degraus

Silvian também reflete sobre as diferenças geracionais. Ele observa que as novas gerações (Z e Alpha) já nascem imersas no digital, com uma velocidade de processamento muito maior. No entanto, ele não vê isso como uma ameaça, mas como uma oportunidade de troca. Os jovens são os radares que trazem ideias novas, formatos e sugestões de pauta. Já os mais experientes têm a vivência para colocar no trilho, evitar erros já cometidos e dar profundidade aos assuntos.

Ele faz questão de valorizar a experiência de subir degrau por degrau. Começar como assistente de produção, carregando sacolas e crepando sapatos, lhe ensinou lições que nenhum atalho poderia oferecer. Ele aconselha os mais jovens a terem paciência, a passarem por diferentes plataformas — impresso, TV, podcast, digital — e a aprenderem com cada uma. Cada nova mídia exige um timing, uma profundidade e uma desenvoltura diferentes, e essa bagagem múltipla é o que forma um profissional completo e resiliente.

Mensagem Final: Absorva o Momento Presente

Para encerrar, Silvian deixou uma mensagem poderosa: absorva o momento em que você está. Ele aconselha que as pessoas sejam como esponjas, absorvendo tudo o que o trabalho, a vida, as pessoas e as relações têm a oferecer. Ele critica o frenesi da nova geração, que descarta o que aconteceu ontem em busca do novo, e afirma que é olhando para trás que se adquire bagagem para olhar para frente.

Silvian conclui que é melhor se arrepender de ter tentado e vivido algo do que se arrepender de não ter tentado. O verdadeiro carpediem está em prestar atenção no presente, aprender com os detalhes do dia a dia, e confiar que, daqui a 10 ou 20 anos, tudo terá seu valor. Essa filosofia, que ele aplica tanto à moda quanto à vida pessoal, é o que torna seu trabalho tão autêntico e sua visão tão respeitada.