Introdução: Raquel Curi Guerra e a Versatilidade no Empreendedorismo
No dinâmico cenário empresarial brasileiro, poucas histórias são tão inspiradoras e multifacetadas quanto a de Raquel Curi Guerra. Em uma conversa profunda no podcast da Fran Francesc, Raquel, que é COO da RM2 (uma gráfica de embalagens), investidora da Billboard Brasil e sócia da marca de moda GARNÔ, compartilhou sua jornada singular. Este artigo detalha os principais aprendizados da transcrição, explorando como ela concilia uma rotina agitada, a maternidade, o autocuidado e a expansão de múltiplos negócios, sempre guiada pelo autoconhecimento e pela intuição.
Com uma trajetória que começou aos 16 anos na indústria gráfica do avô, Raquel construiu um império que hoje fatura milhões, mas nunca perdeu de vista o que realmente importa: a energia, o propósito e a capacidade de se reinventar, inclusive na churrasqueira. A seguir, dividimos sua história em tópicos principais, oferecendo um roteiro detalhado para quem busca inspiração no empreendedorismo feminino.
As Origens na Indústria Gráfica e a Formação de uma Holding
A base de toda a trajetória de Raquel está na indústria gráfica familiar. Começando a trabalhar muito cedo, aos 16 anos, ao lado do irmão (que tinha 14), ela aprendeu na prática os valores do chão de fábrica. A empresa, que existe há 64 anos (completando 65 em 2025), foi o grande berço do seu desenvolvimento profissional. Diferente de uma imposição, o envolvimento com o negócio veio da paixão observada nos pais, provando que "a paixão move e o amor transforma".
Ao longo dos anos, a expertise foi sendo moldada, e o que era apenas uma gráfica se transformou em uma holding que atende múltiplos segmentos. Hoje, a RM2 não se limita a embalagens; ela oferece um universo de soluções, desde comunicação visual, projetos especiais e brindes (kits promocionais) até o atendimento de grandes atacadistas como o AI Atacadista. Esta descentralização foi crucial para cada área ter seu próprio espaço, resultando em uma operação massiva com uma fábrica de 2.000 metros quadrados, duas unidades e 150 funcionários.
A Necessidade que Gerou Oportunidade na Pandemia
Um ponto crucial da trajetória foi a capacidade de se reinventar durante a pandemia. Quando um dos seus fortes segmentos – a comunicação visual para home centers – foi completamente paralisado devido ao fechamento do comércio, Raquel e seu irmão tiveram que agir rápido. A pergunta que fizeram foi: "Quem está comprando?" A resposta foram os restaurantes.
Usando a premissa do que sempre souberam fazer de melhor (imprimir, cortar e colar), eles redirecionaram a operação. Esta necessidade gerou uma oportunidade de ouro. Atualmente, esse segmento representa de 30% a 35% do faturamento, e a previsão é que chegue a 40%, consolidando a RM2 como uma referência também neste nicho. É a prova viva de que, mesmo em meio a uma "desgraça" ou fatalidade, é possível encontrar um novo caminho de crescimento.
Billboard Brasil: O Encontro da Indústria com o Entretenimento
A entrada de Raquel no universo da Billboard Brasil aconteceu de forma orgânica, através de um cliente. Fátima Pissarra, CEO da Mind, quis trazer a revista para o Brasil e convidou Raquel para ser sócia. Diferente de um investimento isolado, a Billboard entrou na vida de Raquel como um vetor de "traqueamento" (network e visibilidade) para o seu próprio negócio. Ela é responsável pela impressão da revista e atua como sócia investidora, provando que as conexões comerciais podem abrir portas para mercados totalmente distintos, como o da música e do entretenimento.
GARNÔ: Da Cliente Fiel à Sócia Estrategista de Expansão
Talvez um dos cases mais interessantes de reinvenção e fidelidade seja a entrada de Raquel na marca de moda GARNÔ. A relação começou há 15 anos, quando ela se tornou cliente. O que a atraiu foi a praticidade: em uma rotina agitada, ter roupas que a atendem em todos os compromissos do dia e a malinha entregue em casa revolucionou sua gestão de tempo. Durante a pandemia, essa solução se tornou ainda mais essencial, eliminando a necessidade de sair para comprar.
A virada de chave aconteceu quando, em um evento da marca, Raquel descobriu que uma das sócias estava saindo. Movida pela intuição e pelo amor à marca (visto que todo mundo sempre falava "você é a cara da GARNÔ"), ela fez uma proposta de compra. No entanto, impôs uma condição: ela entraria na sociedade com um propósito claro de cuidar da expansão e de novos negócios, deixando a parte criativa para a sócia majoritária, Graciana. Agora há quase um ano na sociedade, Raquel aplica sua expertise comercial de quase 30 anos para alavancar a marca.
Os Canais de Venda e a Experiência de Varejo
Sob a gestão de Raquel, a GARNÔ opera hoje com três canais de venda: o site, as multimarcas (com planos de expandir para Curitiba) e a loja física localizada na Rua Joaquim Antunes, 151, em São Paulo. Estudiosa do varejo (frequentadora da feira NRF há 4 anos), ela está reformando a loja para torná-la mais aconchegante, aproveitando o movimento de retorno das pessoas às compras físicas pós-home office. A meta é criar uma experiência única que una o conforto à praticidade, pilares da marca.
Equilíbrio, Autocuidado e a Constância nos Treinos
Com uma rotina que envolve três empresas, dois filhos e viagens constantes (como a São Paulo-Curitiba), o autocuidado é tratado como prioridade, mas sem rigidez. Raquel é categórica ao dizer que não treina muito, mas treina há muito tempo. Desde os 15 anos (hoje com 43), ela manteve a constância: "Não precisa acelerar, é só não parar".
Ela explica que o segredo não é ter horas na academia, mas sim o autoconhecimento para saber o que lhe faz bem. A atividade física, para ela, libera dopamina, gera bem-estar e, crucialmente, dá energia. Em momentos de correria (como início do ano), ela reduz o tempo de treino, mas nunca o elimina. A mensagem é clara: o tempo não se tem, ele se cria através de escolhas conscientes, seja acordando mais cedo ou ajustando as expectativas sobre o que é possível realizar em um dia.
A Maternidade Real: Inegociáveis, Adaptação e Autenticidade
Ao abordar a maternidade dos dois filhos, Antônio (12) e Vitória (10), Raquel oferece uma visão refrescante e realista, longe dos padrões de perfeição. Ela estabeleceu inegociáveis que define como seus rituais de amor: acordar os filhos com beijo e abraço, tomar café da manhã com eles e escrever mensagens nos pratinhos (mesmo que as crianças reclamem da caneta que mancha o ovo). A persistência nesses rituais fez com que, hoje, eles a cobrem se algo falta.
Por outro lado, ela admite que chega atrasada na escola, não pode acompanhar todos os compromissos de natação (eles são atletas federados) e, por ser separada com guarda compartilhada, depende de uma rede de apoio (staff, mãe, amigos, e o ex-marido Eduardo). Quando seus filhos questionaram o atraso, ela foi direta: "Essa é a mamãe. Essa é a minha vida." A lição é que não adianta tentar equilibrar todos os pratinhos ao mesmo tempo; quando um está em dia, outro está faltando (como a sobrancelha ou uma reunião). A conta sempre chega, e a maturidade ensina a hora de parar e redirecionar a energia.
O Churrasco como Ferramenta de Conexão e Reinvenção
Em um dos momentos mais inusitados e simbólicos da entrevista, Raquel revela que comanda a churrasqueira. Após a separação, ela precisou aprender a fazer churrasco porque as crianças queriam. O que começou como uma necessidade virou um ritual familiar poderoso. Hoje, os filhos a ajudam a acender o fogo e preparar a carne.
Esse episódio serve como uma metáfora para toda a sua vida profissional: "Quando uma coisa não dá certo, a gente tenta de outro jeito." A churrasqueira representa a resiliência e a capacidade de unir a família em torno de uma solução criativa. Raquel brinca que as clientes a ameaçam bloquear nos fins de semana por causa das fotos de churrasco, mas o que fica é o orgulho de ter transformado um desafio em um momento de união e leveza.
Ferramentas e Filosofia de Gestão: Inteligência Artificial e Intuição
Para gerenciar tamanha demanda, Raquel recorre à inteligência artificial como sua grande aliada. Ela usa a IA para estruturar escopos de eventos (como os da GARNÔ) durante o trajeto de carro, otimizando seu tempo precioso. No entanto, a tecnologia é uma ferramenta, não o guia. O verdadeiro norte, segundo ela, é a intuição.
Ela aconselha: "Aprenda a se conhecer, ache a sua intuição e vai pra frente." Cada vez que seguiu sua intuição, deu certo. Sua filosofia de gestão envolve fazer o que tem que ser feito, com amor, e fazer direito. Para ela, o amor transforma, dá força e permite a reinvenção, seja nos negócios ou na vida pessoal, como exemplificado pela superação da perda do pai quando a filha tinha apenas 30 dias de vida.
Mensagem Final: O Amor Transforma e o Resultado Vem
Encaminhando-se para o final do podcast, Raquel deixou uma mensagem poderosa para os ouvintes. Ela acredita que não existe um único "certo"; o certo é aquilo que te faz bem. Se você ouvir o que te faz bem e seguir firme naquele propósito, o sucesso virá, independentemente da definição que você dê a ele.
A reflexão final conecta todos os pontos: seja na RM2, na Billboard ou na GARNÔ, a essência é a mesma. Persistência nos rituais (como o café da manhã), coragem para assumir a churrasqueira ou um novo negócio na pandemia, e a força que vem do amor. Quando você se propõe a fazer algo, faça direito, pois o trabalho sempre devolve. Esta é a fórmula de Raquel Curi Guerra: uma mistura de chão de fábrica, sofisticação, mãe presente (apesar dos atrasos) e uma executiva que usa vestidos da própria loja para fechar grandes negócios.