EP.02 - 1/3: A vida real e os desafios de quem escala um ecommerce | Pílulas de estratégia

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A Origem do Empreendedor: Das Dificuldades Financeiras ao Primeiro Negócio Digital

Gabriel Bólico, CEO e fundador do e-commerce puro, iniciou sua jornada empreendedora em 2009, em um momento de extrema dificuldade familiar. Seu pai, um empreendedor serial, havia tido uma peixaria e um bar que não deram certo, mas conseguiu manter a família por 10 anos com uma gráfica de sucesso. No entanto, com a chegada das gráficas digitais, o negócio do pai foi drasticamente afetado, forçando a venda do maquinário. Em uma tentativa de se reinventar, seu pai abriu uma copiadora em Araucária (PR), mas o negócio fracassou porque a família não entendia o produto – uma lição que Gabriel considera valiosa até hoje: se você não entende do produto, fica muito mais difícil vendê-lo. Foi nesse cenário de perda da reserva financeira construída ao longo de uma década que Gabriel decidiu sair da zona de conforto. Ele uniu duas paixões – videogames e internet – e começou a comprar e vender produtos no Mercado Livre. Ele jamais imaginou que, 16 anos depois, sua operação se tornaria top 1 no Mercado Livre e atingiria múltiplos milhões em vendas. A principal lição dessa fase é: não há crescimento fora da zona de conforto.

O Digital como Ambiente Democrático e Seguro para Começar

Gabriel destaca que não existe lugar mais seguro e econômico para começar um negócio do que o digital. Enquanto um negócio físico exige investimentos pesados em aluguel, reforma, funcionários (mesmo antes de vender), internet e luz por meses, o digital permite anunciar e potencialmente vender um produto no mesmo dia. Ele ressalta que, no início, vendia produtos sem ter estoque: anunciava, vendia, corria para comprar e enviava. Essa estratégia só foi possível graças aos marketplaces, que democratizaram o acesso às vendas online. A mensagem de Gabriel é clara: o digital é a maneira mais segura e democrática de empreender. Não é fácil – é competitivo – mas estudando e aplicando boas práticas, não há lugar mais promissor do que o ambiente digital hoje em dia.

Liderança e Delegação: O Desafio de Vender o Sonho para o Time

Thiago Dalve questiona Gabriel sobre um dos maiores desafios dos empreendedores: a transição de fazer tudo sozinho para delegar e confiar em um time. Gabriel inicia sua resposta destacando a jornada solitária do empreendedor, mas rapidamente expande o conceito de 'venda' para além do consumidor final. Ele explica que um empreendedor precisa vender sua visão para múltiplos públicos: fornecedores (para que acreditem no brilho do seu olho), parceiros, canais de venda e, o mais difícil de todos, o próprio time. Para Gabriel, a liderança exige que o empreendedor esteja todos os dias lembrando o time sobre o que está sendo construído, valorizando o presente e exaltando as conquistas do passado, sem jamais perder de vista o horizonte maior. Ele diferencia gerenciar (que se baseia em KPIs) de liderar (que é inspirar), e afirma que sem essas duas coisas não é possível formar um time sólido. Thiago complementa que a liderança também passa por ser um grande exemplo, estar próximo do time, celebrar conquistas e compartilhar desafios. Ele admite que suas primeiras contratações vieram acompanhadas de insegurança, mas que ao encontrar pessoas que fazem melhor do que você, o negócio deslancha e passa a independer da sua presença em todas as reuniões.

Competindo no Oceano Vermelho: Subindo a Barreira com Diferenciais Criativos

Gabriel conta que o mercado de videogames sempre foi um 'oceano vermelho' – altamente competitivo. No entanto, ele refuta a crença limitante de que é preciso ser o top 1 do mercado. Sua estratégia foi: focar em subnichos e subir a barreira com as cartas que tinha na manga. Sendo de Araucária (cidade vizinha a Curitiba), ele observou que a associação comercial local fazia campanhas para incentivar as compras na cidade. Gabriel fez o oposto: fez com que pessoas de Curitiba viessem até Araucária para comprar com ele, porque seu produto era desejado, sua comunicação era boa e ele recebia estoques um pouco antes dos concorrentes. Além disso, durante muitos anos, ofereceu delivery por motoboy com máquina de cartão, entregando jogos em poucas horas – algo que hoje é comum, mas na época foi um grande diferencial. A meta inicial não era ser o maior do Brasil, mas sim ser o maior de Curitiba. Mais tarde, conseguiu fechar contrato direto com a PlayStation, tornando-se uma das sete lojas no Brasil autorizadas a vender o PlayStation 5 oficialmente, pulando a camada de distribuição – um feito que nenhuma outra loja de videogames 'raiz' (de um empreendedor que começou do zero) havia conseguido até então.

Atendimento Personalizado e Comunidade como Vantagens Competitivas

Gabriel identifica dois diferenciais fundamentais que o ajudaram a competir com gigantes como Americanas, Magalu e Amazon. O primeiro é o atendimento. Enquanto grandes varejistas não conseguem responder rapidamente no WhatsApp devido à demanda gigantesca, Gabriel garantia respostas em minutos. O segundo é o foco em comunidade. Ele sempre preferiu ações com microinfluenciadores (10 a 1.000 seguidores) com público altamente engajado ao invés de influenciadores com milhões de seguidores e público pulverizado. A base de clientes da Shop B era engajada, qualificada e baseada em respeito. Gabriel afirma que não mudou esse pensamento até hoje, e para o e-commerce puro (seu novo negócio), seu grande foco para 2025, 2026 e 2027 é exatamente construir uma comunidade rica de empreendedores.

Estratégia de Go to Market: Ganhe Sua Rua Antes de Conquistar o Brasil

Thiago Dalve sintetiza os aprendizados da conversa em dois pontos fundamentais. O primeiro é que experiência do cliente ainda é um grande diferencial, mesmo em produtos comoditizados. Se você entrega uma experiência superior, você se destaca. O segundo é geográfico e estratégico: você não precisa dominar o Brasil de cara. Thiago usa o conceito sofisticado de go to market para explicar que o empreendedor deve primeiro 'ganhar a sua rua', depois seu bairro, sua cidade, seu estado, e só então pensar em competir nacionalmente. Da mesma forma, em termos de produto, comece ganhando um subnicho, depois um nicho, uma subcategoria, a categoria inteira, e só então expanda para outros verticais. A trajetória de Gabriel Bólico é a prova viva de que, com foco, diferenciais criativos e uma estratégia de crescimento bem definida, é possível competir e vencer até nos mercados mais disputados.