Inteligência Artificial: O Momento da Eletricidade e o Potencial de Transformação
Alex Chapiro inicia sua análise sobre as tendências de investimento fazendo uma analogia poderosa: o momento atual da Inteligência Artificial é comparável à descoberta da eletricidade por Thomas Edison. Naquela época, todos estavam empolgados, mas ninguém conseguia imaginar a magnitude total da transformação que a eletricidade traria – de telefones como o iPhone à televisão e aos carros elétricos. De forma similar, a IA está apenas no início de sua história. O que mais empolga Chapiro é a capacidade das empresas de lidar com a enorme quantidade de dados que circulam e de usar isso para ajudar seus clientes. Ele enfatiza que o grande jogo será saber trabalhar com esses dados, seja na área de pagamentos, contas a pagar e a receber, ou na automação de processos. O objetivo não é necessariamente diminuir o número de pessoas, mas sim realocar talentos que faziam trabalho repetitivo para funções mais estratégicas que gerem mais receita para a empresa.
Automação e Produtividade no Atendimento: O Caso Blip
Chapiro destaca o investimento do SoftBank na Blip, uma plataforma de WhatsApp que se conecta a empresas para resolver problemas de comunicação com clientes. Ele explica que a Blip vai muito além de um simples canal de atendimento. A empresa é capaz de automatizar mais de 500 processos de uma grande operadora como a Claro, que envolvem desde a solicitação de devolução de equipamentos até o agendamento de visitas técnicas. Com isso, a operadora reduz seus custos e o consumidor ganha em agilidade e conveniência. Conforme os consumidores interagem com a empresa, o próprio sistema de IA vai aprendendo e se aprimorando continuamente, criando um ciclo virtuoso de melhoria. Thiago Dalve complementa o exemplo contando que a Olist colocou em produção uma IA de atendimento treinada com mais de 1 milhão de tickets de suporte ao longo de uma década. Ele ressalta que a tecnologia permite calibrar o tom da resposta (se mais feliz ou mais engajado) e garantir um nível de consistência e profundidade difícil de alcançar com seres humanos, especialmente em áreas de suporte onde o turnover é alto. A IA se torna um catalisador que amplia o impacto e a eficiência do atendimento, ao mesmo tempo que permite treinar humanos mais rapidamente.
O Futuro do Varejo com Agentes de IA: Entre a Automação e o Comportamento Humano
Ao ser questionado sobre o impacto da IA no varejo, Alex Chapiro adota uma postura equilibrada. Ele lembra de uma lição de Jeff Bezos: é importante ficar de olho nas coisas que vão mudar, mas é mais importante ainda focar naquelas que não vão mudar. Bezos sempre afirmou que o cliente nunca vai querer receber o produto de maneira mais lenta, pagar mais caro ou entrar no site e não encontrar o que procura. Com isso em mente, Chapiro expressa cautela em relação aos agentes de compra automatizados. Ele acredita que muitas coisas serão resolvidas pela IA, mas adverte que não se pode esquecer do componente humano do comportamento de compra. Pessoas gostam de ir à loja, olhar, tocar, descobrir produtos novos – como no exemplo do supermercado, que para ele é um passatempo. Ele critica a visão reducionista de que um agente de IA simplesmente receberá um comando de compra e encontrará o preço mais barato, algo que já existia com buscadores de preços. Para Chapiro, o futuro será um meio-termo entre o que é automatizado e o que o consumidor ainda vai querer fazer manualmente. Ele não tem a resposta definitiva sobre para qual lado a balança penderá, mas alerta que tirar o consumidor da jogada pode ser um erro, pois parte do processo de compra envolve decisões que ele quer participar. Em tom de humildade, ele admite que pode estar errado e que em dez anos sua visão pode se provar totalmente equivocada.
A Integração entre Canais Físicos e Digitais
Alex aproveita para relativizar previsões apocalípticas sobre o varejo. Anos atrás, muitos profetizaram o fim do varejo físico com a ascensão do e-commerce. Mais recentemente, com o boom da Netflix e o fechamento de cinemas na pandemia, muitos anunciaram o fim do cinema. No entanto, a realidade mostrou que ambos os canais coexistem e até se complementam. Ele observa que as pessoas continuam indo a lojas físicas para ter experiências, provar produtos, fazer descobertas e criar uma percepção de valor da marca. Ao mesmo tempo, o e-commerce é uma extensão natural desse ecossistema. O problema ocorre quando há dissonância entre os canais – como um cliente que vê um preço mais barato no site e não consegue usufruir da mesma oferta na loja física, o que representa uma falha na obsessão pelo cliente (ou 'can obsession'). A conclusão de Chapiro é que o varejo não está chegando ao fim, mas sim evoluindo para múltiplos canais e formas de interação. A característica mais importante para navegar nessa mudança – seja ela impulsionada pela IA ou por qualquer outra tecnologia – é a capacidade de evoluir e se ajustar.
O Mercado de Investimentos: O Que Mudou e O Que os Empreendedores Precisam Saber
Diante da pergunta sobre o cenário atual para captação de recursos, Alex Chapiro faz uma distinção fundamental entre diferentes estágios de maturidade. Ele explica que o ecossistema brasileiro hoje atende a todos os segmentos, desde o early stage (empresas que estão começando, como sementes sendo plantadas) até o growth stage (empresas que já têm alguns anos e já provaram seu modelo de negócio), que é o foco do SoftBank. Para o early stage, ele identifica os critérios mais críticos. O primeiro e mais importante é o time – sua capacidade de interagir bem e de se adaptar, pois certamente o modelo de negócio vai mudar três ou quatro vezes ao longo da jornada. Alguns fundos chegam a fazer uma diligência profunda sobre os fundadores, ligando para pessoas que conviveram com eles (inclusive para ex-funcionários que foram desligados) para entender seu perfil psicológico e como lidam com adversidades.
Tamanho do Mercado e o Papel do Venture Capital
O segundo critério fundamental é o tamanho do mercado. Chapiro adverte que nem todo negócio tem razão para receber dinheiro de venture capital. O capital de risco precisa ter uma equação clara de investimento e desinvestimento – seja por meio da venda para um comprador estratégico, seja por um evento de liquidez na bolsa de valores. Ele recomenda que empreendedores com negócios menores, que crescem de forma consistente 25-30% ao ano com margem EBITDA sólida, reconsiderem a necessidade de venture capital. Para esses casos, pode fazer mais sentido buscar linhas de financiamento em bancos ou simplesmente continuar com o crescimento orgânico. O venture capital se justifica quando a empresa precisa queimar dinheiro no curto prazo para acelerar o crescimento, construir produto, ganhar competitividade e 'dar uma cotovelada' no status quo da indústria. O nome 'venture' remete a uma aventura bem pensada, onde todos os envolvidos acreditam que, após um período de investimento pesado (queimando dinheiro para provar o modelo), a empresa alcançará unit economics positivos, melhorará suas margens, ganhará escala e finalmente gerará lucro. A aceleração geralmente envolve antecipar capital para investir em time e tecnologia, com a expectativa de que o retorno venha ao longo da vida do cliente.
Tecnologia como Capacitação e Não Mais como Diferencial
Por fim, Chapiro menciona a tecnologia como um terceiro pilar de avaliação. Ele observa que a tecnologia, por si só, já não é mais um diferencial competitivo, mas sim um requisito básico. O que faz a diferença é a capacidade do time de codificar, de contratar tecnologia de fora, de escolher as ferramentas certas (seja de RP, seja de automação) e de integrar tudo de forma eficiente. Em um mercado competitivo, a empresa que souber equacionar bem esses aspectos terá uma chance real de sair na frente.
Conselhos Finais: Gerenciamento do Ego e Curiosidade Contínua
Para encerrar, Alex Chapiro compartilha os dois conselhos mais valiosos que aprendeu em sua trajetória. O primeiro é: aprenda a lidar bem com o seu ego. Se você não lida bem com o próprio ego, sua vida profissional será muito estressante. Haverá momentos em que você estará por baixo e momentos em que estará por cima, mas é essencial lembrar que você é apenas um pequeno componente dentro de uma engrenagem maior. O segundo conselho é a capacidade de escutar, perguntar e ser curioso. Chapiro se define como uma pessoa extremamente curiosa – sempre que alguém lhe fala algo, ele vai pesquisar, gastar tempo para entender. Ele acredita que a curiosidade está intrinsecamente ligada à educação contínua. O modelo antigo de fazer uma faculdade de 3 ou 4 anos e parar de estudar morreu. Hoje, seja de maneira formal ou informal, é preciso estar sempre aprendendo, sempre aberto a pesquisar coisas novas. Essa combinação de humildade (para gerenciar o ego) e curiosidade incessante foi o que trilhou o caminho de sucesso de Alex Chapiro.