"É conversando que a educação acontece! A educação nasce do diálogo" #01 ALFA-EJA Transforma Brasil

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Seja bem-vindo ao resumo do primeiro episódio do podcast Alfa-EJA Transforma Brasil, intitulado "É conversando que a educação acontece! A educação nasce do diálogo". Este projeto inédito é fruto de uma poderosa parceria entre o Instituto Paulo Freire e a Petrobras, e tem como objetivo central debater as bases e as práticas da Educação de Jovens e Adultos (EJA) sob a ótica libertadora do inesquecível educador brasileiro, Paulo Freire. O episódio é mediado por Paulo Roberto Padilha e conta com as ilustres presenças de dois diretores do Instituto Paulo Freire: Moacir Gadotti e Ângela Bis Antunes.

O Encontro com o Mestre: Memórias de Gadotti e Ângela

O episódio se inicia com uma volta ao passado, resgatando a emoção dos primeiros contatos dos convidados com Paulo Freire. Moacir Gadotti, professor aposentado da USP e catarinense, relembra que sua conexão com as ideias de Freire começou em 1967, ao utilizar o livro Educação como Prática da Liberdade como base para sua tese de graduação. Na década de 1970, durante o exílio de Freire em Genebra, os dois se encontraram pessoalmente no Conselho Mundial das Igrejas, onde Freire, inclusive, participou da banca de doutorado de Gadotti. A parceria se estreitou quando Freire retornou ao Brasil na década de 1980, fundando juntos o Instituto Paulo Freire em 1991.

Por sua vez, Ângela Bis Antunes compartilha sua experiência atuando no "chão de fábrica" da educação pública. Ela teve o imenso privilégio de ser professora nas redes municipal e estadual de São Paulo exatamente no período em que Paulo Freire foi Secretário de Educação do município (com Gadotti como seu chefe de gabinete). Posteriormente, ao cursar o mestrado na USP, foi convidada por Gadotti para integrar a equipe do Instituto Paulo Freire, onde milita pela educação emancipadora há impressionantes 33 anos.

A EJA na Vida de Paulo Freire: Uma Trajetória de Luta

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) não é um mero apêndice na obra de Paulo Freire; ela é a sua espinha dorsal. Gadotti contextualiza que a relação de Freire com a EJA começou em 1946, quando ele ingressou no SESI de Pernambuco, onde atuou por dez anos. Foi no chão da fábrica, convivendo com camponeses, pescadores, quilombolas e operários, que Freire forjou a base empírica e humana que mais tarde daria origem ao seu clássico Pedagogia do Oprimido.

Em seguida, vieram as famosas "40 horas de Angicos" no Rio Grande do Norte, uma experiência de alfabetização revolucionária que projetou o método de Paulo Freire mundialmente, chamando a atenção até mesmo da UNESCO. Toda a sua jornada educacional foi dedicada a superar a visão de mundo excludente que invisibiliza a classe trabalhadora.

A Leitura do Mundo: O Alicerce da Educação Libertadora

Um dos conceitos mais potentes abordados no podcast é a Leitura do Mundo. Ângela explica de forma magistral que a educação freiriana se recusa a associar o analfabetismo à ignorância absoluta. "Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo". Mesmo o adulto ou idoso que não sabe ler as letras, sabe ler a sua realidade (o clima, a terra, o mar, as relações sociais).

Para Freire, a leitura do mundo precede a leitura da palavra. O papel do educador da EJA não é impor o seu conhecimento de cima para baixo, mas sim se aproximar criticamente do contexto e das situações significativas que condicionam a vida do educando. Alfabetizar, nesse cenário, significa problematizar a realidade do trabalhador, permitindo que ele compreenda as engrenagens de sua exclusão para que, ao aprender a ler e escrever, ele ganhe ferramentas para transformar e reescrever a sua própria história. Ler o mundo é, acima de tudo, um movimento de humanização que resgata a autoestima daqueles que a sociedade rotulou como "incapazes".

As Categorias Freirianas: Humanização, Diálogo e Conscientização

Moacir Gadotti aprofunda a discussão teórica trazendo três categorias fundantes da pedagogia da práxis:

  • Humanização: Freire entendia que vivemos em um sistema (o capitalismo selvagem) pautado na desumanização, no extermínio e na dominação. O grande objetivo da educação é combater essa hostilidade e promover a vocação ontológica do ser humano de "ser mais".
  • Diálogo: O único caminho para alcançar a humanização é através do diálogo. Diferente do autoritarismo, o diálogo exige uma relação horizontal, de igualdade e reciprocidade. Como ensinava Freire: "Entre antagônicos não há diálogo, há pacto ou conflito; o diálogo acontece entre iguais e diferentes".
  • Conscientização: Muito além de meramente alfabetizar, a conscientização (termo que Freire ajudou a popularizar a partir dos estudos do ISEB) é o despertar crítico do sujeito. E é fundamental frisar: conscientizar não é manipular ou doutrinar. A verdadeira conscientização ocorre apenas quando há respeito absoluto pela autonomia e identidade do educando.

A Práxis: Teoria e Prática Transformadora

O episódio deixa muito claro que o conceito de práxis em Paulo Freire não é apenas a soma matemática entre teoria e prática. A práxis exige que a prática seja intencional e tenha como meta inegociável a transformação social. A educação nunca é neutra; ela sempre faz uma escolha política. Como ressalta Ângela, a forma como organizamos o currículo e as relações na escola pode servir tanto para perpetuar a opressão e a humilhação quanto para promover a libertação, a solidariedade e a justiça social.

O programa é encerrado de forma belíssima e sensível com Paulo Roberto Padilha declamando (em forma de música) um trecho poético escrito pelo próprio Paulo Freire no livro Pedagogia da Autonomia. A canção, intitulada informalmente como "Não é possível", reafirma que é impossível estar no mundo sem fazer história, sem fazer cultura, sem filosofar, sem ciência e, fundamentalmente, sem educação para a liberdade.

O Projeto Alfa-EJA Brasil surge exatamente como um farol de resistência. Em um país onde mais de 70 milhões de pessoas ainda não conseguiram concluir a educação básica, a iniciativa reforça a urgência de não apenas alfabetizar, mas de consolidar uma política pública e popular de Educação de Jovens e Adultos sólida, empática e emancipadora.

O legado de Paulo Freire não foi feito para ser seguido como um dogma religioso, mas sim para ser reinventado de acordo com as necessidades do nosso tempo. O episódio 1 é um convite apaixonado para que todos os educadores assumam o compromisso ético de construir um mundo onde, nas palavras do próprio mestre pernambucano, "seja menos difícil amar".