Introdução: O Ecossistema da Música na Igreja
Neste episódio do Starling Cast, gravado diretamente da Avenida Paulista em São Paulo, o apresentador Mateus Starling recebe o guitarrista Mateus Marçal, conhecido como Mateuzinho. A conversa mergulha no ecossistema da música dentro da igreja, explorando desde a função de técnico de monitor até a direção musical e o papel do guitarrista. Mateus Marçal compartilha sua vasta experiência, tendo ocupado diferentes posições que lhe proporcionaram uma visão única sobre a dinâmica de uma banda e a importância de cada elemento no som final.
O episódio começa com uma reflexão sobre a necessidade de entender o som como um todo, não apenas o próprio instrumento. Mateus Marçal destaca que sua passagem pela função de monitor foi crucial para compreender como a guitarra se encaixa no contexto da banda, indo além da visão comum do guitarrista que acha que seu som é perfeito isoladamente. Ele também aborda sua experiência como diretor musical, uma prática que, segundo ele, muitas pessoas ainda desconhecem, e que se tornou viral em seu perfil no Instagram durante a pandemia.
A conversa também aborda a questão da remuneração de músicos e técnicos nas igrejas, com Mateus Marçal defendendo que a igreja deve remunerar aqueles que se dedicam em tempo integral e geram frutos, mas que isso não deve ser feito de forma fria, apenas para tocar. Ele enfatiza a importância de gerar discípulos e ensinar novas pessoas, em vez de apenas executar funções.
Início da trajetória e trabalho com Isadora Pompeo
Mateus Marçal, de 33 anos, natural de Limeira, interior de São Paulo, é o guitarrista que acompanha a cantora Isadora Pompeo. Ele conta que participou de seu mais recente projeto, um EP com oito canções, onde tocou todas as guitarras e contribuiu com ideias de violão. Mateus Starling elogia o trabalho de Isadora, descrevendo-a como uma cantora muito interessante.
A conversa introduz a trajetória de Mateus Marçal, que, apesar de jovem, já acumula uma vasta experiência no cenário musical gospel. Sua paixão pela música e sua dedicação o levaram a trabalhar com uma das artistas mais proeminentes da nova geração da música cristã.
Os 3 papéis no ecossistema: Monitor, Direção Musical e Guitarra
Mateus Starling pergunta a Mateus Marçal o que cada uma de suas funções (monitor, direção musical e guitarra) lhe ensinou que as outras pessoas costumam ignorar. Marçal explica que a função de monitor o ensinou a parar de olhar apenas para o que ele fazia e a entender a percepção do som como um todo. Ele aprendeu que o som não é apenas o seu instrumento, mas sim todo o conjunto da banda.
Ele ressalta que essa experiência o fez entender melhor como seu instrumento funciona dentro de um contexto, evitando a armadilha comum do guitarrista que acha que seu som é perfeito em qualquer situação. Já a direção musical era uma prática comum em sua igreja, onde alguém sempre guiava a banda. Ele começou a gravar vídeos sobre direção musical e postou, o que acabou viralizando e dando início à sua carreira de influenciador.
O vídeo viral de direção musical e bastidores na igreja
Mateus Marçal conta que seu vídeo mais viral no Instagram foi sobre a questão do metrônomo. Ele começou a postar conteúdo durante a pandemia, após ter tido um problema de saúde grave. Ele percebeu que muitas pessoas não conheciam a prática de direção musical e decidiu compartilhar seu dia a dia na igreja, mostrando bastidores, parte de som, música e o uso de VS (Virtual Soundcheck).
Ele menciona que sua igreja, a Quadrangular em Limeira, tem cerca de 6 a 7 mil membros e que ele liderava a banda de jovens. Ele introduziu o uso de metrônomo e VS, o que mudou todo o ambiente musical. Marçal também revela que, na época, era funcionário da igreja como técnico de monitor.
Igreja deve pagar músico? Voluntariado vs. Remuneração
Mateus Starling levanta a questão da remuneração de músicos na igreja, observando que a igreja costuma remunerar a parte burocrática e técnica, mas o músico é sempre o último a ser lembrado. Mateus Marçal compartilha sua visão, que pode ser polêmica: ele não acha que faz sentido a igreja contratar alguém apenas para tocar, a menos que a igreja já tenha outras áreas, como a social, bem resolvidas.
Ele argumenta que apenas contratar alguém para tocar não agrega, pois a pessoa pode não fazer parte daquele lugar e só ir pelo dinheiro. Ele defende que a remuneração deve vir atrelada a um ministério, como desenvolver um grupo de música, dar aulas e ensinar pessoas. Ele também estende esse raciocínio para técnicos de som e vídeo, que também devem ser remunerados se estiverem em tempo integral e gerando frutos.
Marçal ressalta a importância de gerar discípulos e ensinar novas pessoas, para que a igreja não dependa de uma só pessoa. Ele também menciona que, em igrejas maiores, é comum que técnicos e músicos sejam remunerados devido ao alto investimento em equipamentos e à necessidade de alguém responsável. Ele conclui que, se a igreja tem condição de bancar, deve fazê-lo, citando o exemplo da Get Church, que tem bancado vários músicos.
O caso Get Church e o investimento ministerial
Mateus Starling e Mateus Marçal discutem o caso da Get Church, que tem sido polêmico por remunerar seus músicos. Eles comparam a iniciativa com o ministério Apacentar de Nova Iguaçu, que há mais de 20 anos atrás já remunerava músicos em tempo integral e gerou frutos como o grupo Toque no Altar. Eles concluem que, apesar dos problemas que possam surgir, foi um investimento que saiu das quatro paredes e gerou resultados duradouros.
Músico cristão tocando no meio secular: Visão e limites
A conversa aborda a polêmica questão do músico cristão que atua no meio secular. Mateus Marçal admite que é uma questão difícil e que ele prefere ficar em cima do muro, entendendo que existem pessoas que acham que é pecado e outras que precisam viver disso. Ele defende que a decisão deve ser precedida de uma autocrítica profunda, analisando se o ambiente vai afetar a fé e se o dinheiro não será "maldito".
Ele enfatiza que a música dá dinheiro e pode ser a salvação de muitas pessoas, mas é preciso colocar a mão na consciência e analisar cada caso. Mateus Starling concorda, citando o versículo "nem tudo que é lícito me convém, nem tudo que é lícito edifica". Ele observa que existem linhas que, quando cruzadas, são evidentes, como tocar em palcos com apologia ao pecado.
Eles também mencionam que muitas músicas do meio secular são apenas entretenimento e não representam um problema, como as músicas românticas de Roberto Carlos. A conversa termina com a conclusão de que cada um deve analisar sua própria consciência e tomar sua decisão, sem julgar os outros.
Processos de palco e a importância da redundância
Mateus Starling pergunta sobre a importância de processos como chegada antecipada, alinhamento de fones e comunicação. Mateus Marçal responde que o dia a dia mostra que a boa vontade não substitui o processo. Ele conta que, quando era técnico de monitor, chegava horas antes do culto para checar microfones, pilhas, vias de fone e tudo mais, para evitar surpresas.
Ele enfatiza a importância da antecipação e da redundância, revelando que tem duas pedaleiras para garantir que o show não pare em caso de problema. Ele cita o exemplo de Lulu Santos, que tem três opções de equipamento. Marçal também fala sobre a importância de cuidar do equipamento e mantê-lo em ordem.
Equipamento caro falha ao vivo? O caso da Quad Cortex e HX Stomp
Mateus Marçal revela que já teve problemas com equipamentos caros, como a Quad Cortex, que apresentou um problema de cabo flat mal encaixado. Ele também menciona que a HX Stomp é propensa a problemas quando exposta a energia suja, o que é comum no Brasil.
Ele explica que a Quad Cortex foi desenvolvida na Finlândia e sofre com o calor e a umidade do Brasil. Apesar disso, ele elogia o pós-venda da Neural DSP, que já trocou pedaleiras de alguns usuários. Marçal conclui que é normal equipamentos eletrônicos falharem e que o importante é ter um plano B.
Movimento worship e a evolução da busca por timbres
Mateus Marçal fala sobre o movimento worship e como ele mudou a busca por timbres nas igrejas. Ele observa que, de uns cinco anos para cá, a galera tem se interessado muito mais por timbre, inspirada por bandas como Coldplay e U2. Ele elogia o nível de conhecimento que os músicos de igreja têm desenvolvido sobre efeitos e sonoridade.
Ele também menciona que a introdução do worship nas igrejas trouxe uma preocupação maior com o som bom, não apenas com a parte guitarrística, mas com toda a banda. No entanto, ele critica a preguiça geracional, que faz com que muitas pessoas não queiram se dedicar a aprender e desenvolver seu próprio som.
Timbre vs. Tocabilidade: O que vem primeiro?
Mateus Starling pergunta se houve uma inversão de valores, onde as pessoas se preocupam mais com o timbre do que com o desenvolvimento musical. Mateus Marçal discorda em parte, dizendo que conhece muitos músicos ruins com timbres bons e muitos músicos bons com timbres ruins. Ele acredita que deve haver um equilíbrio.
Ele explica que as músicas tocadas na igreja hoje não exigem um nível musical muito grande, mas entender linguagem, sonoridade e o que fazer exige dedicação. Ele critica a geração atual, que quer tudo rápido e não se dedica a aprender, e defende que os músicos mais velhos devem incentivar os mais novos.
Arranjos extremos: Drop de afinação digital para "Lá" em Eu Navegarei
Mateus Marçal conta sobre o arranjo da música "Eu Navegarei" para o show de Isadora Pompeo, onde ele baixou a afinação da guitarra digitalmente para Lá (sete semitons abaixo) para dar mais peso à música. Ele explica que a decisão foi tomada em conjunto com o diretor musical, que queria uma pegada mais rock, inspirada em New Metal.
Ele detalha que usa a pedaleira para fazer o drop de afinação, já que não tem uma guitarra de sete cordas. Ele também menciona que usa cordas 010 e que a afinação em Lá dá um peso maior à sexta corda, criando o som pesado desejado. Ele faz o solo mais agudo, a partir da 12ª casa, para facilitar a execução.
A evolução do rig: De pedais analógicos à revolução da Helix
Mateus Marçal fala sobre a evolução de seu equipamento, desde pedais analógicos até a Helix, que ele considera um divisor de águas em sua vida. Ele conta que era um "hater" da Helix antes de experimentá-la, mas que, ao testá-la, percebeu seu potencial e sua mente começou a "pipocar" com as possibilidades.
Ele elogia a Helix por permitir uma arquitetura aberta, onde você pode montar seu som do zero, diferentemente de outras pedaleiras que têm uma cadeia fixa. Ele também menciona que nunca teve amplificadores caros e que a Helix o ajudou a entender e simular esses sons.
Capturas, ToneX e por que capturar amps em casa pode ser uma ilusão
Mateus Marçal discute a tecnologia de captura de amplificadores (profiling), como o ToneX e o Kemper. Ele adverte que fazer capturas em casa pode ser uma ilusão, pois exige equipamentos caros, salas tratadas e muito tempo de dedicação, algo que profissionais em estúdios de alto nível fazem.
Ele elogia o ToneX, que o surpreendeu positivamente, e o Kemper, mas critica a biblioteca de presets do Kemper, que, segundo ele, não é tão interessante sem a compra de packs adicionais. Ele conclui que as capturas não são a "salvação da pátria" e que é preciso ter cuidado com o que se compra.
A verdade sobre venda de presets: Facilitador ou milagre?
Mateus Marçal fala sobre o mercado de venda de presets. Ele explica que muitos usuários se decepcionam porque acham que vão conseguir o mesmo som que ouvem nos vídeos, mas isso não acontece porque cada um tem uma guitarra, uma dinâmica e uma tocabilidade diferentes.
Ele defende que o preset serve como um facilitador, uma forma de entender como outras pessoas pensam e montam seus sons. Ele incentiva a venda de presets, pois muitos músicos complementam sua renda dessa forma, mas critica quem engana os compradores. Ele conclui que o preset é um ponto de partida para que o músico desenvolva seu próprio som.
Equipamentos que surpreenderam e decepcionaram (ToneX, Kemper e Valeton)
Mateus Marçal lista os equipamentos que o surpreenderam e decepcionaram. O ToneX o surpreendeu muito, entregando um ótimo custo-benefício. Já o Kemper o decepcionou, principalmente por causa da biblioteca de presets e da falta de flexibilidade em comparação com a Helix.
Ele também fala sobre a Valeton, uma pedaleira mais em conta que ele achou interessante para iniciantes e intermediários, pois é intuitiva e fácil de usar. Ele conclui que nenhum equipamento atende a todos e que é preciso escolher aquele que se encaixa no seu nível de conhecimento e necessidade.
Por que não usar Impulse Response (IR)?
Mateus Marçal explica por que não usa Impulse Response (IR) em seus presets. Ele conta que, depois de horas testando IRs, seu ouvido ficava fadigado e ele não sabia mais o que era bom ou ruim. Ele decidiu, então, fazer tudo com o que a pedaleira oferece nativamente, usando os gabinetes e amplificadores simulados.
Ele argumenta que não fabrica IRs e que não quer vender algo que não é seu. Ele prefere entregar um preset que soa bem com o que a pedaleira tem, e se o cliente quiser usar um IR, é uma escolha pessoal. Ele também critica a ideia de que o IR é a solução para todos os problemas de timbre.
Desvendando a cadeia de sinal (Quad Cortex + HX Stomp)
Mateus Marçal mostra sua cadeia de sinal, que combina a Quad Cortex como central e a HX Stomp como pedaleira complementar. Ele explica que usa a HX para delays e outros efeitos, pois os delays da HX soam melhores que os da Quad. Ele também usa a HX como backup, caso a Quad falhe.
Ele detalha que, na Quad, ele tem compressor, oitavador, overdrives, e o amplificador é posicionado no final da cadeia, simulando um setup físico. Ele usa a HX para efeitos como vibrato, delays e trêmulo, que são acionados individualmente. Ele também explica que usa as cenas da Quad para combinações de efeitos, mas prefere o modo stomp para ter mais liberdade.
Guitarra Petinatti, especificações e nova assinatura
Mateus Marçal apresenta sua guitarra Petinatti, feita por um luthier de Americana. Ele conta que a guitarra foi originalmente emprestada para o DVD de Isadora Pompeo, que queria uma guitarra branca para combinar com o visual. Ele acabou comprando a guitarra e hoje ela é sua principal instrumento.
Ele detalha as especificações da guitarra, que é toda no molde da Suhr Mateus, com raio de escala 91, e possui barras de carbono no braço para maior estabilidade. Ele também anuncia que em breve lançará uma guitarra com seu nome pela Seizi Guitars, com captadores Custom Anselmo.
Teste prático de timbres: Cleans, drives, modulações e afinação em Lá
Mateus Marçal faz uma demonstração prática de seus timbres, mostrando desde sons limpos até drives pesados e modulações. Ele explica que usa dois amplificadores capturados: um Joyer PRS e um Fender Bandmaster, que juntos proporcionam peso e um clean muito bom.
Ele mostra seus três estágios de overdrive, que podem ser misturados para criar diferentes texturas. Ele também demonstra o uso de vibrato, oitavador, trêmulo e delays, sempre explicando como cada efeito se encaixa no contexto da música. Ele finaliza mostrando o som com afinação em Lá, usado na música "Eu Navegarei".
O que realmente significa "furar a mix"? Cortes de frequência inteligentes
Mateus Marçal explica o conceito de "furar a mix", que, segundo ele, é um termo complicado. Ele defende que a guitarra deve ocupar o espaço que lhe é devido, sem competir com outros instrumentos. Ele conta que aprendeu muito sobre isso observando técnicos de som do meio pop.
Ele mostra que faz cortes de frequência agressivos, como cortar 7 dB em 2400 Hz, para que a guitarra se encaixe na mixagem sem atrapalhar. Ele explica que, ao entender a função de cada instrumento, é possível fazer a guitarra se destacar nos momentos certos, sem precisar aumentar o volume. Ele também fala sobre a importância de não competir com o baixo e a bateria.
Onde encontrar os presets e redes sociais
Mateus Marçal divulga seu site, mateuzinho.com.br, onde vende seus presets, incluindo os da Quad Cortex. Ele também está no Instagram, YouTube e TikTok, onde compartilha conteúdo sobre música, equipamentos e bastidores. Ele incentiva os músicos a focarem no TikTok, que, segundo ele, é a nova rede social que está dando resultados.
Ele também fala sobre a importância de produzir conteúdo para diferentes plataformas e de estar sempre se atualizando. Ele conclui que o YouTube é a única rede social que não sai de moda, mas que o TikTok é uma grande oportunidade para músicos.
Mensagem final e encerramento
Mateus Marçal deixa uma mensagem final para os músicos que vêm da igreja: continuem orando, persistindo e sempre estejam disponíveis para aquilo que Deus quer. Ele conta uma história sobre um rapaz que o abordou na Marcha para Jesus, perguntando como fazer para chegar onde ele chegou. Marçal respondeu que é preciso se movimentar para onde Deus quer.
Ele também revela que, em um certo momento, enterrou sua função de guitarrista, mas que sempre esteve disponível para Deus. Ele conclui que, se você tem um desejo ministerial, deve estar onde Deus quer que você esteja, pois ali você frutificará. O episódio termina com agradecimentos e votos de bênçãos.