Culturas, Territórios e a EJA na perspectiva da vida em plenitude #06 ALFA-EJA Transforma Brasil

Início \ Produções \ Culturas, Territórios e a EJA na perspectiva da vida em plenitude #06 ALFA-EJA Transforma Brasil

Introdução: Culturas, Territórios e a EJA na Perspectiva da Vida em Plenitude

O podcast Alfaeja Transforma Brasil, uma iniciativa do Instituto Paulo Freire em parceria com a Petrobras, inicia um diálogo profundo sobre temas centrais para a Educação de Jovens e Adultos (EJA) na perspectiva freiriana: culturas, territórios e a busca pela vida em plenitude. O mediador Paulo Roberto Padilha, diretor pedagógico do Instituto, convida a professora e pesquisadora Juliana Aime (doutoranda no Canadá, com vasta experiência em formação de professores indígenas) e o professor Reinaldo Matias Fleuri (UFSC, referência em estudos decoloniais) para uma conversa que entrelaça história pessoal, ancestralidade, crítica ao colonialismo e propostas pedagógicas concretas para os 77 municípios do Norte e Nordeste atendidos pelo projeto.

Autodescrições e Apresentações: Acolhimento e Diálogo Intercultural

Seguindo os protocolos de acessibilidade e acolhimento, os participantes se autodescrevem. Paulo Padilha, de pele morena, barba e cabelo branco, usa camisa branca com folhagens verdes, remetendo à natureza. Juliana Aime, mulher de ascendência asiática, pele clara e cabelos castanhos, veste uma blusa verde natureza, usa brincos longos com arte Guarani e fala de Edmonton, no norte do Canadá, a -4°C. Reinaldo Fleuri, homem de pele morena, cabelo e cavanhaque grisalhos, usando óculos e camisa branca, mostra ao fundo um quadro chamado "intercultura", que representa a relação entre negros, indígenas e brancos, sintetizando sua temática de pesquisa: o diálogo intercultural valorizando culturas, etnias e territórios.

História e Ancestralidade: O Retirante como Símbolo da Opressão e da Luta

Paulo Padilha compartilha sua história pessoal através da música "Retirante", composta por ele, inspirado no livro "Vidas Secas" de Graciliano Ramos. A canção narra a saga de um migrante nordestino na cidade grande, enfrentando a correria, a disputa por espaço, a falta de moradia e a nostalgia da terra natal. Ele conta que seus pais vieram do interior de São Paulo fugindo da pobreza, agravada por uma política que transformou uma escola agrícola rural em prisão. Nasceu na periferia de São Paulo, enfrentou a miséria, a injustiça, a humilhação de precisar de atestado de pobreza para estudar. Para ele, essa trajetória mostra que a pobreza não é natural, mas um efeito social criado por um sistema opressor. É por isso que a EJA é tão necessária, pois lida com pessoas que tiveram seus direitos básicos, como o de aprender a ler e escrever na infância, negados.

Contracolonizar e Decolonizar: Resistências e Princípios do Bem Viver

Reinaldo Fleuri explica a diferença entre contracolonizar e decolonizar. Ele cita o líder quilombola Antônio Bispo Santos (Nego Bispo), que definia contracolonizar como: "vocês querem nos colonizar, nós simplesmente não deixamos". Trata-se de um processo de resistência ativa dos povos indígenas, quilombolas e tradicionais para manter seu modo de vida, baseado na relação com a natureza e não na acumulação e exploração. A opressão e a miséria da maioria são fundamentais para o sistema econômico colonial, que precisa de mão de obra farta e barata para aumentar seus lucros. Já o movimento decolonial, protagonizado por intelectuais como Catherine Walsh e Walter Mignolo, é um projeto de construção de conhecimento e relações sociais a partir das perspectivas ancestrais.

Fleuri resume o bem viver ou vida em plenitude em quatro princípios, baseados em Catherine Walsh:

  • Relacionalidade: tudo se relaciona, nada existe isolado.
  • Complementaridade: as relações se dão por distinção e oposição, mas sobretudo por complementaridade entre seres humanos, animais, plantas e astros.
  • Reciprocidade: a troca, o dar e receber, que alimenta a singularidade de cada um e a coesão do coletivo.
  • Integralidade: a conexão de cada ser com o todo (macro e microcosmos), e do todo em cada ser.

Paulo Padilha acrescenta que essas categorias se conectam diretamente ao pensamento freiriano: a leitura do mundo no projeto Alfaeja Brasil parte do conhecimento da realidade e das condições concretas de vida nos territórios. A educação popular na escola pública precisa desconstruir relações opressoras e negar a ideia de culturas superiores. Ele propõe uma educação intertranscultural, que reconhece e valoriza tanto as diferenças culturais quanto as semelhanças, que são o que nos une.

Práticas Pedagógicas Decoloniais: Aprendendo com os Povos Indígenas no Cotidiano

Juliana Aime, que há 10 anos atua na formação de professores indígenas no Brasil (programa Saberes Indígenas na Escola, em Santa Catarina), provoca os convidados a pensar como causar fissuras nos sistemas hegemônicos. Fleuri responde com exemplos práticos de sua parceria com Juliana, que o levou a visitar a aldeia Guarani Pirarupá, onde conheceu o Cacique Marco, a diretora Cristiana Samaniego e outros líderes. Nas visitas, eles foram recebidos na casa de reza ao redor do fogo, onde escutaram histórias, tiveram perguntas respondidas e experimentaram a sabedoria Guarani baseada na comunidade, na escuta, no acolhimento, na espiritualidade e na relação com todos os seres.

Padilha complementa, afirmando que sua experiência como professor na periferia de São Paulo e agora no projeto com 77 municípios do Norte e Nordeste mostra que o trabalho educativo deve ser relacional, não programático engessado. Ele defende que o currículo se constrói a partir das relações entre as pessoas e delas com o mundo. A grande força da resistência está nos movimentos sociais, nas comunidades que resistem à opressão econômica, cultural e territorial. A universidade deve aprender com esses movimentos, redescobrindo a cultura como referência.

O Futuro é Ancestral: Valorização dos Anciões e Sabedoria Práxica

Juliana destaca que os povos indígenas nos ensinam que a sabedoria se constrói na praxis, na experiência e nas relações. Ela cita a frase de Ailton Krenak: "O futuro é ancestral", indicando que a saída para a crise atual está vinculada à ancestralidade. Ela menciona um livro que organizou com biografias de 52 anciãos Kaingang, que mostram a importância de valorizar os mais velhos como detentores de saber. Ao contrário da sociedade ocidental, que trata os idosos como "parafusos velhos" descartáveis, as comunidades indígenas e quilombolas reconhecem os anciãos como sábios que ensinam a conservar o mundo e as relações. Ela propõe trocar a ideia de "desenvolvimento" pela de "envolvimento", criando relações profundas.

Fleuri conclui que aprender é a capacidade de transformar e mudar padrões de relação com a sociedade e o meio ambiente. A EJA é um espaço privilegiado para reinventar formas de viver e conviver, restaurando princípios de vida legados pelos ancestrais. Padilha finaliza com uma frase de Paulo Freire: "Mudar é difícil, mas é possível e urgente". Ele convida educadores e gestores a se perguntarem: Que injustiças posso colaborar para superar? A resistência decolonial se faz quando resistimos às violências contra nosso modo de viver. A literatura decolonial, as vozes dos povos originários e a escuta ativa são caminhos para superar a educação colonizadora e construir uma vida mais feliz, em plenitude.