Introdução: O Legado Empresarial que Transcende Resultados Numéricos
O episódio do VSH Cash recebeu Roberto Klabin, um empresário, advogado, conservacionista e fundador da Caimã Pantanal. Este refúgio ecológico de alto padrão é uma referência global em turismo de natureza e luxo, localizado no coração do Pantanal. Com mais de 53.000 hectares, Roberto uniu turismo de excelência, pecuária sustentável e ciência de ponta em um modelo de negócio regenerativo. A propriedade já recebeu mais de 30.000 pessoas e abriga projetos de conservação expressivos, como os da arara-azul e da onça-pintada. A trajetória do empresário demonstra como decisões estratégicas envolvendo boas práticas ambientais podem gerar não apenas lucro, mas valor agregado para as gerações presentes e futuras.
Origens e Formação: A Base de um Conservacionista
Roberto Klabin vem de uma família de empresários do setor de papel e celulose. Desde 1979, a empresa familiar determinou que nenhum familiar poderia ser executivo, atuando apenas como membros do conselho de administração, com a gestão sendo realizada por profissionais. Isso obrigou cada membro da família a buscar seu próprio caminho. O envolvimento de Roberto com o movimento ambiental começou em 1977, durante seus estudos na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP). Ele foi convidado por um colega para lutar contra a instalação do aeroporto internacional de São Paulo em uma área de mananciais, o que marcou o início de sua trajetória ambientalista. A partir daí, ajudou a criar diversas ONGs, incluindo a SOS Mata Atlântica (da qual foi presidente por 22 anos) e a SOS Pantanal, sendo seu primeiro presidente. Atualmente, também preside o Instituto Life (de Biodiversidade) e a BLTA (Brazilian Luxury Travel Association), voltada para promover o turismo de luxo do Brasil no exterior.
Assumindo Responsabilidades Precoces: Lições de Superação
Aos 23 anos, com a morte de seu pai, Roberto teve que assumir posições nas empresas familiares sem qualquer preparo. Aos 24 anos, entrou em um ambiente hostil, com conselhos formados por pessoas muito mais velhas e experientes. Ele descreve essa fase como dramática, onde se viu um completo 'outsider', sem conhecimento de negócios. Sua inexperiência e agressividade inicial geraram conflitos, mas ele foi superando os desafios aos trancos e barrancos. Um ponto de virada foi sua atuação na empresa Lalecla, um negócio pequeno onde sua mãe o fez assumir a presidência. Ali, ele teve a humildade de convidar pessoas mais velhas e experientes para auxiliá-lo, complementando sua dinâmica com a sabedoria deles. Essa foi sua grande sorte: saber preencher suas lacunas com pessoas competentes. A governança corporativa da Klabin, que impede familiares de serem executivos, é destacada como um exemplo de maturidade e um fator crucial para a perpetuidade do negócio.
O Nascimento da Caimã: Um Projeto Baseado em um Tripé
Apaixonado pelo Pantanal desde os 10 anos, quando visitou a antiga fazenda da família (Miranda Estância), Roberto sempre percebeu que a região tinha um potencial muito além da pecuária. Quando a grande fazenda foi dividida entre os familiares em 1982/83, ele recebeu um pedaço por sorte e adquiriu mais dois, unindo-os para desenvolver um projeto baseado em um tripé estratégico: conservação ambiental, turismo de observação de fauna selvagem e pecuária extensiva sustentável. Inspirado por safáris africanos, viajou para a África em 1986 para estudar modelos e trouxe essa inspiração para o Pantanal.
A Criação da Reserva Privada
Sua primeira grande ação foi conservar um pedaço da fazenda exatamente como era quando ele a conheceu. Para isso, chamou a Universidade de São Paulo (ESALQ) para identificar a área mais adequada. Foi escolhida uma área de transição entre o cerrado e o Pantanal, com 5.600 hectares, que ele transformou em uma reserva privada (posteriormente RPPN - Reserva Particular do Patrimônio Natural). Essa área, que para qualquer outro fazendeiro seria desmatada para pasto, foi destinada à preservação.
Ciência e Refauanação: Projetos Icônicos
Roberto convidou pesquisadores para se instalarem na Caimã. O primeiro grande projeto foi o da arara-azul, liderado por Neiva Guedes. A ave estava ameaçada de extinção devido à falta de árvores para nidificação (cortadas pelos fazendeiros) e ao tráfico de animais. Com a instalação de ninhos artificiais na Caimã, a população saltou de estimados 49 indivíduos para mais de 600, tornando o local o maior centro de procriação de araras-azuis do mundo. O projeto mais icônico, no entanto, é o Projeto Onça, uma iniciativa de habituação de onças-pintadas a veículos, copiado de um modelo africano usado para leopardos. O resultado foi espetacular, permitindo safáris de observação de onças em terra, algo único no Pantanal, e elevando a Caimã a um novo patamar no turismo de natureza.
Pecuária como Cultura e Sustentabilidade
A pecuária foi mantida como um elo com a cultura regional, influenciando desde a vestimenta até a música. No início, foi a grande fonte de receita que sustentou os outros pilares. Com o tempo, o turismo se tornou mais relevante. Roberto promoveu uma mudança cultural entre os 200 moradores da fazenda, explicando que a conservação da natureza geraria mais empregos (inclusive para mulheres e filhos) por meio do turismo, transformando-os em produtores de biodiversidade e stakeholders do negócio. Uma medida drástica foi a eliminação dos cachorros, que ameaçavam a fauna local.
A Relação entre Propósito, Resultado e ESG
Roberto Klabin é enfático: o mercado não remunera boas intenções, ele remunera resultados. No entanto, as boas intenções geram um propósito, e é desse propósito que se esperam resultados. Ele admite que passou muitos anos sem retorno financeiro, sendo visto como um 'doido', e que os resultados positivos surgiram apenas nos últimos 10 anos. Sua dica é que o empresário deve entender o valor do capital natural, ter propósito, mas estruturar o negócio de forma empresarial para garantir sustentabilidade econômica e financeira. Para ele, o mais importante no ESG é a governança. É a base de tudo. Sem uma governança sólida, relatórios de sustentabilidade não passam de greenwashing. As empresas que não incorporarem esses princípios serão frágeis, perderão mercado e colaboradores, que hoje escolhem onde trabalhar com base em valores e propósito. O processo começa por exigência do mercado, legislação e consumidores, mas evolui para uma prática real.
Capital Natural: Uma Oportunidade para o Empresariado Brasileiro
Roberto acredita que o capital natural será cada vez mais valorizado, contribuindo para os balanços das empresas. O Brasil é o país mais biodiverso do mundo, com cerca de 60% de sua área coberta por florestas, e é uma potência ambiental. Ele vê um enorme potencial para empresários que queiram investir em turismo de natureza, usando o Pantanal como exemplo. Enquanto a África tem leões e leopardos e a Índia tem tigres, a onça-pintada é exclusiva das Américas, e o Brasil é o melhor lugar para observá-la, especialmente no Pantanal. Ele compara a Caimã com o Delta do Okavango, em Botsuana. A mensagem é clara: se você tem uma área conservada em sua fazenda, não a destrua. Acomode-a e desenvolva outras oportunidades, como o turismo. O exemplo da Caimã é didático: uma fazenda de gado tradicional empregaria 30-40 pessoas. Com o modelo de gado mais turismo e pesquisa, a Caimã emprega 200 pessoas.
Perpetuidade, Sucessão e Legado: O Instituto EMAR
Para garantir a perpetuidade de seu legado, Roberto criou em 2024 o Instituto EMAR (Elenice, Maria Ângela e Roberto Klabin). O plano é doar 1/3 das áreas da fazenda (cerca de 18.000 hectares, incluindo a RPPN) para este instituto, que será a base de todos os projetos ambientais da Caimã. O instituto terá um conselho composto por seus filhos e por convidados externos, em número igual. O objetivo é que, gradualmente, a instituição se torne mais de terceiros do que da família, garantindo que a área e o legado se perpetuem por muitas e muitas gerações.
Conselhos para a Construção de um Legado Real
Roberto aconselha os empresários a se concentrarem naquilo que sabem fazer. Ele se define mais como um empreendedor do que um empresário, movido pela obstinação e pela paixão, mesmo quando ninguém o apoiava. Embora reconheça que poderia ter obtido resultados mais rapidamente se fosse mais racional e menos 'carteiano', ele não se arrepende de sua paixão. A melhor maneira de envolver a família no legado é criando projetos e atribuindo responsabilidades a cada membro. A mensagem final é: seja racional e profissional, não corra riscos desnecessários, mas tenha paixão e brilho nos olhos para ir atrás daquilo em que acredita. O grande prazer da vida é ter projetos, não importa o tamanho ou a idade.
Conclusão: Construindo Valor Além do Balanço
A conversa com Roberto Klabin demonstra que é possível aliar lucro, conservação e propósito. A Caimã Pantanal é a prova viva de que um modelo de negócio regenerativo pode gerar empregos, valorizar a biodiversidade e criar um legado duradouro. Os aprendizados principais incluem a importância da governança, a necessidade de ter humildade para aprender com os outros, a paciência para colher resultados no longo prazo e, acima de tudo, a convicção de que construir valor além do balanço financeiro é o que verdadeiramente diferencia um negócio e o torna perene.