Introdução: Quem é Marcelo D'Avilla?
No episódio do podcast 'Confissões Consentidas', o apresentador Mestre Cruel (Renan) dá as boas-vindas a Marcelo D'Avilla. A conversa começa com uma descrição visual detalhada: Marcelo tem 38 anos, é um homem branco de cabelo azul, bigode e cavanhaque, bastante tatuado, com dois piercings nos mamilos, usando um look de borracha cheio de furinhos e uma calcinha vermelha fio dental. Ele se descreve como alguém que vive na 'linha tênue entre o subversível, o clown e a louca'.
Infância, Juventude e a Descoberta da Sexualidade Através da Violência
Marcelo é paulistano da zona sul, nascido no Largo 13 em Santo Amaro – uma região que ele descreve com orgulho, tendo até tatuado '13' na testa. Ele estudou a vida inteira em escola pública e é de uma família de mãe solo com três filhos. Sua descoberta da sexualidade, no entanto, não veio de forma natural ou afetuosa: ele foi espancado por três torcedores do Palmeiras no Parque do Ibirapuera quando tinha 13 anos. Eles o chamaram de 'bicha' e 'gay' e disseram que ele 'tinha que morrer'. Essa foi a primeira vez que ele soube o que ser gay significava – uma experiência violenta que ele descreve como 'me tiraram do armário, me deram uma surra e me jogaram no armário de volta'.
A partir daí, ele entendeu que ou se reprimia ou se expunha, e escolheu se expor com força. Ele já foi espancado na rua oito vezes, especialmente durante o período de reeleição do governo Bolsonaro, por causa do seu jeito de se vestir e se portar. Ele não se considera 'gay' no sentido normativo ('gay é aquele que usa sapatênis e não beija na rua'), mas sim uma 'bicha' – alguém que afronta na rua e resiste. Ele aprendeu a responder à violência com voz e postura, olhando nos olhos de potenciais agressores e dizendo 'boa noite', desarmando situações ou pelo menos não se tornando uma vítima passiva.
A Entrada no Fetichismo Através da Arte e da Noite
O fetichismo entrou na vida de Marcelo através da arte. Formado em dança (balé clássico e outras técnicas) e com pós-graduação em performance arte na USP/Unesp, ele foi convidado por um homem do 'disponível.com' para uma festa no Projeto Luxúria, que acontecia no Constantine Bar em Moema. Ele foi de cross dresser, montado num personagem meio 'Chicago' dos anos 30. Na festa, ele se sentiu desejado de uma forma que nunca havia experimentado – mesmo sendo uma 'bicha feminada', os caras o desejavam. Isso o fez querer explorar mais as artes eróticas, como o burlesco e o striptease, e foi assim que ele foi 'puxado' para dentro da cena fetichista.
Teatro da Pomba Gira: Sexualidade, Arte e Resistência
Marcelo é co-fundador e diretor do Teatro da Pomba Gira, grupo que nasceu em 2014. Sua parceria com o diretor Deni começou em 2011, quando se conheceram no ManHunt e perceberam que seriam 'apenas grandes amigas'. Em 2012, Deni o convidou para um curso de performance arte na USP/Unesp, mesmo Marcelo não tendo formação acadêmica formal – Deni disse: 'Foda-se, manda seu currículo'. Ele passou e foi ali que a parceria artística se consolidou. Deni viu nele 'paixão de vida e potência erótica', e juntos criaram o espetáculo Anatomia do Fauno, que deu origem ao grupo.
Os Espetáculos Marcantes e a Saga da Poporn Party
A montagem de 'Anatomia do Fauno' (2014) foi um processo de um ano com 30 artistas, sem dinheiro, sem edital, ensaiando em espaços cedidos. Para bancar a cenografia, Marcelo e Deni criaram a Poporn Party – uma festa que, inicialmente, foi uma aposta para pagar as contas do espetáculo. As quatro primeiras edições da Poporn Party (pós-morte da fundadora Suzy Capó, que legou o festival Poporn a eles) foram realizadas para financiar a cenografia de 'Anatomia do Fauno'. Esse movimento de festas – que deu origem a inúmeras outras – nasceu por causa do Teatro da Pomba Gira.
O espetáculo foi um sucesso, ganhou prêmio no Mix Brasil, e pessoas como Maria Alice Vergueiro (do Tapa na Pantera) assistiram e se inspiraram nele. Maria Alice chegou a fazer seu 'funeral' no teatro, inspirada pela cena em que Marcelo ficava enterrado por quase uma hora no espetáculo. Em seguida, vieram Demônios (contemplado por edital LGBT, com participação de Adriana Calcanhotto e Caetano Veloso, que comentaram o trabalho), Sombra (sobre censura, durante o governo Bolsonaro), Viver Urgente (um ritual de tatuagem coletiva, feito após a morte de Deni na pandemia) e Máquina (uma costura de ideias que ele e Deni tiveram ao longo dos anos, incluindo a cena de um carro despencando no palco).
A Morte de Deni e a Continuidade
Deni faleceu em 2020, durante a pandemia, vítima de um infarto. Marcelo e o grupo continuaram o trabalho, mantendo os encontros online durante o isolamento, escrevendo e ensaiando à distância. Eles não quiseram parar. O espetáculo 'Máquina' (2022) foi montado no Teatro Mars, um teatro brutalista premiado, e trouxe à tona muitas cenas que Marcelo e Deni haviam desenhado em momentos anteriores – incluindo a ideia de um carro despencando no meio da plateia, para tirar o público do estado passivo e fazê-lo sentir a presença pulsante dos atores.
Love Nox: Um Casarão do Saber Erótico
Marcelo é padrinho e curador da Love Nox, um casarão tombado no centro de São Paulo que se tornou um espaço de sexualidade e arte. A casa foi adquirida pela amiga Mayana, que Marcelo chama de 'o amor da minha vida' e está salva no celular como 'mozão'. A história começou quando Mayana manifestou o desejo de ter um estúdio e um amigo em comum, herdeiro de espaços tombados, ofereceu um casarão fechado há 50 anos. A pandemia atrasou os planos, mas a reforma foi feita na mão pelo grupo do Teatro da Pomba Gira, com muito esforço e recursos limitados – 'cada dia que entra R$30 é um trinco novo', descreve Marcelo.
O espaço é propositalmente um lugar sem mesas, apenas sofás, para que as pessoas não se segreguem e se sintam parte de uma 'house party'. A Love Nox não tem dress code obrigatório – você pode ir de jeans numa noite de couro sem ser julgado. Além disso, o casarão tem uma biblioteca, obras de arte, testagem regular de ISTs (em parceria com a Coordenadoria de STIs), distribuição de PREP, PEP, vacinas, luvas e preservativos. Abre de graça às quartas e quintas-feiras para desmistificar o espaço, e recebe projetos culturais de todo tipo.
Ativismo, Saúde e Arte como Veículo de Prevenção
Marcelo destaca a potência da arte como veículo para a prevenção e a educação sexual. O Teatro da Pomba Gira acaba de ganhar um edital da Secretaria de Saúde para falar com pares (HSH, travestis, corpos pretos, indígenas, terceira idade) sobre prevenção de HIV e saúde mental. Ele critica o fato de a cultura não ver a sexualidade como educação necessária, enquanto o grupo já promovia redução de danos e falava sobre HIV há 10 anos. Em uma campanha, a identidade visual da Dando (festa) foi usada para o lançamento da PREP em São Paulo, e em três meses eles conseguiram 60 adesões à PREP – mais do que cinco bases de saúde em três meses. Para Marcelo, a arte é um 'veículo do caralho' para falar sobre saúde, e ele celebra que a Secretaria de Saúde finalmente esteja reconhecendo esse potencial.
Jogo Rápido: Perguntas e Respostas
- Cor: Rosa.
- Medo: Solidão.
- Sonho: Dinheiro.
- Superpoder: Invisibilidade.
- Ator/atriz para interpretá-lo no cinema: Fernanda Montenegro.
- Indicação de filme: 'A Cela'.
- Indicação de livro: 'O Perfume' (o livro é muito melhor que o filme).
- Lugar para visitar que ama estar: São Paulo.
- O que valoriza numa amizade: Sinceridade.
- Sua melhor qualidade para os amigos: 'Gongar' eles (rir/zombar com carinho).
- Como se descreveria em uma frase: 'Cada um sabe a dor e a delícia de ser quem é'.
Considerações Finais e Onde Encontrar Marcelo D'Avilla
Marcelo deixa suas redes e contatos: o Instagram é @davilla (D'Avilla com 2 'L's). A Love Nox está no Instagram como @sarzedas136 (que também é o endereço: Conde de Sarzedas, 136). O site da Love Nox é lovnox.com.br, e ele também tem o site pessoal marcelodavilla.com, onde estão todos os seus trabalhos e contatos atualizados. Mestre Cruel reforça o convite para curtir, comentar, compartilhar, seguir o podcast (@confissoesconsentidas e @dommcsp) e, em caso de queda das redes, acessar mestrecruel.com ou a rede social Kinggram. O episódio termina com a despedida 'Ciao' e a promessa de que Marcelo continuará a profanar a vida com arte, sexualidade e resistência.