Confissões Consentidas - Ep. 31 - Mel da Kynktopia

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Introdução: Quem é Mel da Kinktopia?

No episódio do podcast 'Confissões Consentidas', o apresentador Mestre Cruel (Renan) dá as boas-vindas a Mel, criadora do projeto Kinktopia. A conversa começa com uma descrição visual: Mel é uma mulher parda, um pouco bronzeada, com dreads vermelhos na altura do ombro, vestindo uma camiseta com a frase 'Who is the good boy?' em inglês, uma harness e óculos. Ela é natural de São Paulo, mas atualmente mora no interior do Vale do Paraíba, uma região próxima a Aparecida, em uma cidade católica e conservadora.

Infância, Adolescência e os Primeiros Sinais de Masoquismo

Mel sempre foi uma pessoa excêntrica e, desde a primeira infância, já apresentava traços de masoquismo. Ela relata brincadeiras clássicas como pingar cera de vela no próprio corpo e grampear o próprio dedo, além de gostar de 'lutas'. Aos 13 ou 14 anos, com seu primeiro namoradinho, ela já experimentava brincadeiras de impacto e jogos de poder, mesmo sem saber o nome dessas práticas. Foi apenas aos 18 anos que ela conheceu o BDSM de forma estruturada.

Apesar de ser uma pessoa que demorou a ter sua primeira relação sexual com outra pessoa (sua primeira vez foi com uma amiga, com quem também teve o primeiro beijo), Mel sempre teve um forte interesse em explorar o próprio corpo. Ela se autodescrevia como a 'boca suja' do grupo de amigos, conhecida por falar sobre sexo abertamente. Ela sempre foi incentivada pela mãe, que é psicóloga e trazia assuntos como Freud para casa, despertando seu interesse pela sexualidade desde cedo.

Faculdade, Mudança para o Interior e o Encontro com o BDSM

Aos 17 anos, Mel se mudou para o interior para cursar Engenharia Física na USP. Ela brinca que a escolha do curso foi uma forma de sofrimento (masoquismo), pois odiou a faculdade, mas não queria desistir. Lá, ela teve um grande choque cultural: enquanto em São Paulo seus amigos eram abertos e receptivos a conversas sobre sexualidade, na faculdade de engenharia, onde predominavam alunos de classe alta e conservadores, o assunto era um tabu. Ela se sentiu isolada e precisou encontrar saídas para explorar sua sexualidade.

Foi também na USP que Mel conheceu seu parceiro, Vinícius, há cerca de 4 anos. Eles se conheceram no Tinder, com uma conversa inicial sobre música emo. No primeiro encontro, Mel já mencionou que gostava de 'coisas diferentes' e perguntou se ele conhecia BDSM. Ela havia pesquisado a lista de fetiches na Wikipédia e selecionado vários, mesmo sem ter experimentado nenhum. Quando mencionou o fetiche em facas, Vinícius achou que ela era experiente, mas na verdade era tudo teórico. Ambos descobriram juntos, sem saber nada – foi um começo 'trágico e cômico', mas extremamente significativo.

Descobertas e Primeiras Práticas

Mel e Vinícius começaram a explorar práticas de impacto, dominação e submissão, e a não monogamia. No início, tentaram uma D/s 24/7 (relação de Dominação e submissão o tempo todo) sem qualquer preparo, o que gerou frustrações: ele se sentia frustrado por não conseguir impor ordens, e ela se sentia frustrada por não conseguir se submeter. Eles também frequentavam festas de faculdade com Mel sendo conduzida por uma coleira, o que gerava estranhamento. No entanto, essas experiências ajudaram a identificar outras pessoas com interesses semelhantes, que só não sabiam o nome do que sentiam. Mel se tornou um 'farol' no interior, ajudando a conectar fetichistas da região.

Vibradores e Autoconhecimento: A Primeira Revolução Sexual

Aos 18 anos, Mel comprou seu primeiro vibrador (um clássico golfinho de pilha) – uma tarefa difícil na época, pois as sex shops não vendiam para menores de idade e a Shopee ainda não existia. Esse objeto foi uma revolução em sua vida, e ela se tornou uma verdadeira 'difusora de vibradores', recomendando a todos os amigos. Mel sempre foi autossuficiente em relação ao prazer e, apesar de ainda ser virgem (no sentido de penetração) aos 20 anos, ela já tinha cinco vibradores no armário, demonstrando que a exploração do próprio corpo é uma parte fundamental da sexualidade, independentemente da penetração.

Sex Shop Kinktopia: Do Comércio à Educação

Mel largou a faculdade de engenharia e, junto com Vinícius, abriu uma sex shop chamada Kinktopia. O nome veio da ideia de ser a 'utopia do mundo kink' (perverso, amoral, desviante). Inicialmente, vendiam brinquedos baratinhos para a galera da faculdade. Eles perceberam o quão conservadora a juventude está hoje em dia – há curiosidade, mas muito sigilo, e as pessoas preferem conversar em cantos, não abertamente. A sex shop serviu como uma porta de entrada para difundir conhecimento sobre prazer e fetiche.

No entanto, a loja de produtos não era o sonho final. Mel e Vinícius queriam criar uma comunidade, um lugar físico – uma fazenda no interior com chalezinhos, sauna, sala de BDSM, sala de tantra, onde as pessoas pudessem viver em comunidade. Para isso, precisavam educar as pessoas sobre o tema. Assim, a sex shop foi encerrada há cerca de um ano, e o projeto se transformou em uma iniciativa educacional com o mesmo nome: Kinktopia.

Projeto Kinktopia: Educação, Comunidade e Acolhimento

O projeto Kinktopia atualmente é um ecossistema de conteúdo e educação, com diversas ramificações:

  • Instagram @mel.da.kinktopia: Canal principal, com vídeos educativos quase diários sobre sexualidade, BDSM, fetiches e não monogamia. Mel traduz conceitos complexos de forma leve e acessível, sempre incentivando a autonomia do praticante.
  • Substack: Mais de 50 textos aprofundados sobre diversos temas, desde autoconhecimento até negociação e aftercare.
  • Comunidade Kinktopia (na Hotmart): Um 'reservatório' de conteúdo com cursos introdutórios, videoaulas, e sessões práticas de shibari e outras práticas. É um espaço vivo, onde os membros sugerem temas e participam de ao vivo.
  • Programa Personal Kink: Um programa de implementação de 9 semanas, com acompanhamento individualizado (50 minutos de sessão semanal, exercícios práticos e suporte no WhatsApp). As mentorias são personalizadas para pessoas que querem começar com segurança, se autoconhecer ou aprofundar suas práticas.

Mel enfatiza que o objetivo não é vender um 'roteiro pronto', mas fornecer ferramentas para que cada pessoa descubra o que é melhor para si. 'Não somos coaches, somos parceiros de jornada'. E ela ressalta que a Kinktopia atende desde iniciantes completos até pessoas com mais experiência, com idades que vão de 20 a 65 anos.

Desafios e Estratégias: A Geração Jovem e o Conservadorismo

Mel percebe que, paradoxalmente, a geração mais jovem (que hoje tem 18 anos) é extremamente conservadora e moralista. Ela acredita que a pandemia teve um papel crucial: adolescentes de 14-15 anos perderam o período de transição para a vida adulta, onde se formam relações profundas e se fazem 'loucuras'. Esse isolamento resultou em uma desconexão com a vida real, mesmo com maior conectividade digital. Para Mel, a educação sexual e a abertura de diálogo são ferramentas essenciais para reverter essa tendência.

Ela também percebe que as redes sociais (como o Instagram) são plataformas importantes para alcançar esse público, mas ao mesmo tempo há uma necessidade de conteúdo mais profundo e crítico, que vá além do 'efeito viral'. A Kinktopia busca trazer uma abordagem científica e reflexiva sobre o fetiche, sem simplificações reducionistas.

Referências e Formação: De Blogs a Workshops Presenciais

Quando começou a estudar BDSM, Mel consumia conteúdo em inglês (principalmente sobre bondage e shibari) e lia blogs brasileiros como o de Dom Barbudo, o do Gládios e textos no Medium. No entanto, ela ressalta que o verdadeiro 'pulo do gato' aconteceu quando ela começou a participar de workshops presenciais, imersões e cursos com pessoas reais, pois isso permitiu verificar a prática e entender as nuances que a teoria muitas vezes não alcança. Ela critica a quantidade de conteúdo 'brisa torta' na internet – especialmente em grupos de Facebook e Reddit – que pode confundir iniciantes. Para ela, a dificuldade está em discernir o que é um red flag e o que é uma prática saudável, e essa discernimento vem da educação e da troca com pessoas experientes.

Jogo Rápido: Perguntas e Respostas

  • Cor: Roxo.
  • Medo: Morrer.
  • Sonho: A fazenda Kinktopia (o projeto de comunidade física).
  • Superpoder merda: Chorar litros de água, até encher um lugar.
  • Tema que deveria ser mais debatido na comunidade: CNC (Consensual Não Consensual), pois muitos jovens leem Dark Romance e querem aplicar sem entender os riscos.
  • O que não pode faltar em uma sessão: Spanking.
  • Pessoa que admira: Sua mãe.
  • Atriz para interpretá-la no cinema: Não sabe o nome, mas gostaria de alguém tão expressiva quanto ela – citou Myrtle (possivelmente referindo-se à atriz de Harry Potter, que é muito expressiva).
  • Indicação de filme: 'De Olhos Bem Fechados' (que tem uma pitada de BDSM).
  • Prática fetichista que não fez mas tem vontade: Needle (perfurar a pele com agulhas).
  • Pergunta que não foi feita: Qual o seu signo? (Resposta: Sagitário).
  • Quem é a Mel? Uma garota fetichista do interior, criadora da Kinktopia, que convida todos a fazerem parte da comunidade.

Considerações Finais e Onde Encontrar Mel

Mel agradece a oportunidade de estar no podcast e reforça seu convite para que as pessoas conheçam o projeto Kinktopia. Ela está disponível no Instagram como @mel.da.kinktopia e em seu site, que pode ser encontrado pesquisando 'Kinktopia' (com Y – K Y N K Topia). Ela também tem um Substack com mais de 50 textos e uma comunidade fechada na Hotmart, além do programa Personal Kink. Mestre Cruel, por sua vez, pede que o público curta, comente, compartilhe, siga o podcast (@confissoesconsentidas e @dommcsp) e, em caso de queda das redes, acesse o site mestrecruel.com ou a rede social fetichista Kinggram. O episódio termina com a despedida 'Ciao' e a música de encerramento, deixando a sensação de que o trabalho de Mel é fundamental para levar a educação fetichista a todas as idades e regiões do Brasil.