Confissões Consentidas - Ep. 26 - André Medeiros Martins

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Introdução: O Início da Conversa e as Primeiras Impressões

No episódio do podcast 'Confissões Consentidas', o apresentador Mestre Cruel (Renan) dá as boas-vindas ao seu convidado, André Medeiros Martins. A conversa começa com uma descrição visual: André é um homem branco, cisgênero, com barba preta e cabelo curto, vestindo uma jaqueta e camisa branca. O ambiente é descontraído, e a proposta é mergulhar fundo na trajetória de vida, nas descobertas sexuais e na carreira artística de André.

A pergunta disparadora do podcast é clássica e instigante: 'O que eu leria se eu jogasse o seu nome na Wikipedia?'. Com isso, André é convidado a compartilhar sua história desde a infância, passando pela adolescência, a descoberta da sexualidade e como o fetichismo entrou em sua vida.

Infância e Primeiras Descobertas da Sexualidade

André nasceu em São Paulo e morou na zona leste da cidade. Sua primeira exposição à nudez aconteceu de forma inusitada, através da revista 'Chiclete com Banana', que pertencia à sua irmã, 11 anos mais velha. Em uma das tirinhas, havia uma foto de Maple Thorn nua, e aquela pequena imagem despertou nele uma forte atração que ele não compreendia totalmente, mas que o fascinava.

Desde cedo, André demonstrou interesse por arte e cultura, incentivado por sua mãe, que o levava a teatros, circos e cinemas mesmo com recursos limitados. Essa vivência artística precoce foi fundamental para sua formação. Aos poucos, ele foi construindo sua personalidade e desejos de forma fluida, sem grandes traumas ou repressões em relação à sexualidade.

A Descoberta da Homossexualidade

André se identifica como um homem gay e relata que teve muitos privilégios nesse processo. Sua mãe nunca o reprimiu, e ele sempre teve uma personalidade que não aceitava ser limitado. Lembra-se de um episódio em que sua mãe encontrou revistas com homens pelados em suas coisas e perguntou: 'Então quer dizer que você vai dar o cu?'. Ele respondeu com naturalidade: 'Ah, não sei, talvez'. Essa fluidez marcou sua jornada, sem culpa ou peso. Ele não foi alvo de bullying severo e sente que suas descobertas aconteceram de maneira muito natural.

Adolescência, Revistas e o Fascínio pelo Nu

Na adolescência, André desenvolveu uma fixação por ver pessoas peladas. Surgiram as revistas masculinas como a 'G' e a 'Júnior', e ele lembra da primeira vez que viu Mateus Carrieri nu em uma banca, ainda sendo menor de idade. Não era necessariamente uma atração sexual explícita ou um desejo de praticar algo, mas uma curiosidade genuína e um fascínio pela imagem do corpo nu.

Ele também consumia filmes eróticos das locadoras, com atrizes como Sharon Stone, e se lembra de um filme perturbador chamado 'Encachotando Helena' (que, na verdade, é uma referência ao filme 'Encaixotando Helena' – 'Boxing Helena'). A trama absurda envolvia um homem obcecado que corta os membros de uma mulher para mantê-la em casa. Apesar da temática sombria e abusiva, o filme representava para ele, naquela época, uma narrativa lúdica e fantasiosa envolvendo nudez e sexualidade.

A Transição para o Teatro como Ofício

Aos 17 anos, André começou a trabalhar com teatro, inicialmente como fonte de renda. Fez de tudo: comícios na periferia de Guarulhos, teatro empresa, 'noites do terror' no Playcenter, e até trabalhou com fantasias de pelúcia. Ele aprendeu na prática e, posteriormente, se formou na faculdade. Para ele, o teatro é um ofício, um trabalho, e ele acredita nisso até hoje. A paixão pela cultura, estimulada por sua mãe, encontrou no teatro um caminho profissional sólido e duradouro.

O Início da Pesquisa em Sexualidade, Erotismo e Fotografia

André sempre se fotografou nu, desde os 19 anos, muito antes da era dos smartphones. Ele usava câmeras simples e explorava sua autoimagem. Um marco importante foi a morte de sua mãe, que ocorreu na mesma época em que ele comprou sua primeira máquina profissional e começou a fotografar outras pessoas nuas. Embora muitos associem os dois eventos, ele ressalta que foi uma coincidência temporal, e não uma causa motivadora.

No início, as sessões eram brincadeiras entre amigos, na época do Tumblr e dos fotoblogs. Fotografar pessoas nuas era uma forma de experimentação, tanto para o fotógrafo quanto para os modelos. Ele não se considerava um fotógrafo profissional contratado, mas sim alguém que convidava para 'brincar de fazer uma sessão'. Dessa prática, surgiu seu primeiro livro, 'Flexões', que reuniu fotos de cerca de 80 pessoas nuas.

A Evolução Tecnológica e os Nudes

André acompanhou de perto as mudanças tecnológicas: do Tumblr e fotoblogs para o Twitter, a era dos nudes, a pandemia e depois o OnlyFans. Ele se interessa por como as pessoas se relacionam com a nudez e a sexualidade em cada uma dessas plataformas. Além da fotografia, ele migrou para o vídeo, o que abriu novas possibilidades artísticas.

A Casa Labirinto e a Naturalização do Vulgar

André tem uma relação particular com os espaços onde mora. Em seu site, há a planta de seus apartamentos, e cada cômodo está vinculado a projetos específicos. Ele criou uma 'casa labirinto', sem ferramenta de busca, propositalmente, para que os visitantes se percam e descubram conteúdos de forma orgânica. A ideia é que a casa seja algo muito particular e, ao mesmo tempo, público.

Ele também reflete sobre o conceito de 'vulgar', que intitula um de seus livros. A palavra tem um duplo sentido: algo que é considerado obsceno ou sexual, mas também algo ordinário e comum, que precisa ser naturalizado. Para ele, as coisas vulgares não são especiais, mas fazem parte da vida cotidiana de todos, e é importante falar sobre elas sem tabus.

A Parceria com Janaína e o Espetáculo 'História do Olho'

A colaboração com a artista Janaína começou nos núcleos criativos do grupo '19 de Teatro', na Vila Maria Zélia. André participou de um núcleo chamado 'Feminino Abjeto', que discutia a abjeção do feminino e depois se expandiu para outras identidades de gênero. Esse trabalho despertou o interesse de ambos pelo livro 'História do Olho', de Georges Bataille, que tem muitas passagens sexuais explícitas. Foi durante a pandemia que o espetáculo 'História do Olho' foi gestado, através de encontros online.

Para André, esse espetáculo representa um ponto de virada em sua carreira, pois foi a primeira vez que ele uniu sua vida como ator com sua pesquisa em sexualidade e pornografia. Ele destaca que, na peça, todos estão expostos a serviço do texto, mas paradoxalmente, ninguém está verdadeiramente exposto. O espetáculo inclui desde discussões sobre fisting, cenas de suspensão corporal até transmissões ao vivo, mostrando como falar de sexualidade de forma artística e contemporânea.

Impacto Pessoal e Artístico de 'História do Olho'

André revela que assistiu 'História do Olho' 12 vezes e que essa obra foi um disparador para sua própria pesquisa teatral com o grupo 'Teatro Torto', resultando no espetáculo 'E se ele não tivesse aparecido'. Ele credita à peça o impulso para integrar suas duas facetas: a do ator (Mestre Cruel) e a do pesquisador (Renan), tornando-se 100% ambos. Além disso, a plateia do espetáculo era diversa, incluindo desde público tradicional de teatro até praticantes de BDSM, criando uma troca única e uma comunidade que se retroalimentava.

Os Livros: 'Flexões', 'Vulgar' e 'Sem Fetiche'

André é idealizador de diversos livros que funcionam como 'book tables' – livros de mesa que convidam à contemplação e ao debate. O primeiro, 'Flexões', reúne seus primeiros ensaios fotográficos de nus. Já 'Vulgar' explora essa dualidade entre o comum e o sexualmente explícito. O projeto mais recente é 'Sem Fetiche', que surgiu das observações feitas durante os ensaios de 'História do Olho'.

A Jornada dos 100 Fetiches

Andrê é obsessivo por listas – antes de 'Sem Fetiche', ele fotografou 365 pessoas em um ano, uma para cada dia. A ideia de fazer 100 fetiches veio de um impulso numérico, e a pergunta 'Existem 100 fetiches?' é proposital. A resposta, segundo ele, é que qualquer coisa no mundo pode ser objeto de desejo ou atração para alguém. Cada capítulo do livro é uma frase que pode ser lida de forma independente, e ele convidou participantes para contribuir com textos e artes. O livro inclui desde práticas de BDSM até provocações como um capítulo chamado 'Baunilha' (termo usado para descrever sexo convencional, sem fetiches), questionando o que é considerado diferente ou 'desviante'.

A Metáfora da Sorveteria e o Desafio da Pluralidade

André compara a iniciação no fetichismo com uma sorveteria: você experimenta uma pazinha de cada sabor, até descobrir o que gosta. Ele ressalta que a maior dificuldade é a pluralidade – caber dentro do nosso corpo a ideia de que existem desejos diferentes dos nossos. Dentro do universo fetichista, ele alerta que podemos nos tornar rapidamente um 'familiar homofóbico' ao julgar o fetiche alheio, repetindo os mesmos padrões de preconceito que sofremos. O objetivo de 'Sem Fetiche' é colocar todas as práticas 'na horizontal', mostrando que tanto quem gosta de suspensão, quanto quem gosta de torta na cara ou de simplesmente fazer 'conchinha' – todos estão bem.

O Corpo em Experimento: Performance e Práticas

André se coloca como um experimentador dentro de seu trabalho artístico. Ele sente atração pela performance e pelo vídeo e, nesse contexto, faz coisas que em sua vida banal não faria. Ele tem curiosidade legítima em entender o limiar da dor, por exemplo, em práticas de spank (espancamento). Mesmo não gostando inicialmente, ele se coloca em circunstâncias para descobrir em que momento a dor se torna prazer para outras pessoas. Outro exemplo é a prática de tortada na cara – embora não queira sujar a casa, quando se permite, ele quer sujar tudo. Essas experimentações, inclusive, geraram projetos derivados, como os vídeos de aniversário com tortadas, banhos e massagens.

Entre as práticas que descobriu durante o processo de 'Sem Fetiche' e que passou a gostar, ele cita o eding (esticar elásticos no corpo). E uma prática que ainda não fez, mas tem vontade, é a suspensão corporal – algo que, curiosamente, poucos atores do elenco de 'História do Olho' realizaram.

Jogo Rápido: Perguntas e Respostas Diretas

  • Cor: Rosa.
  • Sonho: Sonho.
  • Medo: A existência ser muito real.
  • Superpoder desejado: O poder da personagem da 'Caverna do Dragão' que desaparece e pode ir a qualquer lugar.
  • Recomendação de livro/autor: Ele mesmo, brincando, e sugere que as pessoas comprem seus livros diretamente com ele, pelo Instagram @projeto.vulgar.
  • Como se define: Um obsessivo por listas. As listas são o que o movem a fazer tudo.

Considerações Finais e Agradecimentos

André agradece a oportunidade e reforça seu convite para que o público acompanhe seu trabalho. Ele mantém um site (andremedeirosins.com) e está presente em outras redes sociais como 'X' (antigo Twitter) e plataformas de vídeo, sempre sob o nome André Medeiros Martins. Mestre Cruel, por sua vez, agradece e pede que o público curta, comente e compartilhe o conteúdo. Ele lembra que, se as redes sociais caírem, os ouvintes podem acessar seu site (mestrecruel.com) ou a rede social fetichista Kingran.

A conversa termina com uma reflexão leve e um lembrete de que as informações divulgadas (como links e projetos) são as que valem no momento da gravação (janeiro de 2026). O episódio se despede com um 'tchau' caloroso, deixando no ar a sensação de que ainda há muito a ser explorado sobre a sexualidade, a arte e os fetiches.