Introdução: O Podcast Confissões Consentidas e o Dom Ícaro
No episódio do podcast Confissões Consentidas, o apresentador Mestre Cruel (Renan) recebe Dom Ícaro. Seguindo o protocolo de acessibilidade, Renan se descreve como um homem branco de 33 anos, camisa preta com detalhes em azul, cabelo castanho com mechas e alguns fios brancos, sem barba, 'um pouco gordinho'. Dom Ícaro, então, faz sua autodescrição: 28 anos, cabelos pretos, cavanhaque preto (sem fios brancos), pele branca, usando um colã branco, jaqueta de couro branca, anéis de prata, pulseira de prata, alargador na orelha esquerda e dois brincos na orelha direita.
A Vida no Interior: Neurodivergência, Escola Franciscana e a Família Acolhedora
Dom Ícaro (nome civil Leonardo Costa) nasceu em Baependi, no circuito das Águas, sul de Minas Gerais. Ele foi uma criança neurodivergente com TDAH excessivo — 'três capetinhos no corpo de um menino' — muito curioso, criativo, impulsivo e agitado. Estudou até o segundo ano do ensino médio em um colégio franciscano, mas não se formou pelo método tradicional devido a descalculia (dificuldade com números que afetou química, física e matemática). Em contraste com a rigidez escolar, sua mãe foi sempre muito acolhedora, mente aberta, tendo-o muito cedo, o que gerou pouco conflito de geração. Ele teve 'possibilidade até demais para experimentar a vida'.
O Monge na Mantiqueira: Aos 16 Anos, Trocou a Escola pela Montanha
Aos 16 anos, após largar o ensino médio, Dom Ícaro tornou-se monge por um ano em uma religião de matriz hinduísta, nas montanhas da Mantiqueira. Acordava às 3 da manhã, tomava banho de cachoeira com água gelada, meditava, cantava mantras, aprendia instrumentos, cozinhava, cuidava dos templos, da horta e das plantas, aprendia bioconstrução e agrofloresta. A rotina incluía dormir no chão. Ele descreve a experiência como 'transformadora na concepção de existir enquanto sujeito'. Essa fuga do ensino tradicional foi sua maneira de unir o desejo por conhecimento mitológico e simbólico à necessidade de escapar da opressão regional e de uma metodologia educacional na qual não se encaixava.
Espiritualidade Ancorada: Chamanismo, Umbanda, Espiritismo e a Busca pelo Sagrado
Além do monacato hinduísta, Dom Ícaro passou por outras quatro ou cinco religiões com aprofundamento: chamanismo universal com ayahuasca (medicinas da floresta), espiritismo e umbanda. Ele sempre teve uma forte vinculação com a espiritualidade e ações sociais. Sua relação com o sagrado é central em sua vida, e ele resgata mitologias ancestrais (como Lilit, Dionísio, Ades, Medusa) para evocar símbolos e arquétipos que habitam o inconsciente coletivo, com o objetivo de ajudar as pessoas a entenderem que 'o prazer é sagrado' e que a opressão histórica sobre as sexualidades e corpos precisa ser transformada através da arte e da produção erótico-artística.
Descoberta da Sexualidade: De Criança 'Viada e Gordinha' à Aceitação
Dom Ícaro foi uma 'criança viada e gordinha' em uma cidade opressora, extremamente cristã (a cidade tem uma santa). Ele sofreu muito na escola e na família durante a infância e adolescência. Sua sexualidade despertou de forma precoce, mas o entendimento de sua orientação sexual veio na pré-adolescência, através do desejo por pornografia gay, em contraste com a culpa religiosa ('masturbação com culpa, desejo como algo errado, cabelo de viado'). Um momento chave foi encontrar vídeos de pornografia pop (como Rihanna) no computador do filho de seu padrasto, que era gay — isso lhe deu um lápis de possibilidade. Ele ficou com um DJ em uma balada por impulso de uma amiga. No dia seguinte, sua mãe o tirou do armário, chorou de preocupação com a violência, mas usou isso como ferramenta de acolhimento.
O Contato com o Fetichismo: Um Coroa Carioca, Velas e o Apelido 'Ícaro'
Dom Ícaro teve seu primeiro contato com o fetichismo através de um 'coroa carioca', professor de filosofia, em uma rede social de pegação de ursos. Ele tinha entre 15 e 16 anos — uma situação que ele hoje considera como 'sorte' por não ter virado estatística, pois o homem foi respeitoso. Foi esse homem quem lhe apresentou práticas fetichistas, incluindo velas (wax play). 'Ele brincava que eu era o Ícaro', conta. O apelido ficou. Naquele período, Dom Ícaro já consumia conteúdo de uma produtora chamada 'Man on Edge', mas foi com esse parceiro que ele pôde nomear e praticar o que já desejava e o que passou a desejar.
Wax Play: Fogo, Dor e Ressignificação da Dor Cristã
O wax play com velas é a prática fetichista central de Dom Ícaro. Ele explica que a vela traz uma 'ressignificação da dor cristã' — banhar-se naquilo que lhe causou dor, pingando cera no rosto, na boca, na língua, banhando o outro. Para ele, a vela permite externalizar uma produção criativa e artística, uma 'escultura social' onde ele denuncia dores — próprias e coletivas — para que, ao serem assistidas, toquem e transformem quem vê. Ele brinca com o fogo (elemento alquímico de transformação), com o líquido que se solidifica, com estímulos de dor, prazer e medo, compondo tudo em uma 'arte voltada ao erotismo' com uma intenção simbólica por trás.
Psicólogo e Concorrente do Mr. Fetiche Brasil: A Coragem de BOTAR A CARA
Dom Ícaro formou-se em psicologia (método não tradicional) e trabalha com casos de alta complexidade, incluindo vítimas e fetichistas. Em 2025, foi o segundo colocado no concurso Mr. Fetiche Brasil. Ele conta que sentia medo de represálias do Conselho Federal de Psicologia, mas decidiu 'socar o muro com o peito' e botar a cara em defesa de sua comunidade — naquele momento, a comunidade fetichista. Sua experiência foi de acolhimento surpreendente, tanto da comunidade quanto de seus pacientes. 'Alguns acham que sou apenas artista (o que não é mentira), outros imaginam o que faço mas não comentam. Como eu os ajudo a se compreenderem como seres humanos passíveis de tudo, eles também me compreendem como ser humano.' Ele inscreve suas performances com intenção simbólica (na cena do concurso, evocou Lilit com uma oração para abençoar o prazer disruptivo de todos que assistiam). Dom Ícaro afirma que 'chega um momento no tempo que é a nossa vez de habitar o tempo, botando a cara tapa e fazendo a nossa parte para que num futuro outras pessoas habitem o tempo e provoquem transformações'.
Jogo Rápido: Medo da Escassez e o Sonho de Multiplicar
No quadro de perguntas rápidas, Dom Ícaro revela que sua cor favorita é vermelho. Seu medo é a escassez. Seu desejo é mudar o mundo. Sua qualidade e o valor que mais aprecia nas amizades é o altruísmo. As pessoas que admira são Carl Jung e o artista Joseph Beuys. Como super poder para mudar o mundo, ele escolheria multiplicar coisas. Sobre o mito de Ícaro, ele diz: 'A queda de Ícaro também é uma queda em prol de uma transformação — no caso dele, sem muita continuidade, mas tocar o sol é tocar o sacro, o transcendente'. Uma prática fetichista que ainda não fez mas tem vontade: ser contido em uma masmorra psiquiátrica acolchoada, com cinto de contenção, todo branco, para adormecer e pensar. Para interpretá-lo no cinema, escolheria Wagner Moura ('talvez ele já tenha ganho o Oscar'). Por fim, ele define: 'Ícaro é a minha face mais sonhada do Léo criança — a representação de tudo que desejei para mim quando não pude num cenário opressor, cristão e limitante. Léo é uma flor em desenvolvimento.'
Considerações Finais e Redes Sociais
Dom Ícaro divulga seu Instagram profissional para consultas: @leopsique (Leopsic). Sua persona artística (conteúdo +18) está no Instagram e Twitter como @domicaro (Dom Ícaro). Mestre Cruel divulga @confissoesconsentidas, @domcsp, o site www.mestrecruel.com e a rede social fetista brasileira Kink Grun.