Introdução: O Podcast Confissões Consentidas e o Convidade Fernando Brutto
No episódio do podcast Confissões Consentidas, o apresentador Mestre Cruel (Renan) recebe Fernando Brutto, uma das pessoas mais conhecidas da cena fetista na prática de fisting. Seguindo o protocolo de acessibilidade, Renan se descreve como um homem branco de 33 anos, cabelo castanho, 'um pouco gordinho', usando uma camisa de couro com duas faixas vermelhas no lado direito. Fernando Brutto, então, se descreve: toporn (ator pornô ativo), performer em festas e historiador. É um homem branco, cisgênero, vestindo um casaco de couro (fake couro) com estampas de tigrada e cabelos pretos.
Origens: Do Interior Conservador à Liberdade em Brasília
Fernando nasceu no Rio de Janeiro, mas com 8 anos mudou-se com os pais para Nova Friburgo, na Serra Fluminense, uma cidade de cerca de 150 mil habitantes, que ele descreve como um lugar marcado por um conservadorismo permeante. Até os 17 anos, viveu lá 'desesperado por sair' e ir para uma metrópole. Quando achou que faria faculdade no Rio, acabou passando para a Universidade de Brasília (UnB) e foi morar em Brasília — que, segundo ele, não era conhecida na época como um local 'libertário ou vivagem'. Foi nesse período que sua descoberta sexual se consolidou: 'Quando vou para Brasília, consigo ter uma vivência completamente liberta e livre dentro da minha vivência gay'.
Da Cena Clubber à Liberdade Sexual nas Pistas
Fernando conta que sua vida gay sempre esteve associada às baladas e à cena de house music e techno. Ele frequentava festas nascentes como Dando, Horn e Lust, onde havia uma liberdade sexual que permitia transar em qualquer ponto da pista se quisesse. Essa vivência, segundo ele, partia de uma consciência geral dentro daquela cena de que 'sexo não é nada demais, não é nada além da conta'. Esse foi seu 'primeiro ponto de libertação' para uma visão de sexo muito mais livre. Além disso, sua formação como historiador (formado em relações internacionais e história pela UnB) lhe trouxe uma visão política que rejeita qualquer moral cristã ou judaico-cristã como definidora de sua vida. 'Não vejo o sexo como algo sacralizado, pecado ou nada mais do que uma ação humana', afirma. Ele também tem um casamento aberto.
O Acaso do Fisting: Um Vídeo Viral com Marcelo Bailxo Russo
A entrada de Fernando no fisting se deu por acaso, durante uma pegação no Rio com o ator Marcelo Bailxo Russo. Em meio ao sexo, Marcelo perguntou: 'Posso botar a mão dentro de você?' Fernando respondeu: 'Tenta, estamos aí'. A cena foi filmada (com permissão) e postada no antigo Twitter, viralizando. Fernando já tinha uma conta no Twitter para postar 'putarias despretensiosamente' porque sempre achou que fazer sexo em vídeo 'não é nenhum problema'. O vídeo viralizou, e as pessoas passaram a associar sua imagem ao fisting. Ele começou a fazer mais, achando o processo como um 'jogo de fases'. Ele enfatiza que sua abertura a novas possibilidades sexuais — 'sempre fui aberto literalmente a novas possibilidades' — foi o que permitiu essa vivência. A visibilidade do pornô o libertou de um trabalho que ele não amava (dar aulas de inglês) e, ironicamente, o trouxe de volta à paixão pela história, permitindo-lhe produzir vídeos sobre história LGBT.
Profissão: Ator Pornô em Primeiro Lugar e a Luta contra o Preconceito
Fernando afirma que, quando se define profissionalmente, coloca 'ator pornô' em primeiro lugar, antes de historiador ou qualquer outra profissão. Ele critica a noção de que o trabalho com sexo seria 'menos importante' ou teria 'menos valor moral' do que outras ocupações. 'Sexo é acima de tudo uma ação humana — como comer, beber. Eu produzo conteúdos audiovisuais reproduzindo uma ação humana e vendo esse conteúdo para um objetivo humano: saciar o prazer e o capitalismo.' Ele rebate a ideia de que vender imagens de sexo na internet seria 'desqualificador' para outras profissões, citando o exemplo de Lucas Efistin (restaurador). 'Você tem que inclusive lutar e se posicionar para isso', afirma, rejeitando a noção de que uma profissão degradaria a outra.
A Criação Libertária e a Formação em História
Fernando atribui sua visão libertária do sexo à sua criação familiar: seus pais foram do antigo Partido Comunista Brasileiro. Embora não sejam entusiastas de seu trabalho sexual (há conflitos), eles lhe proporcionaram uma educação não confissional e uma visão de mundo menos conservadora. 'Graças a Marx', brinca. Essa base, somada à sua formação histórica, construiu uma visão antimoralista e libertária. Ele não carrega o peso do 'pecado' ou da vergonha. Questionado sobre o momento em que se entendeu gay, Fernando descreve um processo típico da puberdade: perceber que prestava mais atenção nos rapazes, só conseguir gozar pensando no coleguinha, criar a 'ilusão' de ser bissexual, e finalmente se aceitar como gay aos 17-18 anos. Ele celebra o fato de que hoje adolescentes podem se assumir no ensino médio — algo impensável em sua geração.
História Pública: Documentário sobre Lugares Icônicos LGBT
Fernando produz uma 'coleção de posts, vídeos e ações' de história pública sobre lugares icônicos na história LGBT. Utilizando como referências os livros acadêmicos 'Devassos no Paraíso' e 'Além do Carnaval' (de James Green), que mapeiam espaços de circulação gay no Rio e em São Paulo, ele cria narrativas para dar voz a espaços apagados pela história mainstream. 'A história básica é feita do homem branco de 40 anos — a história do vencedor. Por que a história dos homens brancos cis héteros é mais importante do que a das mulheres negras lésbicas?' Ele critica o apagamento da história LGBT e usa sua plataforma para trazer esses pontos de circulação — cinemas pornô, pontos de pegação, saunas — de volta à memória coletiva.
Rio vs. São Paulo: Geografias da Liberdade e do Fetiche
Fernando analisa as diferenças entre as duas cidades. O Rio de Janeiro tem uma maior circulação de classes sociais devido à praia e à vivência de rua — 'no Rio, você praticamente não conhece a casa dos amigos, a rua é um espaço muito utilizado'. Isso torna a cidade mais democrática em termos de ocupação dos espaços. No entanto, São Paulo é mais cosmopolita, e a cena fetichista é maior e mais expressiva. Ele observa que Belo Horizonte tem uma cena fetichista em crescimento (especialmente pet play) e faz um paralelo com Berlim: ambas são capitais cercadas por regiões extremamente conservadoras (Minas Gerais e a antiga Alemanha Oriental), e a repressão histórica gera, como consequência, movimentos organizados muito fortes de expressão. Quanto à liberdade corporal, Fernando conta sua experiência ao tirar a camisa em São Paulo (o que chamou atenção de 'cactos') — um gesto absolutamente comum no Rio, dentro de ônibus ou na praia.
Jogo Rápido: Vermelho, Caio Castro e Role Play
No quadro de perguntas rápidas, Fernando revela que sua cor favorita é vermelho. O filme que ele indica é o documentário 'Copacabana, 4 de Maio' (sobre os preparativos do show de Madonna no Rio, que aborda a sobrevivência queer e no qual ele é um dos personagens). Para interpretá-lo no cinema, escolheria Caio Castro ('quero ver o fisting de verdade'). Sua frase mais usada? 'Repete' (porque ele fala rápido demais). Sobre práticas fetichistas não realizadas, ele revela o 'grande segredo': o fisting nunca foi seu grande fetiche. Na verdade, ele é role player e verbal. 'Com o verbal, tudo é possível. Eu gosto de dominação e submissão, principalmente verbal. O único sexo que me brocha é o sexo mudo.' Ele foi conduzido ao fisting por Marcelo Bailxo Russo, que tinha uma 'atitude dominante e uma performance dominante dentro do role play'. Por fim, sobre a relação entre Rodrigo (seu nome civil) e Fernando Brutto: 'Eles são expressões da mesma coisa. Nós somos complexos, multifacetados. Fernando Brutto é a versão mais expressiva socialmente; Rodrigo é o Fernando Brutto com o marido, amigos e família. São só nomes dados para as mesmas expressões do mesmo ser'.
Considerações Finais e Redes Sociais
Fernando divulga suas redes sociais: no Instagram (@fernando_brutto), onde o conteúdo é mais 'histórico e familiar' (o que a plataforma permite). No Twitter (ele se recusa a chamar de X), o conteúdo é mais explícito: @fernando_brutto (mesmo username com dois 't's). Mestre Cruel divulga as redes do podcast (@confissoesconsentidas, @domcsp) e o site www.mestrecruel.com.