Introdução: O Podcast Confissões Consentidas e o Convidade Sub Rod
No episódio do podcast Confissões Consentidas, o apresentador Mestre Cruel (Renan) recebe seu amigo Rodrigo, também conhecido como Sub Rod. Seguindo o protocolo de acessibilidade do programa, Renan se descreve como um homem branco de 33 anos, cabelo castanho, usando uma camisa preta com detalhes em azul. Rodrigo, então, faz sua autodescrição: tem 1,85m, usa jaqueta de vinil, óculos e cabelo curto.
A Carreira Acadêmica: Teologia, História Medieval e a Figura do Diabo
Rodrigo é carioca, tem 44 anos e vive em São Paulo há 3 anos e meio. Antes disso, morou na Alemanha, Suécia, Itália e Inglaterra. Sua trajetória profissional é marcada pelo mundo acadêmico. Sua primeira graduação foi em teologia, seguida por história. Tornou-se professor de história no Rio de Janeiro. Seu interesse por história medieval o levou a mudar-se para a Noruega, onde fez mestrado em Idade Média na Universidade de Oslo, sempre pesquisando religião e rituais. Ele recebeu uma bolsa para trabalhar com manuscritos na Biblioteca do Vaticano em Roma por quase 2 anos e meio, e depois foi para a Alemanha realizar seu doutorado em história medieval, com foco na figura do diabo — especificamente a construção da imagem pictórica e literária do diabo na Idade Média (do século V ao XV).
A Descoberta do Fetiche na Adolescência e as Revistas Subterrâneas
O fetichismo, segundo Rodrigo, entrou em sua vida muito antes da academia, ainda na adolescência, nos anos 90. Ele descreve a dificuldade da época: não havia internet (ele só teria acesso aos 15 anos, em 1996), e os poucos materiais disponíveis eram revistas importadas caríssimas em dólar. No Rio de Janeiro, ele descobriu bancas de jornal no subsolo de galerias do centro da cidade (na Avenida Rio Branco, próximo à Galeria Leonardo da Vinci) que importavam material pornográfico e erótico. Com seu 'suado dinheirinho da mesada', comprava revistas em preto e branco, em inglês, com fotos amadoras. Foi assim que ele conheceu, por exemplo, Tom of Finland. No final dos anos 90, surgiu o movimento dos ursos no Rio e em São Paulo, e Rodrigo participou dos primeiros encontros, conhecendo pessoas mais velhas e experientes que o ajudaram a entender melhor o universo.
Submissão, Dinâmicas de Poder e a Comparação com a Liturgia
Rodrigo afirma que sempre soube que gostava de estar na posição submissa, antes mesmo de experimentar. Ele se fascina por dinâmicas de poder e por estar com pessoas que considera 'poderosas, interessantes, fortes'. Quando questionado sobre a correlação entre estudar religião/liturgia e sua submissão, ele responde: 'sem dúvida'. Ele explica que a liturgia é onde as dinâmicas de poder se expressam fisicamente e teatralmente — um 'grande teatro da espiritualidade'. Rodrigo também é curioso sobre o que leva as pessoas a fazerem o que fazem, o que o levou à história, ciência política, psicanálise e psicologia. Ele gosta de ler publicações acadêmicas sobre a história do universo fetichista sob a perspectiva da sociologia, antropologia e psicanálise.
Vida na Alemanha, o Casamento com um Alemão e a Prática do Gimp
Rodrigo foi casado por 18 anos com um alemão que não era do meio fetichista, mas sabia de seus gostos. O relacionamento era fechado e monogâmico por cerca de 10 a 11 anos. Quando se mudou para Berlim em 2012/2013 para seu doutorado, ele entrou em contato com a capital do fetiche. Através do meio dos ursos (que seu marido frequentava), ele fez a ponte para o mundo fetichista. Chegou a um acordo com o marido para experimentar algumas práticas. Rodrigo sempre permaneceu no papel de submisso — 'nunca tive paciência para dominar ninguém'. Uma prática que o excitou muito, especialmente na Alemanha, foi ser gimp (figura despersonalizada, muitas vezes de látex ou couro, que atua como objeto). Ele explica que na cultura alemã homossexual fetichista, há grande dificuldade em lidar com sentimentos, apegos e construção de relacionamentos. Por isso, despersonalizar-se como gimp torna tudo mais fácil: o objeto se torna literalmente um objeto, mais fácil de ser desejado, sem o envolvimento emocional que atrapalharia práticas mais 'hardcore'. Hoje, Rodrigo afirma não dar mais conta da prática por questões de idade e saúde.
Religião, Homofobia e a Terapeuta Evangélica que o Ajudou
Rodrigo vem de uma família religiosa: parte católica, parte evangélica. Ele sofreu muito até os 17-18 anos com o discurso homofóbico internalizado, pensando que iria para o inferno e que era uma 'aberração'. Aos 17 anos, seus pais o mandaram para uma terapia que 'ia ajudá-lo a se curar'. No entanto, a terapeuta — uma mulher evangélica, esposa de pastor e amiga da família — fechou a porta do consultório e disse: 'Sou esposa de pastor e amiga da sua família da porta para fora. Aqui dentro, quero te ajudar a se entender, se aceitar e ser feliz com você mesmo'. Ela foi sua terapeuta por quase 3 anos e o ajudou imensamente. Paralelamente, Rodrigo já estudava teologia e começou a ter contato com correntes teológicas contemporâneas com visões diferentes sobre sexualidade. A maior parte de sua família o aceitou bem — seu pai foi seu 'melhor amigo' no processo, assim como suas avós e sua madrinha. Sua mãe, porém, teve sérios problemas de aceitação, não apenas de sua sexualidade, mas também de sua opção por uma teologia 'desviada'.
A Igreja Anglicana e a Pastoral LGBT
Atualmente, Rodrigo frequenta a Igreja Anglicana. Ele se considera uma pessoa espiritual que não permite que a homofobia roube sua transcendência. Em Berlim, encontrou a Igreja Anglicana de São Jorge, com celebrações em inglês, e foi muito bem recebido por uma comunidade diversa e inclusiva — apesar de tradicional na liturgia. 'Cheguei no lugar que eu curto', afirma. Hoje, na Catedral Anglicana da Santíssima Trindade em São Paulo (no campus do Elias), ele participa ativamente da pastoral LGBT, que se reúne toda primeira sexta-feira do mês para debates sobre saúde, envelhecimento, relacionamentos, aposentadoria e outros temas focados na comunidade.
Do Desejo de Ser Padre à Sala de Aula: Professor e a Comunidade Fetichista
Rodrigo admite que houve o desejo de ser padre ou pastor, mas a curiosidade pelas grandes questões da existência o levou a estudar teologia — e, ao perceber que a teologia não dava todas as respostas, foi para a história entender a origem das formas de pensar. O desejo de liderança religiosa se transformou no prazer de dar aulas. Ele deu aula para o ensino médio e para mestrado, e conta que, anos depois, reencontrou no Instagram dois ex-alunos que entraram na comunidade fetichista. Um deles, inclusive, é DJ de uma festa fetista. A descoberta ocorreu naturalmente, algum tempo após o término do curso.
A Loja Mr. Dead e a Organização do Mr. Fetiche Brasil
Rodrigo foi sócio de uma loja fetista famosa em São Paulo, a Mr. Dead, que funcionou de 2019 até o ano da gravação. A loja foi um ponto de encontro para a comunidade, mas foi encerrada devido à dificuldade com importação, altos custos, burocracia e desafios societários. Atualmente, Rodrigo é um dos organizadores do Mr. Fetiche Brasil, um concurso que ele considera 'um dos três maiores eventos fetistas do mundo'. A ideia surgiu em uma conversa telefônica ainda na Alemanha, após a pandemia, com o objetivo de agitar a comunidade. O concurso reúne 10 candidatos do Brasil inteiro (não apenas de São Paulo) e se tornou um evento de grande porte. Rodrigo, como historiador, tem a preocupação de guardar todas as fontes primárias (folders, fotos, vídeos) para que no futuro alguém possa escrever a história do fetiche no Brasil. Ele brinca que 'até os alemães fazem estradas maravilhosas, ingleses fazem boas publicações, italianos fazem boas comidas, mas festa quem faz é o brasileiro'.
Jogo Rápido: Azul, Citações e a Avó
No quadro de perguntas rápidas, Rodrigo revela que sua cor favorita é azul. Uma frase que usa com frequência é: 'Para mal fodedor, até os culhões atrapalham'. O filme que indica é 'Amadeus'. O livro que está lendo no momento é 'O Grupo e o Mal', de Cotado Caligares, sobre psicologia de grupo. O pensador que o interessa no momento é Foucault, especialmente 'A História da Sexualidade'. Para interpretá-lo em um filme, escolheria Miguel Falabella. A pessoa que mais admira é sua avó materna. Sobre práticas fetichistas, ele afirma: 'Todas as que eu tinha vontade de fazer, eu realizei. Algumas não posso mais, mas realizei'. Por fim, ele define Rodrigo (em relação a Sub Rod) como 'uma pessoa numa jornada tentando entender um pouco melhor sobre si e sobre a vida — não tô conseguindo muito, mas tô tentando'.
Considerações Finais e Redes Sociais
Rodrigo se descreve como 'tinhoso' e que não quer desistir, apesar dos desafios de saúde. Suas redes sociais são: no Instagram, @sub_line (com underline). Ele também menciona a página @grupo.fetiche.brasil e o site mrfetichebrasil.com. Além disso, anuncia que está traduzindo sua dissertação de doutorado (escrita em inglês em linguagem acadêmica) para publicá-la como um livro de divulgação científica. Mestre Cruel divulga as redes do podcast (@confissoesconsentidas, @domcsp) e o site www.mestrecruel.com.