Introdução: Da Engenharia de Precisão ao Mercado de Food Service
No Resolva Cast, recebemos Fernando Rios, engenheiro mecatrônico e fundador da Smart Kit, empresa especializada em automação e inteligência para cozinhas profissionais. Com uma bagagem que inclui passagens pela indústria ótica, automotiva e de autopeças, Fernando traz uma visão única sobre como transformar cozinhas em pequenas indústrias de alimento. Formado em tecnologia em mecânica de precisão e engenharia mecatrônica, ele começou sua carreira programando em Pascal e C++ em computadores 386 com tela verde. Sua primeira grande experiência foi em uma multinacional francesa do ramo ótico, onde instalava e configurava máquinas de desbaste de lentes que permitiram o conceito de "óculos em uma hora". Depois, migrou para a indústria automotiva e de motopeças, onde trabalhou com fibra de carbono desenvolvendo escapamentos de alta performance para a Copa Kawasaki nos Estados Unidos e para as 500 Milhas de Interlagos.
O Choque de Realidade: Da Indústria Automotiva para a Cozinha Arcaica
Em 2009, Fernando decidiu sair da indústria automotiva e, sem pretensão, entrou no mercado de equipamentos de cozinha profissional. O impacto foi imediato e chocante: segundo ele, foi como "sair da NASA para trabalhar com carroça". Enquanto a indústria automotiva já utilizava injeção eletrônica e mapeamento de motores em dinamômetros, o setor de cozinha profissional ainda operava de forma extremamente arcaica, com equipamentos rudimentares e pouca inovação. Ele percebeu que não havia tecnologia disponível no mercado brasileiro para evoluir. Essa lacuna, no entanto, representava uma imensa oportunidade. O dono da empresa onde trabalhava logo o transferiu para o comercial, por reconhecer suas habilidades técnicas e de vendas. Fernando, que não tinha experiência prévia em vendas, aprendeu na prática e começou a se destacar.
A Venda Técnica e a Importância do Conhecimento do Produto
Fernando observou que os vendedores da empresa tinham um índice de fechamento muito baixo (2 em cada 10 propostas), enquanto o dono, Maurício, fechava 7 em cada 10 visitas. A diferença era clara: os vendedores não eram técnicos e não conseguiam explicar o próprio produto nem justificar por que o cliente deveria comprá-lo em vez da concorrência. A partir dessa percepção, Fernando desenvolveu o conceito de venda técnica: mostrar ao cliente a vantagem real e tangível do equipamento, alinhada à sua dor específica. Ele ressalta que a recorrência é o principal ativo de qualquer empresa, e para alcançá-la, é essencial saber se o produto atende ou não à necessidade do cliente. Após passagens por duas empresas do setor, onde teve problemas com sócios e contratos mal redigidos, Fernando saiu do mercado de cozinha por um tempo e foi trabalhar com display e materiais de merchandising para grandes marcas como Havaianas e Coca-Cola, numa fábrica de 25.000 m² que possuía robôs de solda, corte a laser e dobra. Lá, viveu a experiência de passar por uma auditoria da Coca-Cola (com um checklist do tamanho de uma bíblia), que avalia desde o tratamento de funcionários até a ausência de trabalho escravo.
Empreendedorismo, Erros e Aprendizados: A Criação da Smart Kit
Em 2012, Fernando foi à feira NRA (National Restaurant Association) em Chicago e viu que o mercado americano de equipamentos de cozinha estava 30 anos à frente do Brasil. Essa constatação o motivou a abrir a Smart Kit em 2013. Inicialmente, ele oferecia consultoria para projetos de cozinha, mas esbarrava no mesmo problema: a falta de bons fornecedores. Decidiu, então, se tornar ele mesmo o fornecedor. Seu primeiro grande projeto de consultoria foi para a Elv Cozinhas, uma das maiores do Brasil na época. Ele certificou toda a linha de refrigeradores da empresa no Inmetro em apenas três meses (quando eles já tentavam há um ano) e desenvolveu o que considerava a melhor linha de produtos do mercado em 2014.
Contrato de Joint Venture e Sociedade Mal Sucedida
Ao começar a importar equipamentos, Fernando fez um contrato de joint venture com uma empresa que se ofereceu para ser sua sócia na importação. O resultado foi desastroso: o contrato foi mal redigido (sem a devida análise de um advogado), e o sócio usou os contatos dos fornecedores internacionais para se tornar concorrente direto. Fernando perdeu dois anos de trabalho, quase todos os fornecedores e ficou sem capital. No entanto, os fornecedores internacionais e os clientes (que ele havia conquistado com seu trabalho na Elv) continuaram a apoiá-lo. Com humildade, ele pediu ajuda aos clientes e conseguiu levantar $3.000 para recomeçar. Ele destaca duas lições fundamentais: nunca faça um contrato de sociedade sem um advogado e não crie bloqueios mentais (como “nunca mais terei sócio”), pois o erro não define o futuro.
A Sociedade de Sucesso e a Escala da Smart Kit
Em 2019, Fernando foi apresentado a um fundo de investimento que havia adquirido uma empresa de automação chamada Valconex, comandada por João e Daniel. Os três se tornaram sócios, com uma divisão de habilidades complementares: Fernando ficou com a parte técnica, desenvolvimento de produtos e validação de fornecedores; Daniel assumiu o comercial, pessoas, logística e importação; João ficou com o financeiro e produção. A sinergia era grande porque os clientes eram os mesmos, mas nenhum dos dois lados fornecia o que o outro fornecia. Após a sociedade, a empresa cresceu exponencialmente: hoje possuem galpão próprio de 2.000 m² (com mais 1.000 m² em construção) e um terreno de 10.000 m² para futura expansão. A Smart Kit atua no topo da cadeia de suprimentos, fornecendo componentes, peças, controladores, queimadores e automação para fabricantes de equipamentos de cozinha profissional. Entre seus clientes estão Prática, Skinsen, Shire e Tramontina, que hoje expõem seus produtos em feiras internacionais competindo com marcas tradicionais americanas e europeias.
Eficiência Operacional: Fritadeira Elétrica vs. Gás
Um dos pontos altos da conversa é a análise técnica comparativa entre fritadeiras elétricas e a gás. Fernando derruba o mito de que a gás é melhor, apresentando dados concretos. Para uma produção de 20 kg de batata frita por hora, com tanque de 20 litros de óleo:
- A fritadeira a gás consome cerca de 27 kW de potência, o que equivale a aproximadamente 2,1 kg de gás por hora (já que 1 kg de gás produz 13 kW).
- A fritadeira elétrica, com a mesma capacidade de produção, consome no máximo 15 kW, ou seja, 38% menos potência.
- A elétrica é mais rápida no aquecimento, tem controle de temperatura mais preciso, retomada mais rápida (após colocar batatas congeladas) e manutenção mais barata (componentes como termostato e sensores são mais acessíveis que os de sistemas a gás).
- O custo operacional por hora da fritadeira elétrica é aproximadamente 38% menor que o da versão a gás, com preços de equipamento similares.
A ressalva é a disponibilidade de energia no ponto: se o local não tem energia trifásica ou carga suficiente, a opção a gás pode ser a única viável.
Dicas Essenciais para Quem Vai Montar um Restaurante
Fernando compartilha orientações práticas para empreendedores do setor de food service:
- Analise o ponto comercial antes de fechar contrato: verifique a disponibilidade de energia elétrica (trifásico) e gás (rede ou espaço para casinha de gás). Um ponto movimentado pode estar vazio justamente por falta desses recursos.
- Defina a capacidade de produção desejada: quantos hambúrgueres, pizzas ou refeições por hora você pretende vender? A partir daí, dimensione os equipamentos.
- Mantenha o cardápio enxuto: cada item adicionado exige um novo processo de produção (fritura, grelhado, cozimento) e, consequentemente, novos equipamentos. Cardápios extensos aumentam o estoque, a complexidade da cozinha, o treinamento e o risco de erro.
- Conheça profundamente as ferramentas que você vai usar: a maioria dos erros de dimensionamento (super ou subdimensionamento) acontece porque arquitetos ou donos não sabem o quanto cada equipamento produz por hora.
- Encare sua cozinha como uma indústria: projete-a com a mesma disciplina de uma linha de produção. Por isso, um arquiteto comum raramente consegue projetar bem uma cozinha profissional – é necessário buscar um especialista.
O exemplo de sucesso citado é o do Henrique (Pets), que vendeu mais de 300.000 hambúrgueres em um mês (chegando a 350 mil com uma collab do Bob Esponja) com um cardápio de apenas 5 a 7 itens.
Tendência Futura: Cozinha 4.0 e o Gancho para o Próximo Episódio
Como gancho para uma futura participação, Fernando adianta o conceito de Cozinha 4.0, que tem gerado muito ruído nas redes sociais. Ele define o critério fundamental: para ser 4.0, a cozinha (ou parte dela) deve ser autônoma, ou seja, processos de produção executados integralmente por robôs, sem intervenção humana. O exemplo dado foi uma estação de batata frita 4.0 apresentada na NRA 2025 em Chicago, onde robôs recebiam o pedido, fritavam, salgavam, embalavam e entregavam a caixinha pronta para o operador entregar ao cliente. Ele ressalta que controlar equipamentos por celular ou ter telas touchscreen não caracteriza uma cozinha 4.0 – isso é apenas uma cozinha inteligente. O tema será abordado em profundidade em um próximo episódio, dada sua relevância diante do problema mundial de falta de mão de obra no setor de alimentação.