Como Liderar Com Humanidade Sem Perder Resultados? | Gravação de Podcast com Tati Mota e Alê Prates

Início \ Produções \ Como Liderar Com Humanidade Sem Perder Resultados? | Gravação de Podcast com Tati Mota e Alê Prates

Insights do Podcast com Tati Mota e Alê Prates

No recente episódio do podcast promovido pela Cutinari (empresa do Grupo Raízes), a diretora Tati Mota recebeu um dos maiores especialistas em liderança e desenvolvimento humano do Brasil, Alê Prates. O tema central não poderia ser mais atual e desafiador para os gestores modernos: Como liderar com humanidade e, ao mesmo tempo, garantir e superar resultados?

O mundo corporativo está passando por transformações profundas e aceleradas. As relações de trabalho, as expectativas das novas gerações e a pressão constante por performance criaram um cenário complexo. Durante quase uma hora de um bate-papo leve, transparente e repleto de sabedoria prática, Alê Prates desmistificou o papel do líder contemporâneo, abordando desde a importância do engajamento genuíno até os perigos do burnout na média gestão. A seguir, detalhamos os principais aprendizados deste encontro enriquecedor.

O "Romântico Corporativo" e o Fim do Fla-Flu Geracional

Logo no início da conversa, Alê Prates se autodefine como um "romântico corporativo". Ele acredita firmemente na sinergia entre pessoas competentes e empresas evolutivas. Um dos seus maiores propósitos atuais é acabar com o que ele chama de "Fla-Flu" no mercado de trabalho: a guerra de narrativas entre as organizações e a nova geração de profissionais.

De um lado, temos empresas ainda ancoradas em modelos de gestão ultrapassados, baseados exclusivamente na pressão e no controle. Do outro, uma força de trabalho (de todas as idades, não apenas os mais jovens) que já não aceita dividir a vida em fases estanques — "primeiro estudo, depois trabalho e só vivo quando me aposentar". As pessoas hoje querem aprender, trabalhar, produzir e viver com qualidade simultaneamente.

O conflito surge quando a liderança clássica julga o comportamento atual. O profissional que encerra o expediente pontualmente às 18h para cuidar da saúde ou ir à academia é frequentemente tachado de "folgado" ou "desengajado" por líderes que romantizam jornadas de 14 horas diárias. Alê provoca: "Quem está doente é quem não tira uma hora para cuidar de si mesmo, não o profissional que impõe limites saudáveis". O caminho para a liderança do futuro não é o julgamento, mas sim a permeabilidade — a capacidade de ouvir, compreender e aprender com essa nova mentalidade, atuando como mentores e não como chefes autocráticos.

Invertendo as Prioridades: Pessoas no Centro da Agenda

Qual é a verdadeira prioridade da maioria dos líderes hoje? Segundo os mais de 5.000 diagnósticos conduzidos pela equipe de Alê Prates, a resposta é quase unânime: 1º Resultados/Metas, 2º Operação/Urgências, e só em 3º (quando sobra tempo) as Pessoas.

Essa inversão lógica é o que está adoecendo o mercado. O líder é cobrado e recompensado financeiramente apenas pelo resultado final, então ele concentra toda a sua energia ali, utilizando a pressão como ferramenta de gestão. No entanto, a pressão destrói a saúde mental e não ensina nada a ninguém. Se um colaborador entrega 5 quando a meta era 10, não é por maldade; é por falta de recurso, técnica ou desenvolvimento.

A grande virada de chave para liderar com humanidade é colocar as pessoas no topo da agenda. "Se eu desenvolver as pessoas, der feedback constante e estiver próximo, elas executarão os processos com excelência e o resultado será uma grata consequência", afirma Alê. O resultado não deixa de ser o alvo, mas o veículo para alcançá-lo passa obrigatoriamente pelo desenvolvimento humano. O papel do líder é prover recursos e ensinar, antes de cobrar cegamente.

Desmistificando o Engajamento: A Liberdade de Fazer o Que Deve Ser Feito

O engajamento é um dos termos mais repetidos e menos compreendidos pelas empresas. Alê Prates, autor do livro "Não negocie com a preguiça", traz uma definição libertadora: Engajamento é fazer, por livre e espontânea vontade, o que tem que ser feito.

O engajamento é um processo puramente emocional e, portanto, incontrolável. Ninguém acorda e decide ligar o "botão do engajamento". Ele flutua. Um colaborador excelente pode estar desengajado hoje porque tem um filho doente em casa ou enfrenta problemas pessoais. Exigir alta performance ininterrupta de seres humanos é irreal.

O que o líder pode controlar são os fatores que geram o comprometimento. As pessoas não se engajam necessariamente com a tarefa (que pode ser repetitiva ou chata), mas sim com um propósito maior atrelado a ela. Alê usa o exemplo da salada: poucas pessoas amam comer salada pelo sabor, mas comem porque estão engajadas com a própria saúde. No trabalho, se o líder consegue vender um propósito — seja crescimento profissional, aprendizado, reconhecimento ou autonomia —, o colaborador se comprometerá com a meta. "O engajamento é liberdade. Eu preciso deixar o outro livre para que ele queira se engajar", conclui.

Feedback: A Melhor e Mais Barata Ferramenta de Desenvolvimento

Quando se trata de reverter a baixa performance, não há consultoria, palestra motivacional ou treinamento externo que supere o poder do Feedback contínuo e estruturado dado pelo líder direto.

A baixa performance só tem duas causas: ou a pessoa não sabe fazer (falta de conhecimento técnico ou processo) ou não quer fazer. Se a questão for técnica, o líder deve atuar como um desenvolvedor. O líder "cobrador" apenas pergunta por que a meta não foi batida e exige melhora (algo que um robô poderia fazer). Já o líder "desenvolvedor" senta junto, analisa os números, identifica o gap de competência e ensina o colaborador a melhorar.

Se, após todo o treinamento e feedback, o problema for comportamental (a pessoa não quer fazer e não se alinha à cultura da empresa), o líder cumpre seu papel tomando a decisão difícil do desligamento. "Chegou a hora de deixá-lo ir", como citou Alê, é a consequência justa de quem não compartilha dos mesmos valores da organização. O importante é que o feedback seja olho no olho (mesmo que por câmera no trabalho remoto) e no momento em que as coisas acontecem, e não terceirizado ou negligenciado até que o turnover se torne inevitável.

Sustentabilidade, Cultura e Felicidade no Trabalho

Tati Mota destacou o orgulho da Cutinari em ser a primeira empresa de seu segmento certificada pelo Sistema B, equilibrando propósito, pessoas e planeta. Alê Prates validou que a verdadeira sustentabilidade empresarial só se sustenta quando é genuína e faz parte da cultura, e não quando é uma mera jogada de marketing.

No que tange à cultura organizacional, o recado é claro: o papel aceita tudo (missão, visão, valores), mas a cultura só é testada quando os resultados não vêm. A liderança deve ser o espelho intocável dos valores pregados pela empresa. Além disso, as empresas devem reconhecer publicamente os colaboradores que exibem comportamentos éticos e alinhados à cultura, e não apenas aplaudir aqueles que batem metas a qualquer custo (os que deixam um "rastro de sangue" pelo caminho).

Sobre a "felicidade no trabalho", uma pergunta do público trouxe uma reflexão essencial. É papel da empresa fazer o funcionário feliz? Não diretamente. O papel do líder é promover um ambiente favorável à felicidade. Um ambiente seguro, justo, transparente, onde a pessoa se sinta desenvolvida e respeitada. Contudo, a felicidade individual depende de variáveis que a empresa não controla (vida pessoal, saúde, finanças). O alerta perigoso que Alê deixa é sobre a "penalização do competente": muitas vezes, o líder sobrecarrega o melhor funcionário com mais trabalho, levando exatamente a pessoa mais engajada ao esgotamento (burnout).

A Doença da Média Gestão e o Futuro da Liderança

Um dos momentos mais sensíveis do podcast abordou o adoecimento mental da média gestão (coordenadores e gerentes). Eles são imprensados pela pressão por resultados vinda da alta diretoria e pela necessidade de acolher e desenvolver os times abaixo deles. O grande problema é que a saúde mental da liderança ainda é um tabu. O líder foi treinado para ser um "super-herói" infalível, que não chora, não erra e não descansa.

A solução passa por três passos: O líder precisa priorizar radicalmente a própria saúde física e mental (dormir bem, não olhar e-mails no fim de semana, exercitar-se); O líder deve ser vulnerável e dividir os problemas com sua equipe; A empresa precisa permitir que a liderança adoeça. Se a cultura da empresa valoriza o executivo que diz "eu trabalho tanto que não tenho tempo para ter depressão", ela está chamando os doentes de "preguiçosos" nas entrelinhas, criando um ambiente tóxico e silencioso.

Olhando para o futuro, Alê Prates cravou qual será a habilidade mais exigida (e mais escassa) nos próximos anos: o Pensamento Crítico. Na era da Inteligência Artificial e da polarização, onde as pessoas terceirizam o raciocínio para algoritmos e aceitam informações rasas, o profissional que conseguir sentar, analisar um problema até o seu cerne, duvidar de respostas prontas e construir um planejamento profundo será o talento mais valioso do mercado.

O Segredo Prático: O Poder dos Rituais

Para encerrar com uma dica de ouro e totalmente prática, Alê revelou o que salvou a sua vida pessoal e a sua carreira na última década: a criação de Rituais.

Sair do modo aleatório (onde a vida e as demandas urgentes dos outros controlam a sua agenda) e passar para o modo intencional. Criar rituais inegociáveis para o que é importante. Seja um ritual de treino diário das 7h às 8h, seja uma reunião sagrada de alinhamento com a equipe toda segunda-feira pela manhã. Quando você se coloca na agenda e cria rituais para a saúde, para o casamento, para os filhos e para a gestão, a ansiedade despenca e o sentimento de controle sobre o próprio destino floresce.

O episódio, que marcou o lançamento do relatório anual de sustentabilidade da Cutinari, provou que liderar com humanidade não é "ser bonzinho" ou abrir mão dos lucros. Liderar com humanidade é ser justo, transparente, desenvolvedor e, acima de tudo, intencional no cuidado com as pessoas que, no fim das contas, são as verdadeiras responsáveis por entregar qualquer resultado extraordinário.