Carlo Cauti e João Belucci: Jornalismo Na Era Da Inteligência Artificial | RECH #05

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O Desastre da COP 30 em Belém: Hipocrisia Ambiental e Gestão Pública Ineficiente

O jornalista Carlo Cauti, que cobriu a COP 30 em Belém, relata uma experiência de desorganização e contradições ambientais que expõem a hipocrisia do ativismo climático oficial. O evento foi montado sobre a antiga pista do aeroporto de Belém, um galpão improvisado de 1 km de extensão, sem licitação e entregue à organização internacional OEI (que havia contratado a primeira-dama Janja no início do mandato). Sob um calor de 35 graus no Pará, o galpão foi equipado com 160 aparelhos de ar-condicionado gigantescos que, além de não funcionarem adequadamente (muitos sopravam ar quente), eram alimentados a diesel — uma fonte ultra poluente. A logística foi igualmente absurda: o governo brasileiro alugou dois transatlânticos de luxo vindos da Itália, que navegaram 14 dias vazios (queimando centenas de milhares de litros de diesel) e ficaram ancorados por semanas em um terminal portuário a 40 km de Belém, em frente a uma favela sem saneamento básico. Os delegados precisavam se deslocar de carro (mais combustível) por 40 km para chegar ao evento, enquanto os navios mantinham suas chaminés fumegando 24 horas por dia. Cauti destaca que a própria Greta Thunberg não compareceu, e que a imprensa internacional, como a TV Suíça, mostrou o contracenso de o governo do Pará estar derrubando 14 km de floresta amazônica para construir um anel viário — exatamente durante a conferência do clima. O saldo, nas palavras de Cauti, é de uma "micareta" com pessoas fantasiadas de animais (urso polar, camelo, tartaruga, curupira) em um ambiente que a imprensa italiana classificou como palhaçada e show de horrores.

As Contradições Insustentáveis da Agenda Verde: Carros Elétricos, Painéis Solares e Mineração Predatória

A conversa aprofunda as contradições fundamentais da agenda ambientalista atual. Carlo Cauti e João Belut apontam que a soluções" verdes são, na prática, altamente poluentes. Os painéis solares, por exemplo, são produzidos majoritariamente pela China usando mão de obra análoga à escravidão e minerais extraídos com mercúrio, devastando terrenos. Não é possível produzi-los no Brasil ou na Europa com as leis ambientais rígidas, então compra-se da China, que desmata e polui em seu território. Além disso, a vida útil de um painel solar é curta (menos de 10 anos), e sua eficiência energética declina ao longo do tempo — o custo ambiental de produção é maior do que o benefício gerado. Os carros elétricos são apresentados como outra "bomba ecológica": suas baterias de lítio e terras raras são extremamente poluentes e, após 10 anos, não podem ser recicladas; o descarte é um problema sem solução. Além disso, a eletricidade que os alimenta vem, em países como China e Polônia, da queima de carvão mineral. A própria Volkswagen anunciou o fechamento de três fábricas na Alemanha (algo inédito desde a Segunda Guerra Mundial) por causa da histeria da proibição de carros a combustão em 2035, que levou as montadoras a pararem investimentos. O balanço é claro: a agenda verde está destruindo empregos, piorando o padrão de vida na Europa e transferindo a poluição para países mais pobres.

O Estado Atual do Jornalismo: Bestas Quadradas, Ignorância e Militância

Os jornalistas analisam a degradação intelectual do jornalismo brasileiro. João Belut exibe um vídeo clássico de uma repórter que afirma que Luiz Lira lê 900 páginas por hora (15 páginas por minuto) e, num teste, o entrevistado vira uma página em "5 segundos" — um claro exemplo do que Augusto Nunes chamava de "besta quadrada". Carlo Cauti, que dá aulas em faculdades de jornalismo (USP, Universidade Federal do Ceará, Santa Catarina), relata que a maioria dos novos jornalistas não sabe fazer uma regra de três, não sabe definir o que é PIB, não sabe usar crase e, pior, não sabe quem é o ministro da Fazenda — demonstrando total falta de interesse pela política e pela economia. Ele conta que, ao contratar estagiários, faz duas perguntas: onde usar a crase e quem é o ministro da Fazenda. Faculdades que custam milhares de reais formam jovens que não sabem responder nem uma nem outra. Os mais velhos que restaram nas redações vivem no mundo analógico, tentando ser os primeiros a dar notícias em uma era em que isso não é mais vantagem competitiva. O resultado é um jornalismo que mistura fato e opinião, publica barrigadas (notícias falsas) por falta de checagem, e se tornou essencialmente militante — vide o caso da Globo no hospital em Gaza (novembro de 2023), que atribuiu a Israel um míssil que na verdade era do Hamas e caiu no estacionamento, e nunca pediu desculpas.

Portais Fantasmas, Ecossistemas de Fake News e a Orquestração de Ataques

João Belut expõe o funcionamento de um ecossistema de desinformação composto por portais sem credibilidade que se passam por veículos sérios. Ele utiliza como exemplo o site "revistail.net" ou "revistabrasil.net", que apresenta características típicas de portais falsos: não há jornalista assinando as matérias, não há expediente com nome de responsável, não há CNPJ nem endereço físico. Esses sites misturam notícias verdadeiras (para construir audiência) com notícias completamente falsas — como a de que "Lula impôs sigilo de 5 anos sobre o caso Carlos Zambelli" (o que é juridicamente impossível) ou a de que "Trump sancionou a esposa de Alexandre de Moraes com a Lei Magnitsky" (notícia velha reciclada). O modelo de negócio é vender ataques: uma pessoa ou empresa contrata esses portais para publicar uma calúnia contra um desafeto. O portal, que já tem uma base de seguidores (muitas vezes obtida com conteúdo verdadeiro e de apelo à direita), dispara a notícia falsa. Imediatamente, uma rede de páginas grandes no Instagram e no Twitter (com 500 mil a 700 mil seguidores) replica a mentira, criando a ilusão de que vários veículos independentes confirmaram a informação. O alvo fica irremediavelmente danificado, pois mesmo que depois se prove a falsidade, o dano já foi feito — as tias do WhatsApp e os desavisados já compartilharam. Belut relata o caso do deputado Fábio Oliveira (PR), que após pedir a renúncia de um presidente da Assembleia acusado, foi atacado por esse ecossistema. Ele mesmo foi alvo quando um perfil grande de esquerda insinuou que ele e seu sócio viviam de dinheiro público — mesmo sendo falsa a acusação, o desgaste foi enorme.

Inteligência Artificial: Deepfakes, Guerra de Perfis e a Manipulação do Debate Público

A chegada da inteligência artificial generativa está acelerando exponencialmente a crise de credibilidade. João Belut aponta que já é possível identificar ataques coordenados por perfis falsos no Twitter (X) que usam textos escritos pelo ChatGPT — reconhecíveis pelo uso excessivo de hífen (—), um recurso comum em inglês mas raro no português coloquial. O governo Lula teria criado um "gabinete do ódio" ou "milícia digital" estruturada de dentro do Planalto, com perfis que escrevem claramente com IA. Mas o maior problema são os deepfakes (vídeos falsos). Vídeos de animais fofinhos (tigre atacando, gordos fazendo esporte) são frequentemente gerados por IA e enganam a maioria das pessoas. Vídeos de pessoas falando — como um do youtuber Piperno, de esquerda, dizendo coisas de direita — são mais difíceis de detectar, mas ainda é possível observar pequenos detalhes na boca e na sombra. O problema é que a tecnologia avança rápido: em breve, será impossível distinguir o real do falso. Carlo Cauti alerta que isso pode gerar tumultos reais: imagine um deepfake de um presidente da República confessando um crime ou dizendo uma obscenidade. O potencial de desestabilização é imenso. A solução, no entanto, não pode vir da censura estatal (como o PL das Fake News ou as decisões do TSE/STF), pois o estado brasileiro já demonstrou que usa a censura para proteger aliados. A esperança está nas notas da comunidade (community notes) do X, que funcionam como um sistema de verificação colaborativa, mas até esse mecanismo perdeu fôlego com o tempo. As plataformas, que já censuraram sem lei durante a pandemia (caso dos Twitter Files), também não são confiáveis. O cenário é complexo e sem saída clara.

A Guerra do Twitter (X) e o Debate Público: Entre a Cracolândia e a Ágora Digital

João Belut analisa o papel do Twitter (agora X) como a ágora digital do debate público brasileiro. Apesar de ter menos usuários do que Instagram ou TikTok, o X dita os assuntos: um tema estoura lá, vira trend, e então alimenta as outras redes. Isso ocorre porque o X foi originalmente uma rede de texto, o que o torna o espaço natural do debate político. No entanto, a plataforma vive uma guerra ideológica: durante o governo Biden e a pandemia, os Twitter Files vazados comprovaram censura sistemática contra a direita e contra críticos ao lockdown e à vacina chinesa — sem base legal, apenas por decisão de funcionários fanáticos (a "turma do cabelo azul"). Após a compra por Elon Musk, houve uma melhora significativa com as notas da comunidade. Mas Belut percebe que recentemente o algoritmo parece estar voltando a favorecer perfis de esquerda — em seu próprio feed (ele só segue páginas de direita), aparecem constantemente posts da Gleisi Hoffmann, da Choquei e de deputados do PT que ele não curtiu. A hipótese é que o governo Lula está orquestrando uma milícia digital organizada, com reuniões convocadas pela Janja e por influenciadores, para manipular o algoritmo e gerar pautas favoráveis. Além disso, o selo de "autoridade pública" (contas verificadas do governo) dá mais visibilidade. O resultado é que a "cracolândia da rede social" ainda é o principal termômetro da opinião pública, mas também um campo de batalha assimétrico em que a direita, apesar de ter bons perfis, carece da orquestração de longo prazo que a esquerda construiu por décadas nas universidades, ONGs e mídia.

Os Três Grandes Mistérios da Internet: Satoshi Nakamoto, Daniel Fraga e Joaquim Teixeira

Em um momento mais descontraído, os jornalistas brincam sobre os três grandes mistérios da internet: quem é Satoshi Nakamoto (criador do Bitcoin), onde está Daniel Fraga (ex-apresentador da MTV que sumiu da mídia), e quem é Joaquim Teixeira, o perfil mais enigmático do Twitter brasileiro. Joaquim Teixeira é conhecido por um humor ácido, inteligente e com referências de velha guarda (sobre reis, nobreza, coisas do interior), que não seria facilmente produzido por um jovem. Há teorias de que seria o Emílio Surita (do Pânico), mas Belut duvida que o apresentador tivesse paciência para aquilo. Outros atribuem a identidade a um advogado ou a um intelectual mais velho. O volume de posts é tão grande que Belut suspeita que não seja uma única pessoa, mas uma equipe. Ele mesmo sabe uma versão (que não revela por medo de processo), mas confirma que, assim como Nakamoto, a verdadeira identidade de Joaquim Teixeira é um dos grandes mistérios não resolvidos da era digital. A piada é que o perfil brinca com a própria lenda, já tendo dito que é o Emílio Surita.

O Desafio da Direita: Produzir Cultura, Intelectuais e Memória Histórica

Um dos pontos mais profundos da conversa é a falta de produção cultural e intelectual da direita em comparação com a esquerda. Belut explica que a esquerda constrói pautas de forma orquestrada e de longo prazo: um tema surge na universidade (com estudos financiados por ONGs e agências como USAID), depois é reverberado pela mídia (dominada por jornalistas formados nessa mesma universidade), depois um grande escritório jurídico dá parecer, e finalmente o assunto chega ao Congresso como uma "verdade universal" — muitas vezes sem precisar ser votado, pois já está introjetado. Exemplos: racismo estrutural, fake news, discurso de ódio, pobreza menstrual. A direita, por sua vez, é sempre reativa, vivendo apagando incêndios. Cada deputado de direita atua individualmente, como um ativista digital, produzindo conteúdo de reação, mas não constrói arcabouço teórico, não produz livros, documentários, filmes e teses que vão ficar como memória histórica. Belut cita que sobre o 8 de janeiro existem documentários da Folha, do Globo, do Estadão contando a versão oficial (a versão dos vencedores), e apenas um ou outro pequeno veículo contesta — mas isso não terá o mesmo alcance. A direita precisa urgentemente produzir cultura e formar intelectuais, sob pena de, daqui a 30 anos, a versão oficial que prevalecerá será a da esquerda, e as novas gerações aprenderão nas escolas que houve uma "tentativa de golpe" ensuflada por militares e civis, sem o contraditório. O exemplo de Alexandre Garcia (que por décadas foi uma voz de direita dentro da Globo) mostra que é possível ocupar espaços na grande mídia, mas é preciso estratégia de longo prazo, não apenas reação instantânea nas redes sociais.