Zé Malhada: A Trajetória de Sucesso do Compositor de Milhões
O podcast "Mais Pod Café" recentemente recebeu uma figura extremamente especial no cenário do forró e piseiro nacional. Apresentado por Geonys Xavier, o episódio foi dedicado ao cantor e compositor Zé Malhada, conhecido por ser a mente brilhante (e a voz) por trás de sucessos estrondosos que acumulam bilhões de visualizações e reproduções. Se você é fã de ritmos contagiantes como o forró, o piseiro e o brega, certamente já esbarrou em uma das composições de Zé Malhada.
Em um bate-papo descontraído e recheado de histórias de vida, os dois amigos conversaram sobre música, os bastidores difíceis da fama, a importância de ter um empresário honesto, e a simplicidade de um homem que, mesmo alcançando o topo, não abre mão de suas raízes no Piauí. Confira os melhores momentos dessa conversa inspiradora.
Os Bastidores de "Foge Móbiz" e "WhatsApp"
O episódio começou com Geonys recordando como conheceu Zé Malhada: através da viralização de um vídeo da música "Foge Móbiz" cantada por Jeff Lisboa. Após o vídeo bater um milhão de visualizações rapidamente, o empresário de Zé entrou em contato, e foi assim que a amizade entre o apresentador e o artista começou.
A música "Foge Móbiz" tem uma trajetória curiosa. Ela rodou na voz de vários artistas, mas, como Zé descreve, "voltou para o colo do pai" e estourou em sua própria voz, especialmente no Maranhão, onde o público abraçou a sua versão. Contudo, o maior fenômeno de sua carreira atende pelo nome de "WhatsApp". Zé revelou números impressionantes: em apenas seis meses, a música alcançou a marca surreal de 1 bilhão de acessos gerais nas plataformas. O sucesso foi tamanho que lhe rendeu pagamentos de até R$ 82.000 em um único mês no auge da canção.
A inspiração para seus maiores hits, como "Laranjinha" (a música que abriu as portas de sua carreira) e "WhatsApp", surgiu de conversas de bar e histórias reais de amigos e conhecidos vivendo triângulos amorosos ou situações conjugais engraçadas. Zé tem o talento natural de transformar as vivências do povo nordestino em músicas chiclete, com refrões curtos e fortes (cerca de dois minutos por faixa) que grudam instantaneamente na cabeça de quem escuta.
O Perigo do Mercado Musical: Por que Zé Escolheu Fazer Músicas "Para Si"
Um dos momentos mais reveladores da entrevista foi quando Zé Malhada detalhou o lado cruel da indústria musical. Antes de conhecer seu atual empresário, o Júnior da CN Digital (a quem Zé não poupa elogios, chamando-o de um profissional de caráter inestimável e 100% confiável), Zé enfrentou grandes decepções.
Ao estourar suas primeiras músicas, Zé estava vinculado a outras grandes empresas do ramo que simplesmente embolsavam os rendimentos das plataformas de áudio e vídeo sem repassar os valores devidos ao artista. Em um episódio lamentável, para conseguir retirar sua música "Laranjinha" de uma dessas empresas, Zé precisou assinar um documento abrindo mão de todos os direitos financeiros que haviam ficado para trás. Quando a música foi finalmente migrada para a CN Digital, o valor que ele começou a receber foi tão alto que ele percebeu o tamanho do prejuízo passado e as fortunas que essas empresas desviaram dele.
Foi esse cenário predatório que moldou a filosofia atual de Zé Malhada: "Eu faço música para mim". No início, ele tinha o sonho de ser apenas compositor, enviando suas músicas para artistas de renome nacional gravarem. Mas ele logo percebeu a discrepância: o compositor muitas vezes ganha mil reais enquanto o cantor famoso ganha um milhão fazendo shows com aquela música.
Hoje, Zé lança suas músicas na própria voz. Se um cantor famoso — como João Gomes, Mano Walter ou Raí Saia Rodada (um dos artistas mais humildes que Zé conheceu) — quiser gravar depois, ele libera os direitos sem problemas, pois isso gera dividendos, mas ele não fica "correndo atrás" para enviar seu material. O foco agora é construir e rentabilizar a sua própria carreira nos palcos, gravando clipes simples, muitas vezes com o próprio celular, e utilizando o poder das redes sociais ao seu favor.
A Revolução da Inteligência Artificial na Música
Um tópico inevitável e muito atual que surgiu na mesa foi o uso de Inteligência Artificial (IA) na produção musical. Diferente de muitos músicos que temem a tecnologia, Zé Malhada enxerga a IA como uma ferramenta libertadora e revolucionária para compositores independentes e sem recursos financeiros.
Segundo o compositor, a IA permite que um artista que não canta bem ou que não tem dinheiro para pagar por horas de estúdio produza uma guia (versão demo de uma música) com introdução, arranjo completo e até voz comercial perfeita para apresentar no mercado ou postar nas redes sociais. Zé cita casos recentes de músicas famosas de piseiro ("Sozinho Nessa Torre", por exemplo) que estouraram em todo o Brasil sendo puramente produzidas por IA.
Embora ele concorde que a IA jamais substituirá o sentimento humano, Zé defende que a tecnologia nivela o jogo, dando a oportunidade de estourar um sucesso a um garoto humilde do interior, algo que antes da internet era totalmente dependente de apadrinhamento de grandes emissoras de TV ou gravadoras milionárias. João Gomes, citado por Zé, é o maior exemplo disso: um cantor que surgiu de forma orgânica nas redes sociais e, em pouco tempo, tornou-se o único forrozeiro a gravar com o "Rei" Roberto Carlos.
Raízes Firmes: O Amor pela Família e pelo Piauí
Apesar de viver em pontes aéreas para fazer shows no eixo Rio-São Paulo, o coração e o corpo de Zé Malhada pertencem a Francinópolis, sua cidade natal no estado do Piauí. O podcast abordou a queixa comum de muitos artistas iniciantes que dizem: "Minha cidade não me apoia". Zé refuta essa mentalidade de forma veemente.
Para ele, a falta de apoio de uma ou duas pessoas locais não apaga o carinho e o suporte de toda uma comunidade. Ele conta, com muita gratidão, episódios em que empresários locais o apoiaram incondicionalmente no início de carreira. O dono da "JB Veículos", em Francinópolis, chegou a ceder uma caminhonete S10 nova para Zé rodar por um ano inteiro sem cobrar um centavo, ajudando na logística de seus shows antes que ele tivesse condições de comprar o veículo. Por isso, Zé nunca nega suas raízes, passa suas férias na fazenda do pai no Piauí, investe na região (construindo sua casa e contratando trabalhadores locais o ano todo) e afirma com orgulho que pode dormir de portas abertas na tranquilidade de sua terra.
A Importância da Esposa na Jornada de Sucesso
O lado humano de Zé Malhada brilhou intensamente ao falar de sua esposa, Geovana. O cantor relembrou, com emoção palpável, os tempos de extrema dificuldade financeira antes da fama, que ele define carinhosamente como "época da pindaíba". Zé chegou a morar em um barraco e lembra de dias em que não tinha sequer R$ 10 para comprar um sabonete para o casal, além do estresse de lidar com oficiais de justiça cobrando dívidas de um carro financiado.
Sua esposa suportou a escassez e acreditou no seu sonho ao seu lado. Hoje, com a estabilidade financeira trazida pelos hits bilionários e pela agenda cheia, Zé faz questão de proporcionar do bom e do melhor para ela e para sua filha recém-nascida, Valentina. A gratidão é imensa: "Quem roeu o osso, tem que comer a carne", diz Zé, construindo para a esposa uma casa do jeito que ela sempre sonhou. Atualmente, Geovana também se integra ativamente à carreira do marido, participando das danças (trends) nos videoclipes para as redes sociais (os vídeos mais visualizados são com ela) e roteirizando uma websérie de humor do casal chamada "Seu José e Dona Promessa".
Conselhos de Ouro para Novos Compositores e Cantores
Com a bagagem de quem já esteve lá embaixo e chegou ao topo, Zé Malhada, sempre com extrema humildade, deixou dicas muito práticas para quem quer tentar a vida na música na era digital:
- Qualidade de imagem é investimento, não luxo: Não importa quão boa seja sua música, o mercado moderno (e as plataformas como Instagram e TikTok) exige vídeos bem iluminados e com boa resolução (HD/4K). Se possível, invista no melhor celular ou câmera que puder. Um vídeo com áudio estourado é automaticamente ignorado pelo público e pelos contratantes.
- O Refrão é Rei: Em vídeos curtos para as redes sociais, vá direto ao ponto. Zé tem a estratégia de lançar dois vídeos: um de 1 minuto com a introdução até o refrão, e outro de apenas 30 segundos atacando direto no refrão. A capacidade de retenção do ouvinte online é baixíssima, então entregue a melhor parte imediatamente.
- Não seja inconveniente com outros cantores: Zé aconselha os compositores a não mandarem dez músicas de uma vez no WhatsApp de um cantor famoso. Envie apenas uma, a melhor, vá direto ao assunto (sem o "só dar bom dia e esperar resposta") e aguarde. Quem tem interesse vai te retornar; caso contrário, continue focado no seu próprio trabalho.
- Constância: Não fique esperando fechar um álbum (CD completo) de dez músicas. O mercado atual consome música por dia. Lance uma música de cada vez e não deixe seu público mais de um mês sem novidades. "Quem não é visto, não é lembrado".
Conclusão
O bate-papo de quase uma hora e meia com Zé Malhada no "Mais Pod Café" foi uma verdadeira aula magna sobre perseverança, estratégia no mercado de música digital e, acima de tudo, caráter. Ao mesclar sua sabedoria adquirida pelas dores da indústria com a inabalável fé e carinho pela sua família, Zé demonstra por que suas músicas não são apenas um "som que toca no paredão", mas sim o reflexo autêntico da alegria, da sofrência e do cotidiano do povo nordestino e brasileiro. Uma história inspiradora de um filho do Piauí que fez o país inteiro cantar no refrão da Laranjinha, do WhatsApp e da dancinha do Zé.