Brasil está pronto pra consumir diferente? com Ademir Araújo Silva

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Importação, Inovação e Consumo Consciente: Como um produto milenar está transformando o mercado brasileiro

Neste episódio do Tomorrow Talks, os apresentadores João Pedro Mendonça e Bruno Betega recebem Ademir Araújo Silva, empreendedor e fundador da Misswak Brasil. Com mais de 25 anos de experiência em comércio exterior, Ademir compartilha sua visão sobre os desafios da importação no Brasil, as transformações do mercado global, o impacto da tecnologia nos negócios e a história por trás da Misswak – uma escova dental natural de origem milenar que está introduzindo um novo conceito de higiene bucal no país.

A conversa aborda desde a burocracia alfandegária e a perda de competitividade da indústria nacional até a ascensão do consumo consciente e a importância de vender conceito, não apenas produto.

O cenário atual da importação no Brasil: sobrevivência ou vantagem?

Ademir é categórico ao afirmar que, para muitos setores, importar deixou de ser uma vantagem competitiva e se tornou uma questão de sobrevivência. “A nossa indústria, cada ano que passa, perde competitividade para outros mercados. Para você sobreviver hoje, uma das coisas que você tem que fazer é trazer produto de fora.” Ele explica que, salvo exceções muito específicas, o parque industrial brasileiro não consegue produzir com a mesma eficiência e custo de países como China e Estados Unidos.

O grande vilão apontado não é a falta de matéria-prima, mas sim os processos industriais e a carga tributária. Ademir cita o exemplo do vestuário, que enfrenta uma alíquota de importação de 35%, sem contar PIS, Cofins, IPI, ICMS e demais taxas. “O produto dobra de preço quando chega aqui.” Ele pondera, no entanto, que certas medidas protecionistas são compreensíveis para proteger a indústria local, mas na prática acabam sendo um “cobertor curto” que não resolve o problema estrutural.

Principais riscos e gargalos no processo de importação

Para quem deseja iniciar no comércio exterior, Ademir destaca que o maior erro é não validar o fornecedor. “Hoje você consegue identificar um bom fornecedor lá fora. Na China, existe um sistema similar ao Serasa. Você pode verificar se a empresa realmente é uma indústria, se é idônea.” Ele ressalta que o governo chinês também não deseja litígios comerciais, punindo severamente práticas desonestas.

Outro gargalo crítico é o tempo. Enquanto o consumidor brasileiro quer tudo para ontem, uma importação marítima da China pode levar de 60 a 90 dias. Ademir relata uma situação extrema em que sua carga foi sorteada pela Receita Federal para o “canal vermelho” (inspeção minuciosa) às vésperas de um evento importante. Felizmente, toda a documentação estava em ordem e a mercadoria foi liberada a tempo, mas o episódio ilustra a imprevisibilidade do processo.

Ele recomenda que empresas que usam componentes importados em linha de produção mantenham um estoque de segurança de um a dois meses para evitar paralisação. Já negócios de e-commerce podem pausar anúncios em caso de falta de produto, o que é menos grave do que parar uma fábrica.

Evolução da qualidade chinesa e a mudança de paradigma

Ademir observa que a qualidade dos produtos chineses evoluiu drasticamente nas últimas duas décadas. “Há 20 anos atrás, você comprava um produto chinês e ficava com aquele estigma de que era falso ou de má qualidade. Hoje é padrão primeiro mundo.” Ele atribui essa evolução à modernização do parque fabril chinês, com fábricas automatizadas e operários mais bem pagos, o que elevou o custo, mas também a confiabilidade.

Diferente do passado, quando o fabricante chinês queria vender uma única vez, hoje ele busca ser um parceiro comercial de longo prazo. “Ele quer vender para você hoje, amanhã, depois, e que você o indique para outros. Ele quer ser seu parceiro de negócio.” Isso torna o processo mais seguro para o importador, desde que este faça sua lição de casa.

Tecnologia versus intuição humana: o papel da IA no comércio exterior

Ademir compartilha uma história emblemática: um cliente novo queria confirmar informações obtidas com seu “professor” – o ChatGPT. Embora reconheça o valor da inteligência artificial como ferramenta, Ademir é enfático: “A IA é uma ferramenta, vai ter que ter alguém com análise crítica ali.” Ele explica que a IA trabalha com dados concretos, mas não tem a experiência prática de quem já negociou com determinado fornecedor no passado e sabe que ele não é confiável.

“O professor dele estava parcialmente certo, mas em parte errado, porque ele não sabe o que tem dentro da sua fábrica.” A analogia usada é matemática: 1+1 é 2 para um matemático, mas para um advogado pode ser 3 dependendo da interpretação. Nos negócios, variáveis humanas e contextuais ainda exigem decisões que a IA, sozinha, não pode tomar.

O movimento de volta ao analógico e o consumo consciente

Um dos momentos mais instigantes da conversa é quando Ademir conecta sua trajetória no comércio exterior a uma tendência social mais ampla: a busca por experiências analógicas e produtos naturais. Ele cita o movimento de jovens da Geração Z que estão trocando streaming por cinema, Spotify por vinil, e redes sociais por encontros presenciais.

“O digital ficou tão massivo, tão cansativo, tão desgastante. Estão retomando a conexão com o analógico.” É nesse contexto que produtos como a Misswak – uma escova dental natural usada há mais de 7.000 anos – encontram terreno fértil. A ideia não é apenas vender um objeto, mas vender um conceito de saúde, sustentabilidade e reconexão com a natureza.

Misswak: um produto milenar, uma nova cultura de higiene

A Misswak é um galho (ou raiz) de uma árvore que cresce no Oriente Médio, Paquistão, Índia e partes da África. Utilizada desde os babilônios – e até mencionada na série The Chosen (Netflix) como parte da rotina matinal de Jesus Cristo –, ela contém flúor natural, sílica e substâncias com propriedades antibacterianas e analgésicas. Ademir conta que descobriu o produto durante uma viagem ao Oriente Médio e, após pesquisas, decidiu trazê-lo ao Brasil.

A escova funciona de forma simples: descasca-se a ponta do galho, mastiga-se levemente para criar as “cerdas” e usa-se como uma escova convencional. “Você sai de lá, passa a língua no dente, é como se tivesse feito uma limpeza no dentista. Fica lisinho.” Além da limpeza profunda, o uso contínuo auxilia no clareamento dental. Uma única escova dura de dois a três meses e, ao final, pode ser descartada na terra, pois é 100% biodegradável.

Ademir faz questão de diferenciar: ele não está vendendo um produto, mas sim um conceito de ancestralidade. “Se eu visse isso pendurado numa gôndola de supermercado, sem saber o que é, eu não compraria. Depois que você conhece a história, a origem, os benefícios, aí sim.” Essa abordagem educativa é central em sua estratégia de marketing, e ele já participou de feiras como a Naturaltech para difundir o conhecimento.

Desafios de comunicação e resistência do mercado

A maior dificuldade, segundo Ademir, é quebrar a desconfiança natural do consumidor brasileiro, que não tem o hábito de usar escovas de madeira. Profissionais da odontologia são os primeiros a questionar. “Eu me baseio em estudos científicos. Recomendado pela OMS, Estados Unidos e Oriente Médio têm vários estudos.” Para os céticos mais detalhistas, Ademir disponibiliza os laudos técnicos e se apoia no fato de que milhões de pessoas usam o produto há milênios.

A transição sugerida é gradual: usar a Misswak como complemento (similar a um fio dental) enquanto se mantém a escova convencional. Com o tempo, naturalmente, a escova de plástico perde o sentido. “Da mesma forma que isso é natural, o processo de transição vai ser natural também.”

A importância de estoque e a logística de entrega imediata

Um dos diferenciais competitivos da Misswak Brasil é manter estoque local. Enquanto a maioria dos concorrentes no país ainda opera com vendas internacionais (com prazos de entrega longos), Ademir trouxe o produto para cá, garantindo que o cliente receba em dias, não em meses. Em um mercado onde o frete rápido é um dos principais gatilhos de conversão, isso é uma vantagem significativa.

Ele relembra que, em sua experiência com e-commerce, a taxa de abandono de carrinho muitas vezes está ligada ao valor ou prazo do frete. Manter produtos disponíveis localmente permite controlar melhor essa variável e oferecer uma experiência de compra mais satisfatória.

Conclusão e conexão com o público

Ademir deixa uma mensagem final: o Brasil é um país miscigenado, sem uma única cultura de origem, o que o torna aberto a novas ideias. Produtos como a Misswak, que trazem consigo uma história de milênios e um apelo à sustentabilidade, encontram aqui um público receptivo. “Se você não comprar o conceito, você não vai comprar o produto.”

O episódio termina com um cupom exclusivo de 30% de desconto para os ouvintes (TOMORROW30) e o convite para visitar o estande da Misswak Brasil na Naturaltech (10 a 13 de junho), onde será possível experimentar a escova em tamanho reduzido. O site é www.miswakbrasil.com.br e o Instagram é @miswakbrasil.

Para os empreendedores que se interessaram pela discussão sobre importação, Ademir reforça o conselho: pesquise, valide fornecedores, mantenha estoque de segurança e, acima de tudo, venda conceito, não apenas produto.