Carol de Souza: Da Curitiba Provinciana à Música, Moda e Empoderamento Feminino
Carol de Souza é uma artista multifacetada: cantora de rap, compositora, apresentadora, influenciadora, criadora de conteúdo, ex-dona de loja de roupas, estudante de DJ e, acima de tudo, uma mulher que construiu sua trajetória com muita verdade e atitude. Nascida e criada em Curitiba, em uma família negra (com avó retinta e mãe que é funcionária pública há quase 40 anos), Carol cresceu sentindo-se deslocada em uma cidade de forte influência europeia (ucraniana, polonesa, alemã, italiana), onde não se via representada e onde a cultura era "meio cruel" e conservadora. Ao mesmo tempo, teve acesso privilegiado à arte, pois sua mãe trabalha em um teatro gigante em Curitiba, o que lhe deu contato com palcos, shows e bastidores desde cedo.
Sua paixão pelo rap começou aos 10 anos, ouvindo Racionais MC's, Comando de MC's, Talibã e Firma. Aos 17 anos, idealizou o grupo Garotas de Atitude (com um 'y' para dar um diferencial) e, com dois amigos, organizou uma festa semanal que bombava em Curitiba, onde cerca de 10 grupos de rap se apresentavam por domingo. Essa foi sua primeira grande imersão no rap, mesmo antes de cantar profissionalmente. Paralelamente, fascinada pela costura e pela moda (influenciada por uma tia costureira e por revistas como Marie Claire), estudou Design de Moda no Senac em Curitiba. Abriu uma loja de roupa própria chamada A Firma (nome em homenagem ao grupo de rap que ouvia), com moletons inspirados em uniformes de trabalhadores americanos (workwear).
Sua relação com a moda e os tênis sempre foi visceral. Na adolescência, negociava com a mãe: se limpasse a casa, ganhava um Adidas Superstar. Chegou a ter seis caixas de Adidas em cima do guarda-roupa, um símbolo de status e poder para ela. Hoje, Carol define que o tênis representa poder, status, ascensão, pertencimento e estética. Ela faz questão de destacar o privilégio de poder usar tênis caros, em um país onde, há pouco mais de 100 anos, pessoas pretas eram proibidas de usar sapatos ou tinham o acesso dificultado pelas lojas.
Rimas e Melodias: O Coletivo que Marcou o Rap Feminino
Em 2017, Carol fundou (juntamente com outras seis artistas) o coletivo Rimas e Melodias, um grupo formado por MCs e cantoras que se tornou um fenômeno. A ideia inicial era apenas gravar uns vídeos para brincar, mas o projeto ganhou força: o primeiro show lotou, o segundo também, e em pouco tempo elas estavam gravando um disco na Red Bull, com clipes, parcerias (até com a Nike) e todo o apoio da indústria. Para Carol, o Rimas e Melodias foi seu "momento fenômeno" e é sua "cerejinha do bolo". O grupo é especial porque, na época, mulheres não se juntavam para fazer música no rap, e a diversidade de estilos (trap, R&B, funk, música de amor, crítica social) em um coletivo de sete mulheres era inovadora. Carol considera as outras integrantes como suas irmãs (já que tem apenas irmãos homens) e torce para que, em 2025, elas consigam se reunir novamente para lançar um novo trabalho ou fazer uma turnê.
A Transição para o Mundo da NBA e dos Sneakers
A entrada de Carol no universo do basquete profissional e dos sneakers foi inusitada e cheia de medos. O convite para ser apresentadora da NBA (no programa "Resenha Bud") chegou de repente, e ela inicialmente achou que era engano. Superando o medo de falar ao vivo sobre um esporte pelo qual sempre foi apaixonada (torce para o Chicago Bulls desde os 10 anos), ela se destacou. Sua passagem pela emissora incluiu momentos históricos, como uma transmissão de jogo comentada apenas por mulheres (ela, Helen Valias e Alana Ambrósio) e outra com apenas pessoas pretas (ela, J Plays e Helen). Esses marcos foram importantes para ela, que sempre sentiu na pele o machismo e a falta de representatividade no esporte e no rap. Foi na NBA que Carol também se consolidou como apresentadora do Sneaker NBA (programa sobre tênis que teve duas temporadas), onde pôde unir seu amor por moda, basquete e storytelling. Ela revela que seu convidado mais emocionante foi a medalhista olímpica Rafaela Silva, uma grande sneakerhead (que os recebeu descalça em sua casa), cuja trajetória de vida a emocionou profundamente.
Relação com Marcas: Adidas, Nike e OnlyFans
A relação da Carol com as marcas é uma história de persistência e gratidão. A primeira grande marca que acreditou nela foi a Adidas. Ainda no início da carreira, com poucos seguidores, ela enviou um e-mail para a marca e foi atendida, recebendo um look (tênis, calça, blusa, boné). A relação com a Adidas durou cerca de 8 anos, até que a Nike (marca parceira da NBA) entrou em sua vida, gerando até alguns comentários de fãs que a criticaram por "trocar de lado". Hoje, Carol tem um contrato de afiliação com a Nike e já apareceu no site e no aplicativo da marca, além de ter feito campanha de Black Friday da Jordan. Para ela, ser validada por gigantes globais como Nike e Adidas é uma prova de que ela está no caminho certo e uma arma contra a síndrome do impostor.
Outra faceta surpreendente é sua presença no OnlyFans. Ela entrou na plataforma em 2023 (convidada pela própria plataforma) e define seu conteúdo como sensual, sem nada explícito, não muito diferente do que já posta no Instagram. Ela revela que os conteúdos que mais dão dinheiro são os mais personalizados (como fotos de pés, por exemplo) e que o faturamento no OnlyFans é em dólar, tendo batido seu recorde recentemente.
Identidade, Raça e a Luta Contra o Preconceito
Carol abordou abertamente a complexidade de sua identidade racial. Por ser uma mulher de pele mais clara, em São Paulo (onde há pessoas muito mais escuras), ela já ouviu a frase "você não é preta". Ela, no entanto, nunca teve dúvida sobre quem é. Criada em Curitiba, sempre soube que era uma mulher negra, pois a cidade nunca a deixou esquecer. Ela critica a classificação no Brasil por tom de pele e reforça que sua vivência é de uma mulher preta, que já sofreu racismo (relatou um caso de vizinho polonês que a olhava com ódio na infância). Sua ascensão social, porém, veio através do trabalho: sua avó entrou no serviço público na limpeza e se tornou técnica em laboratório; sua mãe trabalha há quase 40 anos no teatro público. Carol reconhece que não passou pelas mesmas dificuldades financeiras que muitos, e por isso não mente em suas letras, mas também não permite que ninguém meça sua dor ou sua experiência.
Ela tem uma visão clara sobre o empoderamento feminino no rap. Carol se orgulha de ter pavimentado um caminho para as novas gerações de meninas rappers, que hoje podem falar de sexualidade, usar biquíni e se expressar com mais liberdade, sem o mesmo sufoco que ela passou. Sua música "Roxa" é um exemplo: a letra fala sobre a cor da sua genitália, algo que ela faz questão de normalizar para que todas as mulheres entendam que não precisam se enquadrar em padrões irreais.
Planos para o Futuro e Mensagem Final
Carol não para. Ela está estudando para ser DJ (no Senac, inclusive) e planeja lançar um novo EP em 2026, com um aspecto mais antigo, puxado para o jazz e a melancolia, algo que ainda não explorou muito. Ela também tem o sonho de ir a Nova York assistir a um jogo da NBA (seu maior sonho de consumo). Sua mensagem final é sobre gratidão e coragem: ela é grata por poder viver dos seus sonhos, mas reforça que é preciso estudar, se preparar e, acima de tudo, ser autêntica. Ao mesmo tempo, ela não compactua com a romantização do esforço excessivo: já fez propósito de não comprar roupa por seis meses e mudou seus hábitos de consumo. Carol de Souza é a prova de que é possível estourar na vida, mesmo que não se estoure (como diz a letra de sua música preferida, "No Caminho do Bem"), basta seguir seu próprio caminho.