A Tríade Perfeita: Como Basquete e Música Construíram a Cultura Sneaker
A conexão entre tênis, basquete e música é uma das mais fortes e duradouras da cultura pop. Para entender essa relação, é preciso voltar aos anos 50, quando o Chuck Taylor All Star da Converse dominava as quadras. Chuck Taylor, um jogador de basquete que se tornou vendedor, foi o primeiro grande nome a ter um tênis de assinatura, transformando o calçado de mero instrumento de trabalho em um símbolo de identidade. Nos anos 80, a rivalidade entre Converse (com Larry Bird e Magic Johnson) e Adidas (que tinha menos estrelas) movia o mercado, mas foi nos guetos de Nova York que uma nova narrativa começou a surgir.
Grupos de hip hop e B-boys nas periferias de Nova York começaram a adotar os tênis de basquete como elementos de estilo e pertencimento, indo além da função esportiva. O momento-chave dessa transição foi o sucesso do grupo Run-DMC com a música 'My Adidas', que cimentou a parceria entre o rap e a marca das três listras. O Superstar deixou de ser apenas um tênis de quadra e se tornou um ícone do hip hop, carregando consigo toda a história e luta da cultura preta. No entanto, essa popularização também levantou questões sobre apropriação: o que antes era um código da periferia nova-iorquina virou mainstream, usado por pessoas sem qualquer conexão com aquele universo, esvaziando o significado original. O grande dilema é: como dar visibilidade a símbolos culturais sem que eles percam sua essência? A resposta talvez esteja em respeitar a história, estudar e, ao consumir, não transformar a cultura em uma moda passageira.
Kanye West: O Gênio que Revolucionou a Indústria dos Tênis
Se o basquete plantou a semente, foi a música, especialmente o hip hop, que fez a cultura sneaker florescer de maneira avassaladora. O grande divisor de águas foi Kanye West. Independentemente de opiniões pessoais sobre sua figura polêmica, seu impacto criativo é inegável. Antes dele, colaborações entre músicos e marcas eram raras ou superficiais. Kanye mostrou que um artista poderia ser um verdadeiro diretor criativo, desenhando tênis (como o Nike Air Yeezy) e criando um universo estético próprio.
Sua passagem pela Adidas, com a linha Yeezy, redefiniu o mercado. Ele provou que um artista poderia mover uma indústria bilionária. A partir daí, portas se abriram para nomes como Pharrell Williams, Travis Scott e Tyler, the Creator. Kanye é descrito como um 'vulcão' criativo, cuja mente inquieta gera ideias que influenciam moda, música e comportamento. Ele pavimentou o caminho para que artistas fossem vistos como criadores de produto, não apenas garotos-propaganda.
Nomes como Travis Scott se tornaram fenômenos, com tudo o que tocam virando ouro (Nike, Dior, McDonald's, Oakley). Sua capacidade de gerar hype é inquestionável, ainda que haja debate sobre seu envolvimento real no design. A questão é que Kanye West, para o bem ou para o mal, é o responsável por essa mudança de paradigma, tornando a figura do músico uma peça central na estratégia das marcas de sneaker.
O Estilo Único de Oasis e a Contribuição do Rock
Apesar da força do hip hop, outros gêneros musicais também deixaram sua marca. O rock, por exemplo, tem uma conexão menos ostensiva mas igualmente significativa. Enquanto o hip hop usa a vestimenta como uma 'janela' para o empoderamento e a ostentação, o rock a usa como uma 'armadura' para a introspecção e a rebeldia. O Converse Chuck Taylor é um clássico do punk e do grunge (Nirvana), enquanto o Vans é associado ao hardcore.
Um exemplo de estilo particularíssimo é a banda Oasis. A estética britânica de Liam e Noel Gallagher – com casacos de pesca, jaquetas Adidas e o famoso chapéu bucket (estilo Seu Madruga) – é única e influenciou uma geração. A volta da banda após anos parada gerou um hype que a Adidas soube aproveitar com coleções específicas. Outros nomes do rock, como os integrantes do Korn (no metal), também construíram uma estética própria, misturando dreads, roupas largas e jaquetas Adidas, que dialoga tanto com o hip hop quanto com o skate.
O Pop e a Oportunidade Perdida: Por que Artistas como Anitta e Taylor Swift Têm Poucas Collabs?
Há uma lacuna evidente quando se analisa a relação do pop com o universo dos tênis. Enquanto o hip hop e, em menor escala, o rock geraram inúmeras colaborações e produtos de assinatura, o pop ainda é subexplorado. Artistas do tamanho de Taylor Swift (que, segundo a análise, existe graças ao caminho aberto por Kanye West) e Britney Spears, que ditaram moda nos anos 2000 (calças de cintura baixa, estilo Y2K), raramente tiveram seus nomes atrelados a lançamentos de tênis.
No Brasil, a situação é ainda mais crítica. Anitta, uma artista de alcance global, nunca teve uma colaboração de peso com marcas como Nike ou Adidas. O mesmo vale para Ludmilla. O apresentador destaca que a Adidas parece ter feito mais com João e Pablo Vittar do que com a própria Anitta, um sintoma de que o mercado internacional ainda não sabe (ou não quer) beber da fonte do pop brasileiro e do funk. Gêneros como funk, pagode e sertanejo têm estéticas próprias que poderiam ser exploradas. O sertanejo, com sua pegada cowboy, poderia se conectar com botas e acessórios, mas a indústria ainda engatinha nesse sentido. A exceção fica para Justin Timberlake, que bebeu do hip hop e teve colaborações com a Nike/Jordan (como o Air Jordan 3 'JTH'), e para Rosalia, que recentemente se uniu à New Balance.
Onde Está o Seu Artista Favorito? O Apelo por Mais Colaborações
O episódio conclui que o universo dos tênis ainda tem um campo fértil a explorar na música. Artistas como Tyler, the Creator (que tem uma longa história com a Converse e sua marca Golf le Fleur) são exemplos de como a união pode dar certo. A proposta final do episódio é um convite ao público para refletir e comentar: quais artistas você gostaria de ver com um tênis de assinatura? Seria uma collab da Joelma? Ou de outros ícones nacionais? A conversa levanta a importância de valorizar a produção local e de cobrar das marcas que invistam em estéticas brasileiras, indo além do hip hop norte-americano. Afinal, se Bad Bunny e J Balvin (que bebem da fonte do hip hop) conseguiram, por que não Anitta e Ludmilla com suas próprias referências?