O Projeto Kickstory: Uma Década Contando Histórias de Pessoas Através dos Tênis
O Kickstory é muito mais do que um portal sobre tênis. Criado em 2016 por Ian e Thaís, o projeto nasceu como um hobby, uma forma de entrevistar amigos que gostavam de tênis, em uma época em que a palavra "sneaker" ainda não era popular no Brasil. A ideia era simples: fotografar e fazer três perguntas rápidas. Com o tempo, o projeto evoluiu para uma plataforma de entrevistas aprofundadas, onde o tênis é a desculpa para contar a história de pessoas fascinantes – designers, atletas, artistas, criadores de conteúdo.
Hoje, o Kickstory já realizou mais de 200 entrevistas (cada uma documentada com um certificado especial e uma silhueta de tênis desenhada à mão), e mantém um site com todos os conteúdos organizados como um verdadeiro arquivo. A dupla já viajou para diversos países em busca de histórias: Estados Unidos (Boston, Portland, Los Angeles, Palo Alto, Nova York), Europa (Milão, Amsterdã, Lisboa, Madri, Porto, Barcelona) e, claro, várias cidades do Brasil. A ambição é futuramente chegar ao Japão. O grande diferencial do Kickstory é a qualidade: cada entrevista é traduzida para o inglês e português, e as fotos (feitas em parceria com fotógrafos talentosos como Júlio e Pérola) são de altíssimo nível.
O Processo Criativo: Como Escolher e Entrevistar 200 Pessoas
O processo de seleção de entrevistados começou de forma orgânica, via Instagram e indicações. Hoje, eles mantêm uma lista no Notion com 500 nomes, organizados por cidade, país e o motivo pelo qual gostariam de entrevistar a pessoa. O critério principal é: a pessoa precisa ter uma história legal que vai além do tênis. Não basta ser um colecionador ou ter um tênis caro; é preciso que a vida da pessoa seja interessante e que o tênis seja uma parte significativa dessa narrativa. Thaís faz a pesquisa sobre a pessoa, enquanto Ian pesquisa a fundo sobre os modelos de tênis mencionados. Ela conduz todas as entrevistas (inclusive com figuras internacionais), e ele cuida das fotos e da parte técnica.
A paixão e o cuidado são tais que, após 200 entrevistas, eles lançaram camisetas limitadas (a cada 50 entrevistas) que estampam todas as silhuetas de tênis dos entrevistados daquela série, com os nomes das pessoas abaixo de cada desenho. A quarta camiseta (com 200 entrevistados) já foi lançada, e a quinta está a caminho. Para Ian e Thaís, criar conteúdo denso e de qualidade é uma escolha que faz sentido para eles, mesmo sabendo que é o caminho mais difícil e que o retorno financeiro do Kickstory é praticamente nulo – todo o dinheiro que entra vem da produtora (também chamada Kickstory, mas separada), que presta serviços para marcas. O Kickstory, por si só, é um projeto que dá prejuízo, mas que é alimentado pela paixão e pelas conexões humanas incríveis que ele proporciona.
As Entrevistas Mais Marcantes: De Designers a Atletas Paralímpicos
Ao longo de quase 10 anos, Ian e Thaís acumularam histórias inesquecíveis. Entre os entrevistados estão alguns dos maiores nomes do design de tênis e da cultura sneaker mundial:
- Jeff Staple (designer do icônico Nike Dunk "Pigeon"): a primeira grande entrevista internacional. Ele os recebeu em seu escritório em Nova York, mostrou coisas que não deveria, deu presentes e foi extremamente generoso.
- Jason Mayden (designer do Air Jordan 17 "Mully" e atual designer na Jordan): a entrevista mais inusitada. Eles foram a Palo Alto (cidade de Stanford), e ele os levou para passear no campus, contou histórias de como Phil Knight e Michael Jordan financiaram sua faculdade, pagou o café deles e deu um livro infantil sobre design.
- Michael Hesterberg (designer da Reebok): entrevistado dentro do arquivo da Reebok em Boston, em um momento em que ele já havia deixado a marca. A entrevista foi tão especial que ele enviou para Ian e Thaís um tênis antes do lançamento global – uma cor que não veio para o Brasil.
- Chris Hill (designer da Reebok, hoje na Jordan): a surpresa foi a personalidade. Ele é um homem grande e de aparência séria, mas se mostrou uma pessoa extremamente doce e apaixonada, contando histórias emocionantes.
- Verônica Oliveira (atleta paralímpica): uma das entrevistas mais emocionantes. A sapatilha que ela usava era a primeira que teve na vida, e ninguém sabia informar o nome do modelo (nem na Nike). Ian pesquisou e descobriu o nome, o que a deixou extremamente feliz.
- Nick DePaula (jornalista especializado em tênis): a entrevista foi na casa dele, onde ele mostrou samples raríssimos. A Thaís se sentiu intimidada pelo conhecimento dele, mas a entrevista fluiu e Nick disse que foi a melhor entrevista que ele já deu.
- Rod Vinhas (designer brasileiro) e Pomb (artista brasileiro que desenhou um tênis para a Nike que poucos conhecem): valorizados como exemplos de brasileiros que fazem a diferença no universo sneaker, muitas vezes mais respeitados lá fora do que aqui.
- Diego Garcia (diretor de basquete da Nike nos EUA), Roger Mancha (atleta olímpico), Ari (do podcast PodDelas), Don Cesão (entrevistado com a filha no colo), Will (No My Face), e até o Caio Vitor (apresentador do podcast).
O Desafio de Monetizar Conteúdo de Qualidade no Nicho de Tênis
O episódio também foi um desabafo sobre a dificuldade de criar conteúdo de qualidade no segmento de tênis no Brasil. Ian e Thaís, assim como o apresentador Caio Vitor, ressaltam que menos de 10% (e provavelmente menos de 5%) de toda a renda que já geraram como criadores de conteúdo veio de marcas do próprio nicho. A maior parte do dinheiro vem de trabalhos para marcas de outros segmentos (como Fiat, G-Sock, Kid Design). O mercado de tênis é visto como ingrato, que não apoia os criadores que estão na base, preferindo investir em influenciadores de lifestyle de fora do nicho ou em agências.
A crítica central é que as marcas (Nike, Adidas, Puma, etc.) tratam o tênis como um mero produto, e não como um objeto de cultura. Elas não convidam a mídia especializada para apresentar planos futuros, não criam conexão com a comunidade, e terceirizam a comunicação para agências que muitas vezes não entendem a fundo a cultura sneaker. Isso gera um ciclo vicioso: sem conexão, o produto se torna genérico; com a massificação, o desejo se esvai. O exemplo citado foi o Air Jordan 1 "Shattered Backboard" 3.0, que sobrou nas prateleiras porque a Nike banalizou a silhueta, não contou a história e cobrou um preço abusivo (cerca de R$ 1.600). Outro exemplo é o Nike Dunk, que depois de centenas de colorways sem história, agora está disponível em qualquer loja, muitas vezes com desconto.
Em contrapartida, o sucesso da Oakley é apontado como um exemplo de como se conectar com o público: a marca abriu as portas de seu bunker para criadores de conteúdo, criou experiências memoráveis, investiu em embaixadores (como Travis Scott) e comunicou sua história de forma eficaz, gerando desejo – mesmo com produtos caríssimos (como o Plantaris Titanium de R$ 13.600).
Bate-Bola, Planos Futuros e o Número do Dia
No bate-bola final, Ian e Thaís revelaram:
- Entrevista dos sonhos (vivo ou morto): Thaís escolheu Stella McCartney; Ian escolheu Kobe Bryant.
- Entrevista mais difícil/trabalhosa: Thaís apontou Nick DePaula (por intimidar); Ian apontou Jeff Staple (por ser a primeira vez que fotografou um fotógrafo profissional, o que gerou ansiedade).
- Viagem favorita: A tour pelos Estados Unidos (Boston, Portland, Los Angeles).
- Entrevista que mais surpreendeu: A de Caio Vitor (por não saberem nada de sua trajetória e se surpreenderem com sua paixão).
- Se pudesse tomar café com alguém: Thaís escolheu Miley Cyrus; Ian escolheu Allen Iverson para jogar um 1x1.
- Filme recomendado: Thaís indicou "Waves" (drama dividido em duas partes); Ian indicou "Warfare" (filme de guerra realista).
O número do dia foi 10.030. A dica: quilometragem da maior distância entre duas cidades já visitadas pelo Kickstory. A resposta: a distância entre Curitiba e Arnhem (Holanda) é de aproximadamente 10.030 km. A curiosidade foi acertada rapidamente por Ian, que mostrou todo seu conhecimento geográfico e de organização das viagens.
Planos Futuros e um Apelo por um Documentário
O apresentador Caio Vitor fez um apelo entusiasmado para que Ian e Thaís transformem todo o material de bastidores (vídeos gravados durante as viagens, entrevistas em carros, restaurantes, etc.) em um documentário. A ideia é que, com a cota de produção nacional exigida das plataformas de streaming, seria viável viabilizar o projeto. Ian e Thaís revelaram que têm muito material de bastidores, inclusive cenas deles entrando na porta errada da Nike, perdidos em Palo Alto, e conversas informais com os entrevistados. Eles consideram a ideia um sonho, assim como o livro que também querem fazer, mas esbarram na falta de tempo e recursos – já que precisam dedicar a maior parte de sua energia à produtora para pagar as contas. O episódio termina com um pedido aos telespectadores: que comentem e mostrem interesse em um documentário, para que eles se sintam motivados a reunir o material e correr atrás do projeto.