#41 - ANDRÉ MELLO (CANAL O-STORY)

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De Jacareí ao Mundo: A Trajetória de André Melo, o Maior Colecionador de Oakley do Brasil

André Melo, natural de Jacareí (SP), construiu uma das mais respeitadas coleções de Oakley do país, transformando sua paixão de infância em um trabalho de conteúdo que hoje é referência para fãs e curiosos. Sua história com a marca começou na adolescência, frequentando surf shops locais e admirando os produtos da Oakley, que sempre foram os mais caros e "utópicos" dentro de um universo já elitizado de marcas de surf. Ele relata que, com 14 ou 15 anos, ele e um amigo andavam pelas vitrines sem coragem de entrar, fugindo dos vendedores. Seu primeiro produto foi uma bermuda com defeito e, depois, um tênis Flesh Stick (um modelo "gordão"), pagando em carnês que comprometiam quase todo seu salário de R$ 700. Ele mesmo resume: "Ganhava R$ 700, devia R$ 1.000 em carnê de roupa e tênis".

A virada de chave aconteceu em 2015, quando ele descobriu produtos da Oakley em plataformas de revenda baratos (como o enjoei, que já não existe mais) e começou a comprar, vender e estudar a fundo a marca. Ele foi se aprofundando em grupos de colecionadores no Facebook, entendendo que cada produto tinha uma história. Em 2018, durante seu casamento, ele chegou a vender óculos para ajudar a pagar a festa. Um dos momentos decisivos foi a compra de um relógio Time Tank (Minute Machine) por R$ 1.700 na época (valor de revenda de cerca de R$ 2.300), comprometendo parte do dinheiro da festa, mas o relógio ficou e ele usou na cerimônia. A paixão falou mais alto.

Em agosto de 2020, durante a pandemia, André criou seu canal no YouTube. Seu primeiro vídeo foi um desastre: gravado com a câmera frontal de um Samsung A10, com 55 minutos de duração bruta que foram editados para 9 minutos, cheio de gagueiras e eco em um quarto vazio. Mas ele persistiu. O vídeo que mudou tudo foi um de 2021, especulando sobre o retorno da linha X-Metal após a Oakley postar um teaser no Instagram. Ele gravou às 23h e postou. Em dois dias, o vídeo lhe rendeu 6.000 horas de watch time, o que lhe permitiu bater a meta de monetização do canal e consolidou sua presença como referência em conteúdo sobre a marca.

A Conexão com a Oakley Brasil e o Reconhecimento do Trabalho

André conta que sua relação com a Oakley oficial começou por meio do apresentador Caio Amato (podpah), que já o seguia no Instagram. Em 2022, durante uma viagem de Caio a Nova York, André pediu fotos de uma loja famosa. A amizade se estreitou e, quando Caio veio ao Brasil no final de 2022, André foi convidado a conhecer o escritório da Oakley em São Paulo. No mesmo dia, ele recebeu mensagem do gerente de produto para conhecer o showroom. Essa conexão com a marca foi fundamental: ele passou a ter acesso antecipado a novas coleções (todos os óculos novos chegam primeiro à Califórnia e depois ao showroom brasileiro) e a gravar vídeos oficiais. Ele também colaborou na reinauguração da loja do Morumbi e teve suas peças expostas no bunker da Oakley durante as Olimpíadas de Paris 2024, onde esteve como convidado da marca.

André destaca a importância do reconhecimento de seu trabalho pela própria Oakley. Ele foi levado para as Olimpíadas de Paris, acompanhou a abertura dos jogos (mesmo achando o evento mais bonito na televisão do que presencialmente por conta da chuva e logística) e teve suas peças raras expostas. Ele atribui isso ao respeito que a marca desenvolveu por seu conteúdo, uma relação de benefício mútuo que raramente acontece com criadores de conteúdo focados em outras marcas. Ele ressalta que se fosse um criador focado apenas em Nike ou Adidas, provavelmente não teria esse mesmo apoio.

Oakley: História, Design e a Lendária Linha X-Metal

André trouxe para o estúdio uma verdadeira aula de história da Oakley, mostrando peças raras de sua coleção pessoal. Ele explicou que o primeiro óculos esportivo do mundo e o primeiro da Oakley foi o Eyeshade (1984), usado pela primeira vez no Tour de France por Greg LeMond. Antes dele, a marca produzia apenas goggles de motocross. O Eyeshade surgiu quando o fundador Jim Jannard, ao passar por uma ponte, percebeu que os óculos da época não protegiam lateralmente; ele voltou ao laboratório, pegou uma lente de goggle, usou arames de cabide para fazer as hastes e fita isolante para prender, criando o protótipo.

Outro modelo essencial é o Frogskins (1985), que nasceu de uma história curiosa: Jannard não queria lançar um modelo tão comercial, pois preferia focar em produtos disruptivos, mas a empresa precisava de grana. Ele chamou o modelo de "Frogskins" (pele de sapo), que é uma gíria para "dinheiro sujo", indicando que aquele produto era um mal necessário para bancar os projetos inovadores. O Frogskins foi um best-seller por muitos anos e, ironicamente, é o modelo que financia até hoje o bunker da Oakley na Califórnia.

A Era de Ouro da Oakley: X-Metal e o Over The Top

A linha X-Metal é considerada o suprassumo da marca, uma era de muito prestígio que, infelizmente, não existe mais. Os óculos X-Metal (Romeu, Juliet, Penny, Mars) são feitos de uma liga metálica complexa, compostos por dezenas de peças (em alguns modelos, 30 ou 40 peças), montados manualmente com acabamento feito à mão. Eram extremamente caros de produzir e, com o tempo, deixaram de vender, sendo descontinuados no início dos anos 2010. O Brasil foi o último país a parar de vender a linha. Hoje, esses óculos são altamente cobiçados por colecionadores, com valores de revenda variando muito: um X-Squared pode ser encontrado por R$ 2.000 a R$ 3.000, enquanto um Romeu 1 pode chegar a R$ 7.000 a R$ 12.000, dependendo da cor e estado.

André ensinou a forma correta de usar um X-Metal, que deve ser tratado como uma joia: colocar e tirar pela parte de trás da cabeça, acompanhando a circunferência do crânio, nunca puxando pelas laterais (o que pode trincar a lente no Romeu ou danificar as borrachas). Ele também mostrou o icônico Over The Top (2000), um óculos de resina (não metal) que se tornou famoso nas Olimpíadas de Sydney 2000 usado pelo corredor Ato Boldon. Diferente do X-Metal, o Over The Top é flexível, e André comentou que ele também aparece no filme Blade 2 (com lente vermelha). Sobre a linha X-Metal, há um boato de que a Oakley poderia lançar uma versão do Plantaris em titânio, que seria uma espécie de herdeiro espiritual do X-Metal, mas por enquanto é apenas especulação.

A Medusa e a Conexão com o Funk e a Rave

Uma das peças mais icônicas e bizarras da Oakley é a Medusa, um conjunto que consiste em um capuz de couro costurado à mão e um goggle que se encaixa no capuz. Lançada por volta de 2001/2002, a Medusa tem uma produção estimada de apenas 1.000 unidades do goggle e 500 do capacete, segundo informações de colecionadores. A peça é completamente não funcional: a visão periférica é quase nula (visão de túnel), o capuz de couro não é adequado para neve (molharia, ressecaria e apodreceria), e o design é mais para estética do que para uso real.

André teoriza que a Medusa foi adotada em dois mundos opostos: nas raves (pelo design pós-apocalíptico, estilo Mad Max, e para ostentar algo raro e estranho) e no funk (como símbolo de pertencimento e ostentação). A peça também lembra o filme "O Livro de Eli" (2010), onde o protagonista usa um goggle similar e uma mochila Oakley durante todo o filme. Na atualidade, a Medusa ainda é um objeto de desejo de colecionadores.

O Fenômeno Plantaris e o Futuro da Oakley

André presenteou os apresentadores com um óculos Laterales (da mesma família do Plantaris). O Plantaris, Laterales e Meseter são nomeados em homenagem aos músculos da anatomia do sapo (plantaris, lateralis e messeter). O plantaris é o músculo responsável pela impulsão do sapo, e a referência é uma evolução dos clássicos Frogskins. O design do Plantaris é visto como um artefato do futuro, algo que será lembrado como icônico daqui a 30 anos. André acredita que o Plantaris já se consolidou como um produto histórico, e novas cores (como um amarelo neon com lente roxa) seriam muito bem recebidas.

Sobre o futuro da marca, André destaca a contratação de Travis Scott como Chief Visionary Officer. Ele acredita que, diferente de outras marcas que contratam celebridades apenas como nome (como a Puma com Rihanna), Travis Scott é um cara que realmente se envolve no design e na estética dos produtos. Ele já colaborava com a Oakley antes do cargo, e sua visão pode ajudar a Oakley a "reimaginar produtos clássicos", misturando a linguagem da Cactus Jack com a brutalidade e o design disruptivo da Oakley. A tendência para os próximos anos é a volta das cores neon (marca-texto, rosa, flúor), e a linha Players Collection (frames mais volumosas) pode ganhar mais tração.

Bate-Bola e Curiosidades

  • Tênis preferido (Oakley): Flesh Stick (primeiro tênis). De outra marca: Air Force 1 (especialmente a cor experimental marrom com sola amarela).
  • Óculos preferido (Oakley): Juliet Plasma com lente Ice.
  • Próximo lançamento no radar: A versão de titânio do Plantaris, se for verdade.
  • Item raro que deseja adquirir: Relógio Time Bomb (primeiro relógio da Oakley, que custa a partir de R$ 6.000 em full set).
  • Óculos mais caro de sua coleção: Romeu 1, que vale entre R$ 7.000 e R$ 12.000.
  • Quantidade de óculos na coleção: Mais de 270 (aproximadamente 273-276).
  • Uso da Medusa: Ele usou a peça em Paris a pedido de Caio Amato e apareceu em fotos ao lado de atletas como Fred Kerley e Andre De Grasse, que usaram seus óculos (Medusa e Over The Top) durante as Olimpíadas. Suas peças ficaram expostas no bunker da Oakley na França.

Jogo Usa/Guarda/Joga Fora: A Hierarquia dos Óculos Oakley

No quadro final, André foi desafiado a escolher, entre três modelos, qual usaria, qual guardaria e qual jogaria fora. As respostas foram:

  • Juliet/Romeu 1/Penny: Usaria Juliet, guardaria Romeu 1 (pelo peso histórico), jogaria fora o Romeu 2 (que ele considera o pior dos X-Metal).
  • Mars/Over The Top/Plantaris: Usaria Plantaris, guardaria Over The Top, jogaria fora Mars (sacrilégio, mas optou pelo uso).
  • Radar EV/Sutro/Tump: Usaria Radar EV, guardaria Tump, jogaria fora Sutro (não gosta no rosto).
  • Gascan/Jacket Redux/Flack: Usaria Gascan, guardaria Jacket Redux, jogaria fora Flack (fácil).
  • Frogskins/Hobrook/Pit Boss: Usaria Frogskins, guardaria Pit Boss, jogaria fora Hobrook.
  • Tif/Flack/Half Track: Usaria Tif, guardaria Flack, jogaria fora Half Track.

Número do Dia: A Invenção dos Óculos Escuros

O número do dia foi 1200. A dica: relacionado a óculos. A resposta: por volta do ano 1200 (século XII), os juízes chineses usavam lentes de cristal fumê (quartzo defumado) não para proteger do sol, mas para esconder a expressão dos olhos durante os julgamentos. Este é considerado o primeiro uso social e simbólico de óculos escuros. Existem registros mais antigos, como na Era do Gelo (marfim) e na Roma Antiga (esmeraldas), mas estes eram para proteção contra luz e itens de luxo, não para uso simbólico como o dos juízes chineses.